Por que não acredito na Folha (e no PIG, em geral) – Parte II

A Suzana Singer colocou a questão crucial (para a velha mídia ou PIG) em pauta: estão definhando, em termos de público. Um Tweet da Cynara Menezes, de ontem à noite (sábado, 6/11), dizia:

“soube que o globo anda desesperado com o cancelamento de assinaturas. é isso aí.”

E este definhamento tem a ver com a falta de credibilidade que angariaram com publicações tão freqüentes de versões incompletas da notícia, uma espécie de edição dos fatos à la Eisenstein.

Esta edição dos fatos já estava muito presente na televisão. Quem não lembra da célebre e infame edição do último debate entre Lula e Collor, no dia anterior à votação, quando nada mais se podia fazer? E, mais recentemente, nesta eleição, o caso provavelmente mais notório, o Bolinhagate do Serra? Pois, já me era muito mais que evidente que a mesma coisa acontecia pela grande imprensa escrita, mas apenas por suspeitas. O que me faltava para realmente nunca mais acreditar numa matéria do Quarteto Fantástico era uma confirmação pessoal sobre a má-fé da Folha, ou de qualquer outro meio de comunicação, de publicar informações errôneas ou meias-verdades. E a possiblidade de confirmação apareceu quando vi uma matéria da Folha do dia 18/10 – ou seja, em plena campanha eleitoral – sobre as políticas de transferência de renda do governo, que transcrevo abaixo (o link, aberto somente para assinantes, é este).

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Geração “nem-nem” cresce longe de emprego e escola

Aumenta a parcela de jovens brasileiros que vive sem estudar ou trabalhar

Combinação de fatores exclui essas pessoas dos benefícios do menor desemprego e da maior inclusão educacional

ÉRICA FRAGA
DE SÃO PAULO

Nem estudando, nem trabalhando. Mais de dois em cada dez jovens brasileiros entre 18 e 20 anos se encontravam nessa espécie de limbo em 2009, à margem da crescente inclusão educacional e laboral registrada no país em anos recentes.
Essa geração “nem-nem” (tradução livre do termo ni-ni, “ni estudian ni trabajan”, usado em espanhol) representa uma parcela crescente dos jovens de 18 a 20 anos.

Eram 22,5% dessa faixa etária em 2001 e 24,1% em 2009 (o equivalente a 2,4 milhões de pessoas). Nesse mesmo período, a taxa de desemprego no país recuou de 9,3% para 8,4%.
Os dados são da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) e foram levantados pelo pesquisador Naercio Menezes Filho, do Centro de Políticas Públicas do Insper.

Segundo especialistas, essa tendência é resultado de várias causas. Entre elas, paradoxalmente, o maior aquecimento no mercado de trabalho -que tem acirrado a competição- e o aumento significativo de transferências do governo para famílias de renda mais baixa.

“Há mais vagas sendo criadas, mas a concorrência também é maior e e esses jovens têm pouca ou nenhuma experiência”, diz Menezes.

A hipótese é confirmada pelos próprios jovens que fazem parte dos “nem-nem”.

“Quem emprega quer experiência. Não tem muita oportunidade para jovens da minha idade”, reclama Cibele Morelis, 20 anos, ensino médio completo e desempregada há três meses.

À falta de experiência se soma outro problema: a formação educacional precária.
“Temos hoje um cenário de jovens com escolaridade crescente mas de péssima qualidade. Nos últimos 15 anos, a política educacional privilegiou o ensino universitário, em detrimento do fundamental e do médio”, diz Cláudio Dedecca, professor de economia da Unicamp.

SEM PORTUGUÊS

Quem recruta jovens faz eco a esse diagnóstico.

“O resultado de anos e anos de aprovação automática é que jovens com diploma de ensino médio chegam aqui sem falar bem o português. São especialistas em Orkut, mas não têm ideia de como usar o Office”, diz Bruna Barreto, do Isbet (Instituto Brasileiro Pró Educação, Trabalho e Desenvolvimento).

Em situação ainda pior está quem nem terminou o ensino médio. É o caso de Janaína Farias, 18 anos. “Perdi a vaga na escola por excesso de faltas. Estava trabalhando como auxiliar de cozinha.”

Mas, segundo especialistas, há jovens em situação oposta à dela. São os que decidem adiar os planos de trabalhar porque a renda da família engordou com transferências do governo.
“Jovens de famílias nas quais algum membro recebe transferências do governo acabam incentivados a não buscar trabalho”, afirma José Márcio Camargo, da PUC-RJ e da Opus Gestão de Recursos.

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A PUC-RJ, sempre li, foi pródiga em formar economistas da estirpe do Malan, entre outros. É muito fácil de se abraçar idéias maniqueístas de que todos na escola de economia da PUC-RJ são neoliberais, conservadores e insensíveis a políticas sociais como o Bolsa Família por pertencer a classes mais abastadas. No entanto, ultimamente venho resistindo e desmontando este tipo de maniqueísmo, de modo que resolvi fazer uma busca no Google pelo nome do José Márcio Camargo. Para minha surpresa, apareceu um link para uma resportagem n'”O Globo”, em que o Prof. Camargo se dizia entusiasta de programas sociais como o Bolsa Família.

Fiquei, de início, com aquela cara de ponto de interrogação. A tal reportagem n'”O Globo” datava de menos de dois anos atrás; como podia alguém mudar de idéia em tão pouco tempo? Haveria realmente o Bolsa Família se mostrado um programa de incentivo à vagabundage, como sugeria a frase de fechamento da resportagem da Folha? Na dúvida, resolvi escrever para ele, sem realmente esperar uma resposta. Para minha surpresa, a resposta do Prof. Camargo, transcrita abaixo na íntegra, chegou poucas horas depois:

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Caro Marcos,

obrigado pelo e-mail. Não li a matéria da Folha, mas vou fazê-lo. De quaquer forma, acho que te devo uma explicação que espero seja convincente.

Efetivamente, sou um entusiasta do bolsa familia. Acredito que os programas condicionados de transferência de renda, cujo principal objetivo é incentivar as familais pobres a manter suas crianças na escola, são uma revolução nos programas sociais. Isto porque pesquisas científicas têm mostrado que a fase de maior taxa de aprendizado das pessoas é até aos sete anos de idade. A partir desta idade, a capacidade de aprender coisas novas cai rapidamente. A partir dos 15 anos, ela atinge um nível relativamente baixo e quase assintótico em relação à horizontal. Isto não significa que as pessoas não aprendem, mas que o custo da aprendizagem é cada vez maior, o que diminui o incentivo para investir nesta atividade. Por esta razão, a proposta inicial do bolsa familia foi de concentrar a transferência nas famílias com crianças entre zero e 10 anos, ou seja, familias com crianças em idade da pré-escola e do ensino fundamental. Mas exigir que as crianças frequentem a escola é fundamental para o sucesso do programa.

A questão é que em famílias pobres, as crianças contribuem com uma parcela relativamente elevada da renda per-capita familiar, o que torna o custo de oportunidade de estar na escola muito alto para as famílias. Daí a idédia de “comprar” o tempo destas crianças para que elas permaneçam na escola.

O problema é que existem efeitos colaterais negativos importantes com qualquer programa de transferência de renda. Um deles é que eles afetam o que os economistas chamam de salário de reserva dos trabalhadores, que é o menor salário que um trabalhador está disposto a receber para aceitar um emprego. Se existe algum membro da família recebendo uma transferência de renda seja do governo, seja de outra origem,  a pessoa tem menos necessidade de aceitar um emprego que lhe seja oferecido a um salário que ele considera “muito baixo”,  preferindo continuar procurando emprego.

O bolsa familia é importante e positivo para o país porque, como a transferência de renda reduz o incentivo ao trabalho dos adultos, pouco educados e pouco produtivos e, ao mesmo tempo, aumenta o incentivo para manter as crianças na escola, o que aumenta a produtividade futura destas crianças, os ganhos futuros de produtividade e de renda mais que compensam a perda presente de produtividade devido ao desincentivo para os adultos no mercado de trabalho.

Porém, o problema é realmente sério quando a transferência é incondicional, como no caso de pensões para idosos. Neste caso, como não existe condicionalidade, você fica apenas com o efeito negativo da transferÊncia. E acredito que o artigo a que se refere a reportagem seja exatamente uma análise dos efeitos de pensões e aposentadorias sobre a decisão dos jovens de trabalhar e estudar. Porém, o artigo também mostra que cria-se um incentivo para que parte destes jovens permaneçam mais tempo na escola, o que é um bom resultado. Ou seja, o efeito total é, no mínimo, dúbio.

Enfim, realmente sou um entusiasta do bolsa família, inclusive porque fui um de seus idelizadores, no início dos anos noventa. Mas acho que, por razões políticas, exite um certo abuso em sua utlização. Para muitos é um programa tradicional de transferência de renda para reduzir a pobreza no presente.

Espero ter te convencido de que o revolucionário do programa é a condicionalidade escolar para as crianças que reduz a pobreza e a desigualdade no futuro e não o combate à pobreza no presente. Eliminar a pobreza de forma sustentável é uma tarefa de longo prazo, inter-geracional, devido ao aumento do custo de acumular capital humano com a idade e a relação estreita entre educação (capital humano), produtividade e renda.

Obrigado novamente pelo e-mail. Estou à sua disposição para discutirmos esta tema, que me é muito caro.

Abs.

José Márcio

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Precisa dizer mais? Provavelmente o Prof. Camargo disse algo mais condensado, porém na mesma linha de pensamento, à Folha, e a Folha “editou” a resposta para passar a mensagem que queria passar ao seu público tucano cativo: que programas de transferência de renda são nada mais que mero incentivo à vagabundagem. A conclusão por extrapolação torna-se evidente: o governo Lula gaba-se de haver feito o maior programa de políticas de transferência de renda “nunca antes feito na história deste país”, muito maior e mais amplo que o governo FHC, em particular. Portanto, o governo Lula é o maior e mais amplo incentivador da vagabundagem da história do Brasil. Esta idéia, por desgraça, foi em alguns casos abraçada, em outros ressuscitada, por muita gente, mas com especial carinho pelos twitteiros cheios de preconceito pelos nordestinos, dos quais Mayara Petruso agora é o exemplo prototípico e bode expiatório.

É por estas e outras que, daqui pra frente, de minha parte, nada mais de crédito a estas publicações sem olhar os contrapontos: a Carta Capital e o blog do Luis Nassif (este último, para mim, um dos mais brilhantes analistas políticos e econômicos, junto com a – irmã? – Maria Inês Nassif, às quartas no Valor mas com suas reportagens publicadas no blog do Luis), minhas principais referências jornalísticas, uma vez que não sou jornalista e não tenho acesso a fontes diretas de informação, muito menos tempo de tentar verificar a veracidade das informações caso a caso, como fiz com esta. Como percebe todo iniciado nos textos do Eisenstein, o cheiro da edição é pungente, ainda mais se feito de maneira simplória como o Quarteto Fantástico o fez durante toda a campanha presidencial – e vai continuar a fazer para desestabilizar o novo governo, que nem começou e já é bombardeado pela CPMF que ainda não criou e pelas distorções que a recomendação de não-distribuição de “As caçadas de Pedrinho” nas escolas públicas propicia, no tema de controle social da mídia.

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