Maioridade penal ou maioria histérica?

Não ando acompanhando nada ultimamente com a frequência que deveria, pois pensar sobre o ensino e adaptar-me a uma nova metodologia que exige que eu me vire do avesso, inclusive mentalmente, tem me drenado uma energia danada. Minha única fonte de informações tem sido o Facebook e, ainda assim, durante os finais de semana. No entanto, a “discussão” sobre a maioridade penal, confesso, me tem embasbacado.

Um amigo posta uma matéria da IstoÉ onde se “debate” a redução da maioridade penal para 16 anos. Leio uma opinião disfarçada de debate (daí as aspas na palavra “debate”) onde o fechamento da matéria, a parte mais importante e que por senso comum, é onde bate-se o martelo – inclusive na cabeça do leitor – sobre o tema. E a IstoÉ assume esse véu de informação para depois dar seu veredito: falta rigor e severidade para a penalização do menor.

Por um lado, a revista expõe um argumento muito convincente, e justo: se o menor de idade tem mais e mais direitos, então deveria ter mais deveres e obrigações. Justo, concordo com o princípio, mas discordo do modo como a coisa foi tratada pela revista. O “jornalista” invoca até a decisão sobre a mudança de sexo que os menores passam a ter para justificar seu argumento: se menor pode decidir sobre seu sexo, então tem que poder responder penalmente por seus atos na mesma idade em que se considera que tem poder de decisão sobre seu corpo.

Acho o argumento injusto, capcioso e mesmo indecente, portador de um moralismo velado que assola a sociedade brasileira. Decidir sobre o próprio corpo nada tem a ver com o cometimento de crimes. As decisões sobre o próprio corpo são de foro íntimo e pessoal, que não deveriam afetar a ninguém, uma vez que é aquela pessoa quem vai conviver com o corpo enquanto o coração dela bater e enquanto o cérebro mantiver as funções vitais. É a própria pessoa quem vai sofrer na pele as consequências de ter que viver encarcerada numa jaula na qual não se sente confortável, e se isso afeta as pessoas próximas a ela, é por falta de empatia em nome de uma “força maior”. Fiquei com a impressão de que a revista quer simplesmente agradar a um público fundamentalista religioso, como se mudar de sexo fosse desafiar a Deus.

Por outro lado, a revista invoca o fato de que o jovem hoje tem o direito de votar e portanto deve ter o dever de pagar por crimes cometidos. Invoca ainda o fato de que o delinquente (pois ultimamente me parece que basta ter espinha na cara pra ser tachado de possível delinquente, assim como basta ajoelhar na direção de Meca três vezes por dia pra ser tachado de terrorista em potencial. Por um desses acasos inexplicáveis, “delinquente” rima com “adolescente”, e a fluidez no uso destes dois conceitos presta-se muito bem à criação de um clima de pânico e medo), aos 16 anos, tem plena consciência do que faz.

Concordo. Tem consciência do ato, e certamente tem consequência de suas implicações para ele. Afinal de contas, abundam telejornais sensacionalistas mostrando jovens monstros sendo presos e indo para a cadeia. Minha pergunta é: será que estes pequenos psicopatas  (sarcasmo mode on) tem consciência da dimensão do fato ligado a seu crime?  Será que ter consciência de que matar alguém é crime implica necessariamente em julgamento moral alinhado com o que preconiza a lei? Eu, particularmente, acho que não. Se fosse assim, não faríamos tantas besteiras ao longo de nossas vidas; a percepção da dimensão de uma ação, de consequências para outrem, é algo que se vem, vem somente com a idade e a experiência. O adolescente não tem nem uma, nem outra.

Não se trata, aqui, de relativizar a gravidade do crime cometido, nem a dor das famílias envolvidas. Têm todos os afetados o direito de querer vingança contra quem lhes tirou algo que lhes era tão precioso: um ente querido, amado. Verdade que não consigo imaginar o que seja isso e muito menos a reação que eu teria se algo semelhante acontecesse a um parente ou amigo meu. Mas também não consigo ver como, ao colocar um menor de idade junto a outros maus exemplos (na falta de expressão melhor), e isso sem prover nenhum referencial do que seja bom ou certo, o delinquente poderá melhorar. Saber o que é errado é importante, mas é só metade da história. Saber que não se deve matar não implica em automaticamente em saber por que não se deve fazê-lo.

E que prova temos que cadeia muda a vida de alguém? Se considerarmos que ou o sujeito embrutece ou vira pastor evangélico, então sim, podemos considerar que a cadeia muda a vida da criatura. O problema é que mesmo a “boa solução”, a de virar pastor evangélico, não significa que a coisa foi sincera ou que o delinquente se deu conta da dimensão do seu ato criminoso. Isso, certamente, se dá pela desconfiança que tenho em relação à maioria dos pastores que andam por aí, picaretas pura e simplesmente, em minha nem tão humilde opinião. Mas, descontado meu ceticismo crônico em relação a essa gente, uma coisa é certa: se simplesmente enjaular com outros qe têm a mesma atitude resolvesse ou mudasse algo, já teríamos uma sociedade muito mais tranquila. O problema é que desde que o mundo é mundo isso vem sendo feito. E, se algo mudou para melhor, o que causou essa mudança? Tenho cá para mim que não foi a cadeia.

A revista cita especialistas em educação, organizações de defesa dos direitos humanos e organismos internacionais de atenção às crianças, todos unânimes em sentenciar: a diminuição da idade penal não resolve o problema da violência juvenil; os adolescentes ainda não estão completamente formados e as mudanças devem ocorrer nas razões sociais que levam ao crime. Citam uma declaração do ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho: ”Reduzir a maioridade penal não resolve. Ou agimos nas causas da violência ou daqui a pouco veremos o tráfico estar recrutando crianças com 14, 12 ou 10 anos”. Logo depois voltam a bater na cantilenada maior severidade, disfarçada de contraponto ao argumento da turma que prega correções de base: “O promotor Thales Cezar de Oliveira, da Vara da Infância e Juventude de São Paulo, discorda. Segundo ele, os jovens de 16 anos têm total consciência dos delitos que cometem. “Eles sabem que nada vai acontecer se matarem e roubarem, a ficha estará limpa aos 18 anos, quando saírem da Fundação Casa”, diz Oliveira. O promotor acrescenta que, quando pegos, a primeira coisa dita pelos infratores à polícia é: ‘sou de menor’. ‘É inadmissível a quantidade de pessoas honestas e famílias inteiras sendo destruídas, enquanto apenas discutimos a redução da maioridade penal.’”. A partir daí, prosseguem no bombardeio e prol deste último argumento, fechando com chave de ouro usando o argumento hipócrita, desonesto e capcioso de que, se a um menor dá-se o direito de decidir sobre seu próprio corpo – algo que, repito, cabe tão-somente a ele decidir e que não causa prejuízo de ordem nenhuma ao Estado ou à sociedade, nem de ordem moral, nem de ordem econômica – cabe também maior severidade na lei.

Pune-se, mas nenhuma indicação do caminho a ser seguido é dada. Coloca-se o menor em um contexto totalmente distorcido, que só vai reforçar o contexto em que ele se encontrava anteriormente. E só conforta os pais, em minha impressão de número continuamente crescente, omissos, que preferem transferir ao Estado uma responsabilidade que deveria ser sua: a de formar moralmente os filhos, de imprimir-lhes as noções de certo e errado. Quem sabe, para estes pais, a cartilha de alfabetização e de educação de seus filhos deva ser o código penal.

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Acabou o “rouba, mas faz”? (ou: Será que Maquiavel seria o próximo presidente do Brasil?)

Vejo uma notícia no site Brasil 247, estampada com letras garrafais, que me chama a atenção:

O FENÔMENO “MALUSSERRA”: 52% DE REJEIÇÃO, COM A IMPRENSA A FAVOR

A notícia, essencialmente, diz que Serra está mais associado a Maluf que Haddad – o que talvez esteja correto – mas que o principal fator para sua rejeição poderia bem ser o apoio que a Velha mídia (leia-se PIG: Folha, Estadão e Veja, entre outros) lhe dá – o que, suponho, está bastante, mas não completamente, errado.

O pobre injustiçado, na visão cínica e retrógrada da Veja.

Olhemos a capa da Veja. Ela nos dá todas os elementos essenciais para, em parte, compreendermos a impopularidade de Kassab (e de Serra, padrinho político-ideológico de Kassab): anda de helicóptero, distanciando-se da realidade da população, que mal consegue andar de ônibus, cuja tarifa quase dobrou em sua gestão, não criou corredores de ônibus, e gastou dinheiro em estações de metrô que nunca saíram do papel, acentuando o caos que é o trânsito de São Paulo dia e noite.

Acho, no entanto, que o Brasil 247 peca pela falta de contextualização e uma análise mais profunda. Na necessidade de produzir uma análise de 40 linhas em caracteres X de tamanho Y, perde profundidade e só deixa espaço para a parcialidade. Qual o contexto? Ora, estamos em uma situação de várias nuances, todas elas devidamente ignoradas pela matéria do Brasil 247. Creio que estamos entrando em uma era em que, se Maquiavel fosse candidato a presidente (nossa presidenta disse que é seu livro de cabeceira, uma frase que merece muita consideração), acabaria sendo praticamente um reinado.

Explico-me. Claro que a internet acelerou a disseminação de informações que nunca seriam veiculadas pela Velha Mídia. Isso não quer dizer que as entidades que dele fazem parte percam influência; me parece que a questão central, aqui, seja que as informações destes meios estão livremente disponíveis na internet em seus sites. Hoje lemos a Folha, a Veja, o Estadão e a Época “digrátis”, com as matérias mais e menos relevantes disponíveis apenas para assinantes. Estas própria entidades reconhecem que o futuro do meio impresso é certo: o caixão. O problema é que ainda não se deram conta que o modelo de faturamento com esse mercado não é mais o de pagar, uma vez que blogs como o do Nassif estão aí, abertos a quem queira lê-lo sem pagar. Então, não acho que haja uma real rejeição à Velha Mídia, uma vez que seus próprios detratores, eu incluso, valem-se de suas reportagens online até mesmo para disseminar informações.

A explicação, em minha opinião, parece estar mais no contexto político que no midiático. Lembremos do começo do governo Dilma. Ela aproximou-se da Velha Mídia, com carinhos e afagos, e os jornalões e revistonas prontamente se aproveitaram disso, achando que podiam deitar e rolar. Começou a caça às bruxas contra os ministros, que em sua maioria ainda indicados por Lula para deleite destes monstros midiáticos, foram caindo um a um. A coisa foi correndo sem sinais de que haveria um freio até Pimentel, que Dilma levava em alta consideração pessoalmente. Aí houve um basta, e a Velha Mídia entendeu o recado. Pararam, então, as denúncias.

Qual o elemento principal que podemos retirar deste episódio, para adicionar contexto ao assunto deste post? Dilma “deixou claro” que não haveria conivência com a corrupção em seu governo. Ora, a corrupção é algo endêmico em nosso país, algo que existe desde que o Brasil república é Brasil república, e nossa tolerância com este fenômeno é já um instinto atávico, tal como o dos gatos e cachorros, que quando fazem suas necessidades, escavam a terra para cobri-las. A merda está lá, é inevitável e nada vai fazê-la desaparecer, no imaginário nacional.

Basta entrar em qualquer fila de serviço público ou banco, que o Robin Hood indignado coletivo que existe dentro de cada um de nós desperta: passamos as horas reclamando indignada mas inocuamente do problema e de tudo que lhe possa ser aparentemente relacionado, uma vez que quatro anos depois, elege-se crápulas do naipe de Eduardo Paes para prefeitura do Rio, mesmo com a cidade tendo todos os problemas que tem há muitas e muitas décadas de existência. Eu, particularmente, sempre levo um livro para ler em filas, justo para não ter que participar dessa catarse que a nada leva.

Independente disso, me parece a era do “rouba mas faz” tem seus dias contados, ainda que, suspeito, ainda serão muitos.  O “rouba-mas-faz” é atávico no Brasil e provavelmente também em todas as populações de origem latina e ibérica – haja visto a Espanha, que elegeu Rajoy quando muitos políticos de seu partido estavam envolvidos em escândalos financeiros escabrosíssimos envolvendo dinheiro público e a Itália com seu anão priápico e megalomaníaco. Isso não quer dizer, entretanto, que gostemos do “rouba-mas-faz”. O sentimento em relação ao “rouba-mas-faz” é como o que se sente, imagino, a respeito das dores da velhice – elas estão lá, talvez haja algumas coisas que possamos fazer para minimzá-las, mas, ah! se pudéssemos fazê-las evaporar por um passe de mágica, certamente o faríamos. Já não aceitamos mais o “rouba-mas-faz” como antigamente, mas ainda temos esse velho câncer tão entranhado em nosso DNA, que ficamos como o finado Mario Covas: já livre do vício fisiológico do tabaco, mantinha todo o gestual do fumante, mesmo sem ter um cigarro na mão. Acho que somos, infelizmente, todos ex-junkies onde uma das grandes drogas é o “rouba-mas-faz” (*).

Por outro lado, o PT, com suas políticas sociais, conquistou o eleitorado brasileiro, estabelecendo um novo patamar de exigência político-social. Pela primeira vez, com as políticas sociais petistas, um governo federal estendeu a mão aos mais necessitados, provendo-lhes algo que sempre lhes foi negado: dinheiro para consumir não só o que necessitam, mas o que querem.

Pela primeira vez? Os defensores de FHC e os saudosistas do AI-5, duas categorias diferentes de pensamento mas que frequentemente falam em paralelo, dirão que não, que programas como o Bolsa-Família estavam presentes já nos governos FHC. Bem, ainda que isso seja correto, a verdade é que, seja pela razão que seja – falta de vontade, como argumentam seus detratores ou conjuntura econômica desfavorável, como argumentam os partidários de FHC, e só estaremos corretos se juntarmos estes dois argumentos, o segundo sendo desculpa para ignorar o primeiro – nunca houve uma implementação massiva destes programas como nos governos Lula e Dilma.

O Bolsa-Família é uma política essencial em nosso país: não haveria a ascensão econômica de 20 milhões de brasileiros (não me lembro se este número é correto, mas foi muita gente) no que dependesse de partidos de direita (na falta de denominação melhor, uma vez que já não mais considero o PT como esquerda). Evidente que o eleitorado perceberia este tipo de bandeira, cujos efeitos sempre foram as principais bandeiras da esquerda nacional como  um esforço sincero, uma mudança de posição radical em relação às posições da direita. Não é à toa que Dilma hoje goza de aprovação ainda maior que Lula: mais emprego e continuidade de políticas sociais que atingem a maioria da população… inevitável, meu caro Watson.

Aqui, então, juntamos os dois elementos essenciais, em minha opinião, para compreender o Crepúsculo dos Deuses de José Serra em um estado conservador e viciado em leis para todas as situações como São Paulo: o governo Dilma dá sinais de descolamento (se são reais ou não, isso é outra história) do “rouba-mas-faz” com o episódio da caça aos ministros malfeitores, condenando vários deles justamente ou não, e o governo demonstra levar as necessidades da população em conta, duas coisas que nem José Serra nem Kassab fizeram a menor menção de incorporar à sua práxis. Junte-se a isso a fome por resultados, que em grande medida suplantou a rejeição que Haddad poderia ter sentido por sua associação pornográfica a Paulo Maluf, e conclui-se facilmente que a rejeição à Velha Mídia, simplesmente, é insuficiente para explicar essa rejeição a Serra. Ainda que para o Brasil 247 e muitos outros blogs sujos, essa explicação seja a mais conveniente.

(*) A outra droga em que somos viciados é o caçador de malfeitores – Dilma que se prepare em 2014. Joaquim Barbosa está aí a todo vapor, mais devastador que ela, que teve atitude essencialmente passiva e oportunista, aproveitando-se das denúncias para livrar-se dos indesejáveis que lhe fossem inconvenientes, nesse aspecto.  Dado que Aécio Never é uma sumidade da nulidade, acho que Barbosa vai ser o grande trunfo da direita. Longe de qualquer racismo, já digo o que penso. Joaquim Barbosa pode ser realmente douto e competente no que for, mas a campanha de 2014 vai ter dois motes: incorruptível  e negro que não precisa de cotas, uma espécie de Obama brasileiro com tração nas quetro rodas. Esperemos ansiosamente, ainda que eu ache que isso não será o suficiente para bater uma re-candidatura de Dilma ou uma volta de Lula.
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Demorou, mas começou

Demorou, mas começou uma reação mais substancial nas redes sociais a respeito da greve dos Professores das Universidades Federais, rumando a dois meses sem previsão de qualquer desvio de rota. No meu último texto, há quase um mês atrás, cantei a pedra: a intransigência do governo com relação à greve dos Professores das Universidades Federais seria munição para a mídia e para a oposição.  Quase um mês depois de sua deflagração, entraram em greve outras categorias de funcionários públicos. Levou quase cinquenta dias para que se começasse a dar maior visibilidade à greve na mídia televisiva com reportagens na GloboNews.

Enquanto isso, em um grupo do Facebook, vários alunos comentavam revoltados. Inicialmente, os posts eram bastante despolitizados em sua maioria: ou simplesmente reclamavam que estavam sem aulas, ou tachavam os professores de marajás e vagabundos.

Ultimamente, no entanto, o foco parece ter mudado. Os posts têm estado mais políticos – note-se o palavreado que, certamente, não foi escolhido por acaso:

Também há os que expressam maior impaciência com o impasse causado pela enrolação do governo, como este:

Marchas e protestos de Professores, alunos e funcionários técnico-administrativos de Universidades Federais também são divulgados:

E outros demonstram ter compreendido exatamente o que o governo está fazendo:

Isso, sem contar com os manifestos na página da candidatura Haddad no Facebook (dos quais participei e continuarei participando até que o governo se digne a negociar), em busca de maior visibilidade e divulgação da greve. Seja como for, o crescimento da insatisfação parece ter mudado o foco da revolta, anteriormente centrada nos professores, para o modo como o governo se esquiva de negociações. Parece que finalmente os estudantes começam a dar-se conta de que não adiantará ficar esperando a boa vontade do governo em negociar, e começam a protestar mais veementemente a respeito.

Críticas ao governo e a Dilma são aceitáveis para qualquer um que queira debater o problema seriamente, o que não é o caso da turma do discurso único, para quem a foto de Lula com Maluf não carrega nenhum peso como significante. O que me deixa mais preocupado, no entanto, é um possível começo de migração para a direita dos que, possivelmente, não sejam tão politizados:

O tweet de Serra é um prelúdio do tipo de ataque que Haddad sofrerá durante sua campanha. Preocupante é que uma foto como essa demonstre que procura-se saber a opinião de um candidato como Serra. Seria esta pergunta séria? Não sei. A bem da verdade Mas a resposta de Serra dá o tom do que virá pela frente.

A mídia também começa a capitalizar sobre a notícia. Primeiro, notícias com viés negativo sobre a greve, dando ênfase apenas no prejuízo sofrido pelos estudantes, no Jornal Hoje e “análises” de Cristiana Lobo na GloboNews. Depois, a tucaníssimamente aparelhada TV Cultura exibe uma reportagem surpreendentemente boa, mostrando as razões da greve, coroadas com comentários de Vladimir Safatle, filósofo de esquerda insuspeito de ser tucano.

Safatle diz: “Eu diria três coisas [que estão acontecendo com a Universidade brasileira]: primeiro, a inacreditável insensibilidade do governo com relação à greve. Quer dizer, a greve já tem praticamente dois meses e o governo se recusa a negociar, se recusa a ouvir, algo absolutamente incompreensível porque as questões que estão levantadas pela greve estão extremamente claras. Ou seja, há um problema de degradação da carreira, que vem de longa data; isto precisa ser revisto e acho que como a reitora da UNIFESP colocou de maneira muito clara, o plano de carreira não é digno do nívels dos professores. Segundo, também há um problema de infra-estrutura, que é um problema absolutamente inaceitável. (…)”

A mídia tradicionalmente desonesta, como a Globo e a Folha, começa a capitalizar falaciosamente com a greve. Uma notícia no G1 se vale de um recurso bastante usado pela Folha, a de colocar uma manchete, que é o que dá maior impacto e persiste mais na mente do leitor, por ser a manchete um resumo da tônica do artigo que segue. A manchete é ardilosa:

No primeiro parágrafo, o leitor encontra: “Durante audiência na Comissão de Educação, Cultura e Esporte (CE) do Senado Federal, Mercadante disse que os professores têm prioridade, mas que a crise internacional deve ser considerada.” E como sempre, ao final dos fatos, depois de ler muitas coisas e já nem prestar tanta atenção, o leitor vê a verdadeira versão dos fatos:

Dirigindo-se aos senadores presentes na discussão, o ministro da Educação afirmou que definir metas para o governo e declarar que 10% do Produto Interno Bruto (PIB) do país será investido na educação não é suficiente.

“É preciso que nos mostrem da onde que virão os recursos para empregarmos na educação. (…) Instituir que 10% do PIB brasileiro será aplicado na educação representaria um acréscimo no orçamento equivalente a 5 CPMF’s. Como não vamos criar novos impostos, é preciso realocar os recursos que temos hoje”, explicou Aloizio Mercadante.

Ou seja, a manchete dá a entender que o governo quer que os professores mostrem “da onde (sic) virão os recursos dos 10% do PIB para a educação”. No entanto, dirigia-se a senadores na CE. Ao final do texto, porém, o estrago está feito, ainda que ele diga que Mercadante se dirigia aos senadores presentes na sessão. O pior desta notícia é saber que, internamente, o próprio governo está sabotando o que deveria ser fundamental para o país: investimentos na educação, área estratégica para um país que tenha qualquer intenção de não ser uma república bananeira. A desculpa: a crise.

Por outro lado, a Folha publica texto cretino de Gilberto Dimenstein. Intitulado “Universidade gratuita é justo?”, Demenstein (com “e” mesmo, não é erro de digitação)  começa dizendo que a greve dos professores é justa, mas logo revela a que veio:

Não tenho dúvidas de que a reivindicação dos professores das universidades federais, em greve há quase dois meses por aumento de salários, é justa. Dificilmente uma carreira tão estratégica para o desenvolvimento do país –afinal, são professores que formam professores– será atrativa com salários nesse nível.

O que me incomoda, porém, é que o debate não analise outros modos de dar mais dinheiro às universidades, além do imposto. Por que não ter coragem e abrir o debate sobre se é justo a universidade ser gratuita?

Há um fato: o brasileiro já paga mais de quatro meses por ano de imposto e recebe muito pouco de volta. Outro fato: a elite brasileira estuda em universidades públicas, mas fez escolas privadas caras. Por que não cobrar mensalidade e garantir bolsa aos mais pobres?

Querem que o governo tire dinheiro do ensino básico, onde estão os pobres, para colocar mais dinheiro no ensino superior? Querem tirar do Ministério da Saúde? Ou querem que o governo aumente mais os impostos?

A verdade é que não sabemos nem mesmo quanto as universidades desperdiçam por má gestão.

Em seguida, na melhor tradição de arauta do PSDB, vaticina o que já cantei antes, mas indo além para desqualificar o ex-ministro:

Se tem um assunto que vai tirar o sono do candidato do PT à Prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad, é a questão das federais, ainda mais porque vemos o atraso das obras. É o custo de usar mais critérios eleitorais do que técnicos.

E fecha com chave de ouro, dando uma suposta chave para a independência dos estudantes e professores dessa greve nefasta (este adjetivo é sarcasmo meu…) travestida de inocente e bem-intencionada “dica”:

Uma dica: surgem cada vez mais aulas traduzidas para o português das melhores universidades americanas. Todos os estudantes e professores deveriam usar essa material gratuito. Veja a lista de aulas aqui.

De uma feita, diz aos alunos que não precisam das aulas de seus professores, e diz aos professores que suas aulas são uma porcaria, com o exemplo do que deveria ser feito em sala de aula. Dimenstein deixa transparente sua posição nas entrelinhas: a universidade gratuita brasileira é ruim, não merece mais recursos do governo, e deveríamos começar um processo de privatização das mesmas. Comecemos com a cabecinha, que o resto entra fácil, depois.

A campanha eleitoral para São Paulo nem começou ainda, e as harpias de sempre já aquecem suas asinhas e começam a afiar suas garras e bicos. Os alunos e professores estão fulos com a inépcia do governo em negociar, e com sua opção paredista de cortar o ponto com apenas uma reunião, onde o melhor (?) que o governo conseguiu fazer foi pedir uma trégua e demonstrar que além de ser incapaz de montar um plano de carreira apresentável, não tem a menor intenção de fazê-lo. Felizmente, circulam notícias de que os Reitores das Federais, usando-se da autonomia que lhes é concedida, decidiram por unanimidade não cortar o ponto, por entender que as opções de negociação estão longe de serem exauridas e por não terem o STF/STJ julgado a greve abusiva. Lembremos que está prometida uma proposta para o final deste mês, mas o orçamento da União fecha no dia 31 de agosto, o que deixa um mês ou menos para uma negociação que requer tempo. Fica clara a intenção do governo de deixar poucas escolhas aos Professores em greve e fazê-los aceitar qualquer coisa que proponha, valendo-se de uma estratégia de premência e atabalhoamento.

O PT que não tome tento, para ver. Pelo visto Haddad vai ter muita dor de cabeça, e os PTucanos de plantão – aqueles que se acham muito de esquerda por votar no PT do governo (que já não é mais o PT que conhecíamos na década de 80 e 90), mas acabam defendendo posições tão ou mais tucanas que as dos tucanos originais, no que toca a greve dos Profesores e funcionários públicos – vão ter muito trabalho para elaborar um discurso convincente para defender o partido.

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A greve dos Professores das Federais

Como é de conhecimento público, a greve dos Professores das Universidades Federais de todo o país já dura quase um mês. Em universidades que trabalham com quadrimestres, como a UFABC, mais dois meses de greve farão com que o quadrimestre corrente seja perdido. Nas universidades que trabalham por semestres, alunos podem deixar de se formar por falta de aulas, e o Natal e o Ano Novo podem quase se passar dentro das salas de aula.

É fato que a greve dos professores prejudica, principalmente, os alunos. Por mais que o direito de greve seja garantido pela nossa Constituição, ainda há quem queira pintar as greves como coisa de vagabundos:

Defende-se o corte de ponto, diz-se que é uma vergonha que se ganhe para não trabalha; só falta dizer que se deve colocar tropas de choque pra reprimir manifestações de professores. Não é o que é dito, claro, mas é o passo seguinte natural. Mas, será que é para ganhar sem trabalhar, mesmo? A julgar pelos comentários deste post no excelente blog de Luis Nassif Braslianas.org, a maioria escritos por professores, não. Vale a pena ler, em especial, os comentários e a reportagem do site da ANDES-SN postados pelo sergior – são, respectivamente o sexto e nono comentários após o texto.

As reivindicações dos professores para além da evidente e endêmica falta de infraestrutura física das Universidades Federais podem ser encontradas no décimo segundo comentário, de autoria de Daniel Augusto, neste post do mesmo Brasilianas.org, e também me parecem muito justas. Ainda assim, nem todos os professores aderiram à greve, por razões que se sintetizam, em parte, no quarto comentário do mesmo post, de autoria de Adriano Martins. É importante dizer que não considero a simples não-adesão à greve uma “peleguice”. É uma questão de foro íntimo e pessoal e, se a pessoa acha que não deve entrar na greve, seja pela razão que for, deve fazer o que acredita ser correto. Julgar uma pessoa pelas convicções pessoais, para mim, é a mesma coisa que dizer  - de modo maniqueísta – que uma pessoa é má por não ser de esquerda, ou que é má por ser atéia. Enfraquece a greve? Sim. Mas, se uma pessoa julga que tudo está bem, ou que o modo pelo qual está se tentando conseguir algo é errado, não vejo por quê ir contra seus princípios. O que não se pode, sob hipótese nenhuma, é ser hipócrita.

O que quero com este texto, e que muito me dói, é chamar a atenção para o fato decepcionante de que o PT deixou de ter aquela visão de desenvolvimento de Nação que um dia, provavelmente, teve. Segundo os professores grevistas (e talvez também segundo os não-grevistas), as negociações sobre seu novo plano de carreira se arrasta já há mais de um ano, nas palavras da presidente da Associação Nacional dos Docentes do Ensino Superior (Andes), Marina Barbosa: segundo ela, desde agosto de 2010 as negociações com o governo sobre o assunto se arrastam sem avanço.

Deflagrou-se a greve, os alunos começaram a sentir o prejuízo que teriam, e o Governo, em atitude estúpida, decidiu tratar o assunto, incialmente, fazendo ouvidos de mercador. Depois, com a inquietação crescendo, começaram a circular rumores (classifico assim pois não consegui encontrar notícias online que suportem estas coisas, apenas imagens no Facebook) de que o Ministro da Educação, Aloísio Mercadante, teria declarado que não negociaria com os professores enquanto estivessem em greve. Levou duas semanas para que o Ministro começasse a declarar que a greve era precipitada por ser o dia 31 de agosto de 2012 a data-limite para a chegada a um acordo (após praticamente dois anos de espera!):

Pior, levou quase um mês para que o Governo resolvesse sentar à mesa com os grevistas para negociar e, quando o fez, revelaram-se tanto a inépcia deste governo em ter uma visão estratégica sobre o papel da educação no país, como sua débil (bondosamente falando) habilidade em negociar e, principalmente, o descaso com que trata os docentes de ensino superior no país. A proposta feita no dia 12 de junho, Segunda-feira, é de uma indecência e desfaçatez impressionantes. Eis o relato do que aconteceu na reunião, postado no grupo Greve2012 no Facebook, pelo Prof. José Monserrat Neto:

Informação fresquinha direto de Brasília, do Prof. Antônio Maria, que participa do Comando Nacional de Greve (CNG/Andes):

“Caros colegas,

A reunião prevista para começar as 17horas iniciou-se por volta das 18h30 e o governo iniciou informando sua proposta.

Ele propôs o seguinte:
- Gostaria de propor uma trégua de 20 dias, os professores voltariam a sala de aula e terminariam o semestre e então juntos faremos um calendário para se apresentar o plano de carreira.

A presidente do Andes, profa. Marina, disse que a trégua já havia sido dada em agosto passado, quando foi assinado o acordo, um cronograma estabelecido com prazo final até 31 de março, o qual foi prorrogado para 31 de maio sem nenhum avanço concreto. Portanto, a entidade não tinha como confiar no governo, considerando que a greve comecou forte e que a base está mobilizada e consciente do processo que ocorrido e que nada foi resolvido.

Então os técnicos do governo cochicham, ponderam, e, então, após uns 30 minutos de reunião, pedem tempo técnico para eles se reunirem, assim como Bernardinho da seleção de volei faz para organizar o time. Marina disse que Bernardinho precisa de menos de 5 minutos para organizar o time. Governo diz que precisa de 15 minutos.

Passados cerca de 30 minutos, governo retorna a mesa de negociação e diz que apresentará sua proposta no decorrer dos próximos 20 dias e que a negociação será finalizada no máximo em 20 dias. Informou que a carreira docente é prioridade para o governo e eles estão elaborando a proposta com referencia na carreira de C&T.

Marina questionou se a referência é de valores salariais de referência, ou de piso e teto, ou a estrutura da carreira. Governo informou que são valores de referência e que não pode assumir os valores agora, pois demanda análise.

Nada foi dito sobre a estrutura, condições, progressões, piso, teto, etc.
O governo mais uma vez enrolou na reunião e claramente não tem nenhuma proposta de fato para a carreira docente.

Mais uma vez, mesmo muitos discordando, o ANDES acertou ao iniciar a greve antes do prazo, pois passados 2 semanas após o termino do prazo o governo não tem proposta e ainda pediu mais 20 dias.

A próxima reunião foi agendada para o dia 19 (terca).

Portanto companheiros, a greve continua, não há o que deliberarmos em termos de carreira ou proposta a ser discutida. É inacreditável!

Att,
Prof. Antonio Maria
Direto de Brasilia”

Fica claro, filtrando as partes que fazem a equipe de negociadores do Governo parecerem um bando de galinhas tontas correndo em torno de montinhos de ração, que (1) o Governo não tem um “plano B” para solucionar o problema, (2) não se preocupou em elaborar uma proposta que dignifique os professores e (3) está querendo enrolar os Professores, subestimando de modo gritante sua capacidade intelectual. Em palavras simples e diretas: o Governo está achando que os grevistas é que são galinhas tontas e burras que se satisfariam simplesmente com um pouquinho a mais de ração em seus já minguantes montinhos. Se vai ser este o caso, só o tempo e as negociações dirão.

Quase que paralelamente à greve dos Professores, deflagrou-se uma greve de médicos, inicialmente por uma paralisação de médicos em hospitais públicos no Paraná, e que posteriormente se estendeu a 40 hospitais públicos em todo o país. A razão foi uma MP que, efetivamente, aumentava a carga de trabalho dos médicos ao mesmo tempo em que, efetivamente, cortava seus salários pela metade. O Governo foi rápido em sanar esta situação: no próprio dia 12 de junho, decidiu revogar a malfadada MP.

Para os professores, no entanto, uma tentativa de enrolação. Por quê não com os médicos? Ora, por uma razão simples: ano eleitoral. Os médicos atingem uma parcela muito maior da população, com prejuízos muito maiores que o adiamento de formaturas por um semestre ou quadrimestre e a perda de férias de inverno e verão. Além disso, quem depende dos hospitais públicos é a fatia do eleitorado que é o fiel da balança nas eleições, parcela essencial para que seja possível uma maioria do PT ou de partidos de esquerda nas prefeituras do país, fator essencial para impedir o avanço da direita no país. Eu, particularmente, há tempos deixei de achar o PT a melhor opção política, mas continuo sendo de esquerda, e continuo achando que o avanço da direita é uma coisa nefasta em qualquer país – haja visto o que está acontecendo com o estado de bem-estar social na Europa, com a Espanha como exemplo cabal.

Ledo engano de quem acha que o recuo do Governo em relação à greve dos médicos dos hospitais públicos tem a ver com querer o bem-estar do eleitorado que se gostaria de manter cativo. Os recuos com relação às greves dos médicos e dos Professores das Federais têm como raiz a mesma razão: uma tentativa de minimização de danos à candidatura de Fernando Haddad em São Paulo, que insiste em não decolar dos 3% nas pesquisas ainda que, como bem pondera Fernando Mitre, estejamos em uma época das eleições em que pesquisas não valem praticamente nada, mas começam a ganhar alguma importância. A “trégua” proposta pelo Governo possibilitaria minimizar estes danos de modo maquiavélico (como descrito em “O Príncipe”, de Maquiavel): uma trégua de vinte dias e a finalização do calendário acadêmico seria um modo de limpar a imagem do governo, que depois poderia muito bem enrolar a negociação de um plano de carreira por mais dois meses, o que adiaria o impacto no Orçamento Geral da União para 2014, uma vez que seu fechamento é em 31 de Agosto de 2012. Lembremos que olhando mais à frente, em 2014 teremos a Copa do Mundo, em que certamente as negociações, mais uma vez, não avançariam – quem não se lembra da época de lançamento dos malditos pacotes econômicos dos governos anteriores, que eram sempre em épocas de Carnaval ou Copa do Mundo? O problema é que o Governo não se deu conta, ou resolveu blefar com o fato, de que desta vez seu próprio projeto de enfraquecimento da direita no país (que eu apóio, sem querer que ela seja eliminada!) “melou” tudo, dando uma força incrível aos professores em conseguir melhorias significativas.

É um erro crasso não preceber, ou ignorar, que os professores não têm força, e muita, dessa vez, justamente por causa das eleições para prefeito em São Paulo. Vejamos como se posicionam as peças no tabuleiro: temos uma eleição que provavelmente será decidida entre um ex-ministro da educação concorrendo pelo PT, partido criado pelo Lula, que comandou as maiores greves do país, e um ex-ministro da saúde concorrendo pelo PSDB. Pra quem ainda não ligou os pontinhos da minha hipótese, vai o desenho: um partido trabalhista enrolando pra negociar – primeira contradição crassa – com professores – sendo que seu ex-ministro da educação concorre em SP – e médicos – sendo que seu adversário é um ex-ministro da saúde com boa receptividade em um eleitorado extremamente conservador, e que não vai hesitar em distorcer os fatos a seu favor.

Quem acha que o PSDB não vai capitalizar forte com todos esses ingredientes? Há uma  semana atrás, o PSDB já avisou que ia usar a greve dos professores contra Haddad na campanha de Serra. A Folha, por sua vez, começa a dizer que o governo tem medo que a greve dos professores, que foi reforçada na Segunda-feira dia 12/06 (presentão de dia dos namorados, hein?) pelos funcionários técnico-administrativos das Universidades Federais, prejudique a candidatura de Haddad à prefeitura de São Paulo. Até que demoraram a perceber essa possibilidade…

Mas a coisa fica muito pior para o Governo quando consideramos que a propaganda eleitoral gratuita no rádio e na TV começa em 21 de agosto, segundo o calendário eleitoral, mas a da internet começa em 6 de julho. Para achar que é coincidência o governo pedir uma “trégua” de vinte dias, dado que a propaganda eleitoral na internet começa justamente 24 dias após o começo da propaganda eleitoral na interne,t tem que ser muito Poliana. O Governo sabe da força da internet e das redes sociais; não subestimem esta força e esta influência, porque o próprio Governo não as subestima. Vejamos dois comentários no grupo Greve2012 do Facebook (omiti os nomes dos comentaristas de propósito):

A manchete foi bem cruel. O conteúdo da fala dele não está expressa na manchete. Mas o que vai se fazer? Se o PT quer queimar seu candidato e deixar o infeliz enfrentando esta pauta, que seja. Felicidade na direita e na extrema-esquerda! Continuo com minha campanha: Lula, liga para Brasília e bota este povo no “cantinho da reflexão”. kkkkkkkkk

É cômico.. esse playboyzinho [N.A.: Haddad] aí falando que nao está no DNA criticar grevista.. q q o Mercadante ta fazendo falando q a greve é precipitada? a pra puta que pariu viu…. como que alguém ainda pensa em votar em alguem dessa corja?

E, como não fosse o bastante, vejam o que foi tuitado pelo Senador Cristovam Buarque, e que começa a ser amplamente divulgado pelos indignados com a greve, no Facebook:

Buarque tem quase 300 mil seguidores no Twitter e, com mais exposição através das redes sociais com platitudes como esta que, além de falar alto e forte em épocas de indignação e ânimos exaltados e que, no fundo, têm bastante a ver com o conecito de desenvolvimento do governo Dilma, pode acabar ganhando muitos mais. Pelo tom geral dos Tweets e discursos do Senador, dá pra perceber que ele não é bem o que se chamaria de um simpatizante do atual Governo ou do PT.

Tic-tac, tic-tac, tic-tac, é o que devem escutar atualmente Dilma, Mercadante e Sérgio Mendonça. Não há desculpa para não dar um aumento e investir mais na educação superior pública. Impacto orçamentário? Pequeno, ainda mais com as quedas da taxa Selic, que possibilitariam que as economias do Governo no financiamento da dívida pública fossem re-direcionadas para o pagamento dos aumentos necessários, e para a execução das obras de infra-estruturas ao longo do resto do atual mandato. Afinal de contas, ao contrário do judiciário, que tem salários muito mais polpudos que os dos Professores das Universidades Federais, a aposentadoria com salário integral pago pelo Estado já levou o devido golpe mortal. Tic-tac, tic-tac, tic-tac.

Se os Professores pararem agora, vão estar dando tiro na cabeça, porque “no pé” seria mero eufemismo. Estão com a faca e o queijo na mão. Parar agora e terminar o semestre seria burrice: depois, o governo poderia, como disse anteriormente, voltar a enrolar e nas propagandas eleitorais, dizer que está negociando, limpando sua imagem. Os médicos conseguiram as coisas muito mais fácil, pois muitas vezes as pessoas têm que sair de cidades longe pra ir se tratar, e isso iria provocar uma ira enorme da população de baixa renda (historicamente mais suscetível a demagogias como as de figurinhas carimbadas como Maluf e Serra), que é um colégio eleitoral maior que nós, que podemos aceder à educação superior, e portanto é o fiel da balança nas eleições.

A trégua que o governo propôs é ato de desespero. Posso estar sendo otimista demais, mas é possível que esta greve, continuando com pressão forte mas equilibrada, mal chegue ao final de julho, principalmente se os Professores forem solidários com os funcionários de suas instituições. Quero mais é que a greve continue, e que os Professores grevistas consigam seus objetivos que, como visto mais acima, está muito além de um mero aumento salarial. Ainda mais que os alunos de graduação, eu estou sendo prejudicado pela greve: fui aprovado em um concurso, me chamaram para preencher uma vaga numa Federal, e minha papelada chegou no RH no final de Maio. Justamente na Segunda-feira seguinte, os funcionários técnico-administrativos da UFF entram em greve. Leva um mês ou mais para publicar a nomeação no DOU, e provavelmente meus papéis estão lá parados, com a validade de meu concurso expirando em 1 de novembro. Se essa greve se estender até Agosto ou Setembro, arrisco a perder minha vaga. Mas agora não é a hora de parar, em hipótese alguma. É a hora de conseguir que o governo deixe de ter essa visão puramente monetarista de desenvolvimento, e que pelo menos assuma compromissos de desenvolvimento que não sejam puramente aumentos salariais “cala-a-boca”.

Só me deixa sentimentos de tristeza e de traição à minha militância de mais de 20 anos por este partido ver que, para chegar ao poder, enterrou na lama seus princípios que nos eram mais caros. Lembro de quando eu tinha oito ou nove anos – isso foi por volta da fundação do PT, por volta de 1980, em meio a uma ditadura militar já na descendente -, quando estudava no Externato São Patrício, no Rio de Janeiro, ver um adesivo “OPTei” colado na pasta da minha professora (de História?), Tia Helena (?). Anos mais tarde, compreendi sua reticência em me explicar o que era, com agentes do DOPS infiltrados onde menos se esperava de olhos e ouvidos abertíssimos, e esta compreensão me marcou e influenciou enormemente até hoje. Hoje, continuo a ser de esquerda. Também continuo a votar no PT, ainda que seja somente por falta de melhores opções – PSOL e PSTU, para mim, são só “a esquerda que a direita adora”. Fico imaginando o que pensará a respeito disso tudo, hoje, a Tia Helena.

Atualização às 17:52:

Quando a pressão é feita no momento certo e no momento certo, começa a surtir efeito. Os grevistas fizeram muito bem em não parar.

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Como a pseudo-ciência da imprensa irresponsável pode sabotar muita gente

Cada vez mais, me impressiona a irresponsabilidade da imprensa, e a nível mundial.

Claro que é legal dar um toque de irreverência ou de polêmica a alguns assuntos, para deixá-los mais interessantes. Daí a distorcer fatos de maneira grosseira, de modo a causar efeitos que podem prejudicar todo um grupo ou até mesmo uma geração, existe um abismo enorme de distância.

Há pouco tempo atrás, a Veja publicou uma matéria irresponsável sobre um remédio para diabetes, o Victoza, que era apresentado como a última palavra para o combate à obesidade. Indo ao site da Veja e fazendo uma busca sobre o assunto, é difícil encontrar a matéria – dá a impressão até que eles tiraram do site. Por sorte (ou infelicidade extrema), a revistolha – ainda – tem repercussão, de modo que muita gente reproduz o que a revista publica, sem questionar. A conseqüência? Muitos diabéticos, que realmente precisam do Victoza, ficaram sem o remédio, que sumiu das prateleiras, e médicos alertaram: o uso indiscriminado pode ter sérios efeitos colaterais. Tudo por uma pseudo-ciência sem nenhum fundamento científico, para vender revistas sem importar as possivelmente graves consequências.

Pois bem, desta vez, a Veja reproduz, sem nem verificar o que é dito, outra reportagem irresponsável, desta vez publicada em periódico internacional. Inicialmente publicada no Sunday Telegraph, a notícia foi provavelmente copiada e aumentada em dramaticidade pelo Daily Mail, que afirma:

It runs counter to all the received wisdom about revision. But scientists say last-minute cramming could actually be better than spending months swotting up for exams.

Em livre tradução para o português: “Vai contra tudo o que aprendemos sobre como estudar. Mas cientistas dizem que tentar aprender tudo de última hora pode ser, na verdade, melhor que queimar as pestanas durante meses para as provas.”

A Veja, por sua vez, diz: “Estudar em cima da hora, antes de uma prova, pode ser a melhor forma de aprender. É o que indica uma nova pesquisa publicada no periódico Experimental Neurology. Segundo seus autores, hormônios produzidos em situação de estresse provocam mudanças dentro das células do cérebro que ajudam a guardar a informação de forma mais eficiente. Em excesso, porém, o estresse pode ter o efeito inverso.”. Pelo menos eles ainda fazem a coisa um pouco melhor que essa geração que está se acostumando, cada vez mais, a dar CTRL+C – CTRL-V na Wikipédia (sarcasmo mode on).

Estranhei muito, quando vi a notícia, e senti cheiro de pilantragem no ar. Parecia muito o caso de uma reportagem da Folha, do dia 18/10/2010, onde as declarações do Prof. José Marcio Camargo, da PUC-RJ, eram convenientemente distorcidas para dar a impressão que o Bolsa-Família estimulava a vagabundagem – tratei do tema no post “Por que não confio na Folha (e no PIG, em geral) – Parte II”, neste mesmo blog – e resolvi tirar a coisa a limpo.

Para tanto, primeiro fui olhar o artigo da Experimental Neurology, de onde essa asneira sem fim teria sido, supostamente, retirada. Como esperava de pesquisadores que se respeitem, nada tão ridículo assim estava escrito no artigo. Só me faltava perguntar ao próprio pesquisador ao qual esta monstruosidade tinha sido atribuída, o Prof. Hans Reul, da Universidade de Bristol, na Inglaterra, se ele realmente tinha dito aquilo, ou se tudo tinha sido inventado. Abaixo reproduzo os dois e-mails que lhe enviei, traduzidos para o português (ao final deste post, vocês encontrarão o original em inglês):

Caro Prof. Reul,

Recentemente, tomei conhecimento de seu artigo na revista Experimental Neurology, sobre a influência do stress na capacidade de o cérebro memorizar informações. Foi muito interessante ler sobre o resultado de que o aprendizado devido ao stress imposto a ratos é um efeito de longa duração. No entanto, vi uma afirmação que lhe foi atribuída reproduzida em muitos sites de notícias na web – e suponho que a vasta maioria seja uma cópia de uma notícia original – que diz que “tentar aprender tudo na última hora pode ser muito melhor que queimar as pestanas durante meses estudando para as provas” (
http://www.dailymail.co.uk/sciencetech/article-1382936/Last-minute-exam-stress-actually-help-students-form-stronger-memories.html
).

Esta declaração é realmente sua? Ou é apenas uam extrapolação de uma declaração que me parece muito mais plausível, do mesmo artigo, que diz que “O Professor Hans Reul, um neurocientista na Universidade de Bristol, disse que suas descobertas sugerem que o aprendizado dos estudantes pode ser potencializado quando feito sob a pressão de uma data-limite”?
Sei que o Sr. deve ser uma pessoa bastante ocupada, mas realmente gostaria de saber se esta é apenas uma invenção da mídia para chamar a atenção para o assunto com afirmações controversas como a do Daily Mail, de que “Vai contra tudo o que aprendemos sobre como  estudar. Mas cientistas dizem que tentar aprender tudo de última hora pode ser, na verdade, melhor que queimar as pestanas durante meses para as provas”. Vejo que muitos estudantes em redes sociais, tas como o Facebook, estão dizendo que estudarão tudo somente na última hora, uma vez que se conclui que este é o melhor modo de se estudar. Tenho que admitir que me preocupa, pois minha experiência pessoal me diz justo o contrário (no que toca a estudar de última hora), e como eu mesmo sou um educador, gostaria de saber se isto é verdade, em caso de os estudantes me perguntarem algo sobre o tema.
Atenciosamente,
Marcos Verissimo Alves
Pesquisador em estágio de Pós-doutoramento em Teoria em Ciência de Materiais
Universidade Federal do ABC – Santo André, SP, Brasil

A resposta do Prof. Reul, gentilíssima e pronta, foi a seguinte (os grifos são meus):

Caro Marcos,

Muito obrigado por me chamar a atenção para isto.

Isto tudo começou com uma entrevista que dei a um jornalista do Sunday Telegraph em março ou abril de 2011. Conversamos sobre minha pesquisa, mas eu nunca disse nada no sentido de estudar de última hora ser melhor, nem qualquer coisa do gênero. Claramente, tanto meu artigo na Experimental Neurology, como quaisquer outras publicações , não têm nada a ver com estudar para provas ou o stress induzido pelas provas. Sua conclusão, de que é uma invenção da mídia, é correta.

Creio que, como você diz, é senso comum que não se deve deixar o estudo para a última hora. É preocupante, entretanto, que estudantes levem as notícias publicadas a sério. Por favor, diga a seus estudantes que nunca aprovei tais declarações. Estou pensando em publicar uma afirmação rebatendo a que me ;e atribuída.

Tudo de bom,

Hans Reul

É claro que o artigo é um caso evidente da irresponsabilidade jornalística que, como se pode ver, não se restringe à Veja e a nossos periódicos de segunda categoria. No entanto, me preocupou o fato de que um primo tivesse divulgado a reportagem da Veja, e me preocuparam muito mais os comentários de estudantes na reportagem, como o do Anônimo:

Anônimo

Finalmente a verdade aparece…depois de anos ouvindo aquela balela de estudar tudo antes…no último dia ir andar de bicicleta ou jogar tênis para diminuir o estresse e relaxar para a prova…quanta bobagem! O negócio é estudar até o último minuto, o descanso vem dps, ora essa! Todo estudante que se preza já sabia disso! E com o tempo você consegue guardar textos em minutos!!!

08.12.2011

Qual a real influência desses irresponsáveis da Veja sobre os adolescentes, não sei. Mas, e se de repente a maioria dos estudantes do país resolve seguir os “conselhos científicos” da revistolha e deixa pra estudar em cima da hora para a prova? Uma série de reprovações, baixo desempenho escolar – mais baixo que já é atualmente, e mais chumbo no cano dessa nossa imprensa golpista para minar qualquer bom esforço que esteja sendo feito no sentido de melhorar a educação neste país. Bom pro PIG, quando quiserem minar o governo e a candidatura do Haddad para a prefeitura de SP. E bom também pra desmoralizarem (ou melhor, tentarem desmoralizar) a imagem de Lula, de quem Haddad seria o ungido.

Os benefícios políticos para o PIG são, em minha opinião, entretanto, apenas um efeito colateral, que não vêm tanto ao caso como o perigo que o uso da pseudo-ciência, ou da distorção de fatos científicos, pode causar em um número expressivo de pessoas. É preciso que divulguemos que isto é uma lorota, como disse o próprio (suposto) autor da declaração – pelo bem maior da educação no país.

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Minha carta ao Prof. Reul, em inglês:

Dear Prof. Reul,
I have recently come to know about your article on Experimental Neurology, on the influence of stress on the ability of the brain to memorize information. It was very interesting to read about your result that the learning due to stress imposed on mice is actually a long term effect. However, I have seen an affirmation which is attributed to you, reproduced in many different news sites – and I would guess that the vast majority of them are a copy of an original one – which is that “last-minute cramming could actually be better than spending months swotting up for exams” (
http://www.dailymail.co.uk/sciencetech/article-1382936/Last-minute-exam-stress-actually-help-students-form-stronger-memories.html
).
Is that an actually true declaration? Or is it an extrapolation of a declaration that seems much more plausible to me, in the same article, which states that “Professor Hans Reul, a neuroscientist at the University of Bristol, said that the findings suggest students’ learning could actually be improved by studying when feeling the pressure of a deadline”?
I know you must be a very busy man, but I would really like to know if this is just an invention of the media, trying to attract attention to the subject with controversial affirmations such as Daily Mail’s “It runs counter to all the received wisdom about revision. But scientists say last-minute cramming could actually be better than spending months swotting up for exams.”  I am seeing many students in social networks, such as Facebook, which are actually saying they will only do their studying in the last minutes, since they conclude that this is the best way to study. I have to say it worries me, for my personal experience tells me the contrary (in what concerns last-minute cramming for the examinations), and as an educator myself, I would like to know if this is true, in case students question me about it.
Best regards,
Marcos Verissimo Alves
Post-doctoral researcher in Theoretical Materials Science
Universidade Federal do ABC – Santo André, SP, Brasil

E a resposta do Prof. Reul, também em inglês:

Dear Marcos,

Many thanks for bringing this to my attention.

This all goes back to an interview I gave to a journalist of the Sunday Telegraph in March or April 2011. We talked about my research but I never said anything  like that last-minute studying for exams is the best way to study or something similar. Clearly, my Exp Neurology paper and other publications have nothing to do with studying for exams or exam stress. Your conclusion is correct that this is an invention of the media.

I thought, as you said, it is common sense that one shouldn’t leave studying till the last minute. It is worrying however that students take the news articles seriously. Please tell your students that I never endorsed those statements. I am considering to publish a counter statement.

Best wishes,

Hans Reul

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O lado bom de um câncer?

Parem o mundo pra imprensa brasileira descer. Eu continuo nele, a imprensa brasileira é que bem podia ir embora.

Pode-se ser de direita, não gostar do Lula, ter arrepios com programas sociais como o Bolsa-Família e tudo o mais que possa melhorar as condições de vida de gente pouco favorecida economicamente. Mas, vamos combinar que ética é fundamental e que ser de direita não nos dá o menor direito a celebrar o câncer de uma pessoa? Pois é exatamente isto que faz, hipocritamente e sem o menor traço de ética, o Sr. Gilberto Dimenstein na Folha de São Paulo. Reproduzo abaixo o texto do jenio:

29/10/2011 - 16h23

Câncer de Lula vai servir de lição

Possivelmente o câncer de Lula servirá como a mais forte campanha popular de que se tem notícia no Brasil contra o fumo –afinal, há uma forte associação entre o câncer de laringe e o cigarro.

Enquanto todos estivermos acompanhando (e torcendo para que o tratamento dê certo), o país vai conhecer, como nunca conheceu, os efeitos no cigarro, apesar de tantas campanhas realizadas há tanto tempo.

Nunca tivemos um personagem tão popular e tão próximo dos mais pobres com um câncer ligado diretamente ao fumo.

Justamente nas camadas mais baixas o hábito de fumar tem caído com muito menos velocidade do que entre os mais ricos. E justamente na laringe, por onde passa a habilidade de Lula em convencer as pessoas em seus discursos.

Infelizmente é desse jeito, com as pessoas sentindo-se próximas e vulneráveis diante de uma ameaça que se consegue mudar atitudes.

Gilberto DimensteinGilberto Dimenstein, 54, integra o Conselho Editorial da Folha e vive nos Estados Unidos, onde foi convidado para desenvolver em Harvard projeto de comunicação para a cidadania.

Vamos deixar de lado o fato de que ele fala de Lula, por alguns momentos. Como é que alguém consegue ser tão desumano a ponto de celebrar um câncer? Não se deve celebrar nenhum tipo de câncer, muito menos um tipo maligno como é o do Lula. Perdi meu pai para um câncer muito mais maligno, um glioblastoma multiforme. E pelo texto do Dimenstein, já percebo que ele nunca perdeu um ente querido para esta doença tão triste. Não adianta dizer que os avanços da medicina tornam o carcinoma de Lula curável. O carcinoma é um tumor maligno, que pode entrar em metástase e ser letal.

Agora voltemos a colocar Lula na equação. Dimenstein está celebrando o câncer de Lula como uma punição por seu “mau ato” de fumar. Diz – e escrevo aqui com todas as letras, hipocritamente - que isso servirá de lição para os outros fumantes, e que torce por uma pronta recuperação de Lula. E são duas mentiras, tanto o argumento furado de que os outros fumantes irão parar pelo câncer de Lula, quanto o suposto desejo de pronta recuperação. Em primeiro lugar, se exemplos e “punições divinas” adiantassem para fazer as pessoas parar de fumar, a Souza Cruz e a Phillip Morris já teriam falido no Brasil. Depois, gente como o Sr. Dimenstein sabe muito bem – e se não sabe, tem toda a condição de saber – que câncer não é gripe. Se mesmo uma gripe pode evoluir para uma pneumonia, com o desenvolvimento de sérias complicações e matar – ainda que isso não seja mais tão comum -, que dirá uma doença como um câncer, que pode entrar em metástase e matar de forma lenta e dolorosa? Francamente, pergunto: há alguma coisa a ser celebrada na potencial morte de uma pessoa, mesmo que essa possibilidade seja muito remota, como dizem os médicos?

O problema é que, como diz o Luis Nassif em seu artigo “Como seria um Brasil sem Lula?“,

Até nos ambientes mais selvagens – das guerras, por exemplo – há a ética do guerreiro, de embainhar as armas quando vê o inimigo caído, por doença, tragédia ou mesmo na derrota. Por aqui, não: é selvageria em estado puro.

Porque, reconheçamos: os Quatro Fantásticos dessa imprensa golpista tupiniquim não vêem limites para os ataques políticos. Por que não se diz que um câncer como o do ex-governador Mário Covas também teria sido uma punição? A resposta é simples: porque Covas era do PSDB, o partido mais querido de todos os tempos dessa nossa imprensa inescrupulosa desde que começou nossa jovem democracia. Afinal de contas, que provas há que o fumo só cause o aparecimento de câncer na garganta ou nos pulmões? Nenhuma, até onde sei.

E essa bondade de Dimenstein para com Lula (“estamos todos torcendo para que Lula se recupere logo”) é falsa, pois a celebração esconde a vingança rancorosa de alguém que não suporta que Lula ainda exista na cena política nacional, mesmo sem se meter nela de modo ativo e explícito. Não nos iludamos e leiamos nas entrelinhas a clara mensagem: “Lula não morreu e ainda não está sofrendo, mas ainda assim, alguma coisa de bom pode ser extraído de sua doença”. É o prelúdio da armação de um circo midiático – que no caso de Covas, Dimenstein condenava sob o pretexto de auto-crítica à imprensa – mas, também, um modo de fazer de Lula um bode expiatório pelo pecado de roubar do PSDB a glória de ter levado o Brasil ao desenvolvimento econômico que sempre mereceu ter. E é, acima de tudo, um modo de diminuir o processo de martirização de Lula à qual se refere Nassif em seu lúcido artigo sobre as análise políticas que imediatamente se fizeram sobre o que seria o Brasil sem Lula, nesse processo sórdido de celebração do sofrimento do inimigo, nesse vale-tudo político onde a humanidade não chega nem mesmo a ser uma ideia platônica, por não existir nem mesmo no mundo do conceitual – dessa imprensa nojenta, claro.

Com este tipo de atitudes, dou graças ao universo que Dimenstein tenha ido ser parte de um projeto de comunicação para a cidadania na universidade de Harvard, e não em uma universidade brasileira. Porque, se é inevitável haver este tipo de “comunicação” para uma “cidadania” cujas bases estejam assentadas na canalhice, na hipocrisia e na desumanidade, é muito preferível que não seja aqui. Só me dá pena do povo para o qual uma tal “comunicação cidadã” esteja sendo concebida. Será que Dimenstein ganha uma bolsa da Fox News e a tal “cidadania” tem suas bases concebidas pelo Sr. Rupert Murdoch?

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A débâcle do jornalismo de esgoto

“Ah”, dirão os saudosos, “não se faz mais promoções como antigamente”. (Para os eternos nostálgicos, não existe o hoje, só o ontem.)

E a gente responde: “que bom”.  Porque as novas promoções dão esperança de que o jornalismo declaratório, como diz o Paulo Henrique Amorim, não vai continuar vivo por muito tempo no Brasil. Quem viver, verá.

Antes assinava-se a Óia e ganhava-se milhas Smiles - nem que me dessem um milhão de milhas por uma única edição. Mas pra Carta Capital... não tem opção de assinar a Carta Capital por quatro anos?

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Dirceu, Veja, Ley de Medios: Murdoch coloca Dilma numa sinuca de bico?

Faz tempo que não escrevo aqui no blog. Ando extremamente ocupado com a preparação para um concurso para professor, e com o encerramento dos trabalhos do meu pós-doc aqui na Espanha. A volta para meu amado Brasil, de onde tantas saudades tenho, tem consumido uma energia tremenda.

Agora, vem essa palhaçada da Veja, plantando provas (?) de corrupção no Zé Dirceu. Hoje, numa pausa em minha preparação para o concurso, resolvi dar uma lida no que a blogosfera está dizendo. Entrei no Blog da Cidadania, do Eduardo Guimarães, um que eu gosto muito, mas andei sem ler por bastante tempo. E me entristeci, ao mesmo tempo em que li bastantes coisas que me fizeram pensar.

Me entristeceu a fúria com que o Edu se lança contra os movimentos que surgem no Facebook (no último parágrafo deste post), ainda que insuflados pela mídia, golpista sim, que temos. Fúria, ainda que condensada em poucas linhas, ao compará-los ao movimento “Cansei”. Qual o problema de a população se manifestar? Para mim, o problema não é a população se manifestar, ainda que o faça como inocente massa de manobra. Que a mídia insufle e encoraje com suas intenções desestabilizadoras, aí sim, é que está o xis da questão. E que a população embarque no “Cansei” midiático, de verdade que não me surpreende. Desde que voltamos a ter uma democracia no país, na eleição de 1989, que esperamos mudanças. E já vão 21 anos, mais que o tempo de uma geração atingir maioridade civil.

É claro que vinte anos não são absolutamente nada, em uma escala histórica. Mas a percepção atual do passar do tempo, com seu ritmo alucinado de videoclipe, com isto de que tudo tenha que ser realizado ao mesmo tempo, aqui, agora e para ontem, não é essa. Talvez a coisa seja potencializada ainda mais intensamente pelo ritmo em que se perceberam as mudanças na situação econômica do país, na ascensão da classe pobre para a classe média. Pensem bem, foi em oito anos que se criaram mais de dez milhões de empregos formais, que 31 milhões de pessoas saíram da condição de pobreza absoluta e 24 outros milhões, ascenderam à classe média. Foi uma disparada nunca dantes vista nesse país, o que valeu a Lula o cognome dado por Paulo Henrique Amorim. A gente sentiu o gostinho de uma mudança acelerada, e agora, quer mais mudanças no mesmo ritmo – mas em outra área, a da corrupção.

E é aí que entra o caso Dirceu/Veja e o caso Jaqueline Roriz. Caso Jaqueline Roriz, antes do caso Dirceu/Veja. Há uma onda de moralização? Sim, há. Promovida pela grande mídia? Sim, nacional e internacional: a nacional, a gente está careca de conhecer, nossos queridos PIGuentos (é impressionante a influência do PHA na alcunhagem das figurinhas fáceis). Na parte internacional, em particular, com a ajuda desse golpista internacional do Juan Arias, que boas intenções, não tem nenhuma. É ruim que haja uma onda de moralização? É, e ao mesmo tempo, não é.

O Paulo Kliass escreve, em artigo recente no Carta Maior, sobre a tradicional cordialidade do povo brasileiro, que tende a se tornar quase uma passividade submissa. Pois bem, é claro que haverá um elemento catalisador para que eclodam protestos, seja pelo assunto que for – neste caso, a corrupção na política. Que este elemento catalisador tenha sido nossa imprensa golpista é muito mau, pois sua agenda oculta (para usar um eufemismo, pois nem os cegos são enganados pelos jornalecos) é a desestabilização do governo. Mas, ao mesmo tempo, é bom que comecemos a exprimir esta indignação, este desgosto com a corrupção, de maneira mais objetiva. Que nossa cordialidade deixe de ser esta passividade, esta submissão ao “foi Deus quem quis assim”, isso é maravilhoso. Ruim vai ser é se o movimento, que tem tudo para se tornar um movimento de fiscalização, arrefecer. Ruim vai ser é se o governo amolecer no combate à corrupção como resposta corretiva ao ímpeto exagerado do movimento inicial.

O Eduardo, em um de seus posts, diz: “O PT até parece ter ouvido os alertas que foram feitos neste blog sobre o novo Cansei que se desenha e germina como efeito do alarde midiático sobre corrupção exclusivamente no governo do PT e que esse governo, da forma como vem agindo, admite que existe.” Não consigo determinar exatamente o tom que o Eduardo quer dar a esta frase, que me deixa um pouco em dúvida se ele está dizendo que é mau que o governo admita que existe corrupção, sim, no seio de um governo recém-formado – coisa que eu estranharia imensamente, vindo dele. Como leitor do Blog da Cidadania, tenho todo o motivo do mundo para achar que não é isso, mas não custa nada alertar: não é prejudicial para o governo Dilma que admita que há corrupção em suas fileiras. E também, não sejamos tão paternalistas e condescendentes com a capacidade de compreensão do povo brasileiro: o que está havendo aqui – por parte do povo que protesta, que fique bem claro – é a cobrança do motivo por que votos foram dados a Dilma, e não o sentimento de que a corrupção só existiu no governo do PT. Dada toda a situação de acomodação de pressões para a nomeação de ministros e cargos, é natural que haja corruptos – houve no governo Lula, como também os houve no governo FHC, e sempre os haverá. A questão aqui é se o governo vai ser leniente com a corrupção.

O governo Dilma, ao que parece, dorme no ponto em muitos aspectos da vida política, que a blogosfera cansa de apontar. A aproximação de Dilma ao PIG, sua lua-de-mel quase desesperadora para os que a elegemos (não custa nada lembrar: por duas vezes, viajei de avião a Madrid para poder votar em Dilma, voltando de trem em uma viagem de cinco horas), e com a mesma imprensa que foi aliada do regime militar que brutalmente reprimiu a ela e a seus companheiros de luta, foi um movimento de intensidade maior que a necessária. Bastaria que houvesse uma relação respeitosa com a imprensa mas, aparentemente mal-assessorada e esquecida de sua militância, Dilma, por um tempo, foi seduzida pelo canto da sereia. Até hoje não engulo o discurso super elogioso de Dilma no aniversário da Folha.

E quase que Dilma foi seduzida novamente pela imprensa, desta vez, pelos louvores que lhe foram dedicados ao dar atenção às denúncias de corrupção no governo. No início dessa série de denúncias, que lhe valeram a alcunha de “faxineira” (convenhamos: no imaginário popular brasileiro, “faxineira” evoca a “tia da limpeza”, que é uma das figuras menos consideradas da face da terra. Mais uma maneira de denegrir Dilma com um insulto disfarçado de elogio), Dilma lançou-se com ímpeto. Até que pecebeu a armadilha que se delineava, as denúncias mais e mais frequentes de corrupção que ela, ao que parecia, estava inclinada a resolver sem pestanejar – e sem a menor discriminação entre o que era grampo sem áudio de Veja, e o que era denúncia de verdade. Juro que cheguei a pensar: “mas, se Dilma vai realmente afastar todo mundo que for colocado sob suspeita, não vai sobrar um, pois denúncia falsa, não vai faltar”. Felizmente, o governo percebeu o que estava acontecendo e freou o caminhão desgovernado que ameçava tornar-se. O problema é que o fez um pouco tarde: a imprensa foi hábil em acelerar a fermentação desse sentimento no coração do povo, apresentando-se como o Dom Quixote que investia contra gigantes muito reais.

Alguém duvida que seja mentira que, como noticia o Globo (confiando que a reprodução de sua notícia no Blog da Cidadania seja fiel – e não há nenhuma razão para não crer nisto), “No Facebook, a ‘Marcha Contra a Corrupção em Brasília’ conseguiu metade das 11 mil adesões, somente nos dois dias seguintes à absolvição de Jaqueline. Já na página do movimento ‘Reação contra a Corrupção – O Brasil de Luto’ , cerca de duas mil pessoas confirmaram presença logo após a decisão da Câmara”? O Globo não é um jornal confiável, mas acho perfeitamente lógico que algo assim aconteça, em vista do triste espetáculo de corrupção que o Congresso acaba de encenar com base em frágeis e inconsistentes argumentos jurídicos. E aqui é o fato que acho importante: se esses movimentos realmente ganharam força, foi muito mais com essa decisão absurda e imoral do Congresso, de absolver uma sabida receptora de dinheiro ilegal. Em termos simples, foi a absolvição de uma criminosa, pois corrupção e receptação de dinheiro ilegal são crimes, independentemente de se ter um mandato ou não.

É por isso que me entristeci com o desabafo do Eduardo Guimarães: pode-se até argumentar que o público que tem acesso ao Facebook é majoritariamente de classes mais abastadas (o que tenho para mim que seja muito menos verdadeiro do que se supõe e, desde já digo, não foi o que disse o Edu, mas vai ter gente que vai usar isso pra desqualificar os movimentos citados anteriormente), para justificar a analogia com o Cansei; pode-se argumentar que a maioria das pessoas que estão embarcando nessa sejam massa de manobra enganada pelos PIGuentos. Pode-se utilizar o argumento que for, mas não vale fazer como touro bravo, que não distingue nada à sua frente, e dizer que todo mundo que simpatiza com esse movimento seja um “novo cansado”. Mesmo porque, acho improvável que sete mil pessoas, que aderiram à “Marcha contra a Corrupção” e ao “Brasil em luto”, o tenham feito simplesmente por uma hábil manipulação alheia. É uma indignação justa, sincera, e o protesto é mais que apropriado, ainda mais após o ato vergonhoso de absolvição de Jaqueline Roriz.

Não me preocupa a possibilidade de os movimentos anti-corrupção acabarem desestabilizando o governo Dilma. A presidenta, como já disse anteriormente, parece já ter acordado para o fato de que estava sendo feita títere de uma imprensa que queria poder cortar suas cordinhas – ou que, pelo menos, é o que a imprensa PIGuenta queria fazer. O caso de Zé Dirceu e Veja, para mim, é muito mais preocupante que o caso da marcha contra a corrupção e movimentos afins. Posso estar sendo teórico de conspiração aqui, mas me parece muito mais uma armadilha maquiavélica que a “faxina Janista” que queriam induzir mi presidenta a fazer.

O Eduardo Guimarães diz no Blog que “A melhor coisa que poderia ter acontecido ao Brasil foi a Veja ousar tanto quanto ousou em seus delírios de poder“. Concordo quase que plenamente. É interessante sim, na medida em que mostra do quão capaz a Veja pode ser, de efetuar ações Murdochianas. No entanto, me parecia muito estranho esse movimento quase kamikaze da Veja. Um tiro no pé não sai assim, pelo menos, não com esse nível de patetice. Desde o famigerado caso da bolinha de papel de Padim Pade Cerra (olha o PHA aí de novo…) que se sabe que a blogosfera é rápida em desmascarar fraudes, e é claro, não tardou nem dois dias para que se concluísse que as imagens publicadas na Veja não tinham qualidade de câmera de circuito interno – eram muito melhores e, portanto, deviam ter sido captadas com aparelhos completamente ilegais.

Também não demorou para que José Dirceu fizesse aparições em público divulgando o caso – que foi conveniente e solenemente ignorado pela grande imprensa cúmplice e conivente. Claro que Dirceu fez a coisa certa: sua auto-defesa é estritamente necessária, e a estratégia parece ter dado certo. As redes sociais também se manifestaram em massa e, é claro, voltam as demandas pela Ley de Medios (PHA!!!!), que o ministro Paulo Bernardo (o poltrão, em minha opinião) engavetou, com medo do PIG. Eu mesmo, no meu Facebook, pedi que a Ley de Medios fosse posta em vigor. No seu post sobre o assunto no Blog da Cidadania, o Eduardo diz: “Se mesmo com a comprovação cabal de que a imprensa brasileira comete crimes iguais ou piores do que os da britânica o governo Dilma não enviar de uma vez ao Congresso um projeto de lei de regulação da mídia, haverá uma crise institucional no Brasil. E todos nós sabemos como sempre acabaram as crises institucionais neste país.”

Concordo. Há que se estabelecer um mecanismo para que este tipo de crime não passe em brancas nuvens. Mas, agora, exponho minha teoria: Veja está criando uma crise para o governo, mais ou menos nos mesmos moldes que Jobim fez. E me parece que a revista-esgoto está por colocar o governo numa sinuca. O que me leva a concluir isto é a cobertura que se está dando às reações ao caso, sem a devida exposição aos fatos que lhes causaram. Vejam a cobertura dos jornais sobre o congresso do PT: são unânimes em destacar que o governo parece ter acordado para o fato de que a mídia golpista não dorme, que são escorpiões prontos a picar sua jugular na primeira oportunidade. A Folha nos diz que “Os petistas protestam contra reportagem da revista ‘Veja’ que, há uma semana, relatou encontros de Dirceu com ministros de Dilma e o acusou de ter conspirado pela queda do ex-ministro Antonio Palocci (Casa Civil)”. Em outra reportagem, o título já antecipa a estratégia de guerra: “Presidente do PT diz que mídia tolhe a democracia”. Já dentro do texto, expõe o assunto mais completamente (desmentindo seu título, como de hábito), mas colocando-o como uma ameaça comunista velada: “O petista [Rui Falcão], que mais cedo havia reclamado do tratamento da mídia aos escândalos de corrupção no governo Dilma Rousseff, afirmou que o ‘domínio midiático por alguns grupos econômicos tolhe a democracia.’”. Provavelmente apenas o Professor Hariovaldo de Almeida Prado escreveria melhor.

Na MPB FM, que é uma ótima rádio em termos musicais, mas uma PIGuenta de marca maior quando se trata de dar notícias, fez-se questão de tratar a Presidenta como “a petista”, caracterização que não lembro ter sido feita até agora. E depois, voltam a bater na tecla de que Lula e o PT estão, mais uma vez, atacando a imprensa. Ora, se a Presidenta é petista e o PT está atacando a imprensa; se a presidenta diz que ela e Lula são um só, e que os erros e acertos (claro que a palavra “erros” virá antes da palavra “acertos”) de Lula são os seus; então a conclusão óbvia é…? Pra bom entendedor, meia palavra (mal-impressa) basta.

Aliás, nestas meias-palavras da imprensa, há mensagem e meia, Alberto Dines já alerta para o resto do plano de batalha:

“Caso o ministro Paulo Bernardo (Comunicações) fique insustentável, a presidente Dilma tem seu preferido: Franklin Martins”. (“Panorama Político”, O Globo, domingo, 28/8, pg. 2). Três linhas apenas, no pé da coluna. O suficiente, a mídia entenderá o recado.

E, perdoem a falta de informação, qual é a insustentabilidade do ministro Paulo Bernardo, o poltrão? O caso dos jatinhos? Seria muito conveniente para essa imprensa esperneante e chororona que Franklin voltasse. Com certeza, Franklin colocaria novemente na pauta, explicitamente, a Ley de Medios. Com a falta de informações que a grande imprensa dá ao caso Veja/Dirceu, seria fácil juntar, à massa do bolo, a “censura” de mais de 8.567.983,4 dias que supostamente sofre o Estadão, e “provar” que o governo era lobo em pele de cordeiro quando dizia que o barulho da imprensa livre era preferível ao silêncio das ditaduras.

Falando em Estadão, me ocorre de ir à página incial para ver sua cobertura sobre o tema. Qual minha não-surpresa ao ver as seguintes manchetes na página inicial: “Ministros defendem controle da imprensa em congresso do PT” ; “Dilma pede oito anos para governar o Brasil“, e “Por segurança de Dilma, PT barra militantes“. Como sempre, não basta ver a manchete, tem que olhar a matéria toda. Na primeira, ao clicar no link, o título se transforma em “Gilberto Carvalho defende regulamentação da imprensa”; para a segunda matéria, a metamorfose leva a “Dilma diz que erros e acertos são seus e de Lula, que pede 8 anos para a petista” (ou seja, é Lula quem pede os oito anos para Dilma, e não ela), e na terceira, vemos que “Para garantir a segurança da presidente Dilma Rousseff e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a polícia da Presidência da República só permitiu a entrada de 1.500 pessoas, público máximo que o lugar comporta sentados.”.

O problema de instituir uma Ley de Medios neste exato momento é que, se Dilma o faz, está instituída a revolta midiática e a gritaria de que um tsunami ditatorial que aniquilaria a imprensa “livre” no Brasil estaria em curso. Se não o faz, pode estar instituindo um clima de impunidade que deixa a imprensa de esgoto mais forte para implantar o vale-tudo na desinformação nossa de cada dia. Um impasse que lembra muito o que Jobim criou ao dar declarações completamente sem-noção a respeito dos “idiotas” no governo, e sobre seu apoio a Serra: se Dilma o despedisse, seria tachada de autoritária; se não, seria uma “fraca” e Jobim, um “forte”. É do maior interesse que o governo divulgue o caso o mais amplamente possível, e que a Polícia Federal investigue o caso e descubra como as imagens foram conseguidas. O problema vai ser como fazê-lo causando o menor dano possível.

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Se oriente, minha senhora

Mestre Gilberto Gil dizia: “Se oriente, rapaz, pela constelação do Cruzeiro do Sul”. Já eu, diria hoje a Dilma: “Se oriente, minha senhora, pela constelação de Eleitores que lhe deram seu voto”.

Vejo hoje no Viomundo que a aprovação ao governo Dilma subiu de 47% para 49%. O que mais me chamou a atenção na notícia, originalmente publicada no site do UOL, foi a seguinte frase: “O levantamento revela também que a maioria dos brasileiros quer que o ex-presidente Lula opine nas decisões de Dilma”. Claro, aqui podemos ver como notícias são dadas na Folha: diz que há muitos brasileiros que querem que Lula opine no governo Dilma, mas não diz quantos são. Dado que já se conhece o bom e velho padrão Folha de jornalismo, fui atrás de fuçar na edição impressa (mas online) da Falha (com “a”, mesmo) sobre a pesquisa Datafolha.

Acabei encontrando este link e este aqui. Do primeiro, vemos que são 64%, os que querem que Lula tenha efetiva influência sobre as decisões do governo Dilma. No segundo, vemos:

Para 64% dos brasileiros, Lula deveria mesmo participar das decisões de Dilma, informa reportagem da Folha publicada neste domingo (a íntegra está disponível para assinantes do jornal e do UOL, empresa controlada pelo Grupo Folha, que edita a Folha).

Quatro de cada cinco pessoas acreditam inclusive que o ex-presidente já esteja fazendo exatamente isso.

Segundo pesquisa Datafolha realizada na quinta e na sexta passadas, são os menos escolarizados no país os que mais defendem a participação de Lula nas decisões do governo –69% na faixa do ensino fundamental.

São informações muito significativas. É hora de Dilma prestar mais atenção à militância que a elegeu mas, principalmente, de que se dê conta de por quê foi eleita.

Se há tanta gente querendo que Lula tenha efetiva influência no governo Dilma, a razão – pelo menos para mim – é óbvia: os rumos do governo Dilma, na opinião da maioria dos entrevistados pela pesquisa, não correspondem à razão pela qual foi eleita. Razão que, recordemo-nos bem, não foi seu carisma ou eventuais amplas habilidades políticas, mas a promessa de ser continuidade do governo Lula. Do segundo, bem entendido. Porque daqui de longe, parece que Dilma está se empenhando em fazer uma reprise do primeiro quando todos seus eleitores achamos que se é para ter reprise, que seja do segundo.

Não há necessidade de Dilma ser Lula e muito menos que Lula participe efetivamente deste governo como ministro. Sim, porque o PIG poderia, então, tachar Lula com todas as letras, e até com um certo fundamento, de Putin tropical. É necessário, isso sim, que o atual governo seja coerente com o governo anterior, coisa que Dilma não está sendo, à parte alguns projetos sociais e o reforço às estruturas e ao poder de Petrobrás. Mas, segundo este decepcionado e agora bastante desconfiado militante, sabe Deus até quando também isto durará, com o atual andar da carruagem.

O recado é claro: “queremos que o governo Dilma vá na mesma direção do governo Lula”, e este é o primeiro sinal que, ainda que o povo perceba que atualmente não vai, é talvez por falta de bom aconselhamento. Dona Dilma que não leia as entrelinhas da pesquisa, que não escute seu eleitorado e sua militância, e que não tome tento, passando a agradar o povo que a elegeu, ao invés de agradar à turma a cujos nomes Palocci é muito mais leal que a seu país. Passará um inferno astral pior que o de agora. E sem fazer o menor esforço.

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O julgamento do Primeiro Ministro islandês

A Islândia, um país onde a vida era boa e tranquila, viu-se repentinamente sacudida, em 2008. Não pela erupção do vulcão de nome impronunciável e quase impossível de escrever, o Eyfjallajökul, mas sim, pela quebra de seu sistema financeiro. Desnecessário dizer que muiuta gente foi à bancarrota, e mais desnecessário dizer que os que foram à bancarrota foram os cidadãos comuns.

Vivemos uma triste época, em que praticamente todos os países europeus correm o risco de perder seu estado de bem estar – uns mais cedo, outros bem mais tarde – e ter seus povos arrochados e mesmo assim, apáticos e inermes, moles como o personagem do desenho “A Vaca e o Frango”, o Frango Desossado, e em que tantos assistem a seus semelhantes serem massacrados socialmente, sem dar-se conta que poderiam ser eles, os próximos.

A reação de tantos, enquanto os direitos sociais e o estado de bem-estar de seus semelhantes são dilacerados.

Nessa época tão sombria, é com felicidade que vejo que o primeiro-ministro da Islândia poderá ser levado ao banco dos réus pela irresponsabilidade e desonsestidade para com seu povo. Será mesmo julgado? Não sei. Uma vez julgado, será condenado? Essa, acho que nem mesmo Deus sabe dizer. Mas o fato de um julgamento de um crápula desses ser levado em consideração já é um grande avanço, em minha opinião. Não é suficiente, tem que chegar às vias de fato, com o FDP na cadeia, apodrecendo pelo roubo que promoveu, pelo sofrimento que causou – e ainda causa, porque a economia islandesa ainda não está completamente recuperada do furacão. Mas, alguém poderia imaginar que chegariam a um ponto desses? Quem me disser que sim, está mentindo.

Publico abaixo a tradução do artigo do jornal espanhol Público, onde se noticia o fato. Oxalá seja condenado a muitos anos de prisão. Quem sabe assim, seja aberto um precedente legal que amedronte a esses canalhas, que são empregados do povo e comportam-se de modo indecente, como se seus patrões, os eleitores, fossem seus súditos. Como sempre, desejo a todos uma ótima leitura.

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Geir Haarde se tornou, nesta terça-feira, o primeiro ex-chefe de governo europeu que se senta no banco dos réus por sua responsabilidade no estouro da crise financeira de 2008. Não pelo que fez depois de ter estourado, mas pelo que não fez antes: impedir que os três grandes bancos do país entrassem em uma louca corrida especulativa que acabou com a auto-destruição de todo o sistema financeiro da Islândia.

O promotor apresentou as acusações ao tribunal no primeiro exame preliminar. O julgamento, propriamente dito, não começará antes de Setembro.

Haarde negou as acusações e declarou que se trata do primeiro julgamento político da história do país: “As acusações são ridículas, especialmente porque as decisões tomadas por meu governo antes da crise se revelaram corretas”.

O ex-primeiro-ministro, do partido conservador Partido da Independência, é o primeiro político que tem que prestar contas ao Landsdomur, um tribunal especial criado em 1905 para julgar políticos com imunidade parlamentar.

O tribunal conta com 15 membros: cinco juízes do Tribunal Supremo, o presidente de um tribunal de primeira instância, um catedrático de direito constitucional e oito cidadãos eleitos pelo parlamento, freqüentemente parlamentares.

O promotor apresentou duas acusações contra Haarde. A primeira é de não ter tomado medidas com o propósito de impedir os previsíveis danos para o erário público” causados pela crise financeira.

Haarde também terá que se explicar por não ter controlado o sistema financeiro e não ter evitado que os três bancos (Glitnir, Kaupthing e Landsbanki) se convertessem em gigantes que arrastaram a economía do país com sua quebra.

Em 2003, os ativos das entidades compreendiam 174% do PIB islandês. Esta porcentagem subiu para 744% em 2007.

Diante da complacência do governo, os bancos multiplicaram seus negócios com o único recurso da chegada massiva de capital estrangeiro, atraído por remunerações astronômicas pelo dinheiro, em uma época em que as taxas de juros estavam em níveis muito baixos.

Ao longo destes anos, a economia havia crescido uma m;edia anual de 5,5%, em boa parte graças à bolha financeira.

A segunda acusação repreende o primeiro-ministro por não ter cumprido o dever constitucional de convocar reuniões de governo sobre assuntos relevantes. “Durante este período, houve poucas discussões nas reunões ministeriais sobre o perigo iminente, e nas atas tampouco aparecem referências a estes temas”, diz a promotoria no auto de acusação.

Duas semanas de protestos populares diante do parlamento terminaram provocando a demissão do governo de Haarde, que além disso abandonou a política também por razões de saúde: foi diagnosticado com câncer.

As eleições de 2009 levaram o governo a formar uma coalizão de social-democratas e da Esquerda Verde, encabeçada por Jóhanna Siguroardóttir, a primeira mulher a dirigir o governo. O partido de Haarde perdeu por dez pontos e ficou em segundo lugar

O que Haarde chamou de uma “piada política” começou quando o parlamento posterior a estes comícios ordenou a instauração de uma investigação do desastre financeiro. Uma comissão independente chegou à conclusão de que uma negligência extrema havia sido cometida.

Haarde e o governador do banco central são acusados pelo parlemento de ocultar informações cruciais aos demais ministros, inclusive o ministro da Fazenda. O reponsável pelo Banco da Islândia era o ex-primeiro ministro David Oddsson, um adepto das teorias de Milton Friedman sem formação econômica que havi levado a cabo a liberalização total do sistema financeiro em um mandato anterior.

Por 33 votos a 30, o parlamento ordenou o porcesso de Haarde, mas não dos ministros da área econômica, que também foram muito criticados no informe d comissão.

Haarde foi elogiado por sua decisão de proteger os depósitos dos islandeses, mas não os ativos dos departamentos dos bancos de investimentos. No entanto, não tinha outra opção, porque as quantias em dívida superavam em muito a riqueza do país.

A medida provocou a ira dos governos britânico e holandês, que demandaram que o país devolvesse os investimentos de seus cidadãos e das instituições que gaviam confiado nos bancos islandeses.

Em dois referendos – o último, em Abril deste ano -, os islandeses recusaram-se a devolver quatro bilhões de euros à Holanda e ao Reino Unido, uma quantia que constitui um terço do PIB do país.

Geir Haarde é um típico representante da elite do país que governa a Islândia desde que esta se separou da Dinamarca, em 1944. O partido conservador Partido da Independência tem metade de seus primeiros-ministros, em parte graças à sua tradicional força entre pescadores e classes agrárias.

Haarde, com 60 anos, orientou sua carreira para a economia desde o princípio. Estudou nos EUA e logo começou a trabalhar como economista no Banco da Islândia. Rapidamente galgou todos os degraus do poder: deputado, ministro da Fazenda de 1998 a 2005, ministro de relações Exteriores durante dois anos e, finalmente, chefe de governo.

Por esta época, trabalhou com o ministro Oddsson para aplicar um processo de liberalização à economia islandesa. Nesta época, dois terços das exportações provinham da indústria pesqueira.

Oddsson e Haarde impulsionaram a indústria financeira através de um esquema regulador no qual os bancos podiam fazer praticamente tudo o que quisessem.

Nos anos imediatamente precedentes à crise, e já com Haarde como primeiro ministro, os avisos sobre um modelo econômico insustentável se multiplicaram. Haarde não teve problemas para ignorá-los porque a maioria vinha do exterior.

O maior banco dinamarquês, o Danske Bank, publicum em 2006 um informe em que advertia que o sistema financeiro estava crescendo a um ritmo insano.

Em Maio de 2008, um prestigiado economista da universidade de Chicago visitou o país. “Lhes dou nove meses. Seus bancos estão mortos”, disse Bob Aliber.

O governo não reagiu. “Poderíamos ter criado pânico se tivéssemos dado o sinal de alarme”, disse Haarde quando lhe perguntaram por quê não havia feito nada.

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