Demorou, mas começou

Demorou, mas começou uma reação mais substancial nas redes sociais a respeito da greve dos Professores das Universidades Federais, rumando a dois meses sem previsão de qualquer desvio de rota. No meu último texto, há quase um mês atrás, cantei a pedra: a intransigência do governo com relação à greve dos Professores das Universidades Federais seria munição para a mídia e para a oposição.  Quase um mês depois de sua deflagração, entraram em greve outras categorias de funcionários públicos. Levou quase cinquenta dias para que se começasse a dar maior visibilidade à greve na mídia televisiva com reportagens na GloboNews.

Enquanto isso, em um grupo do Facebook, vários alunos comentavam revoltados. Inicialmente, os posts eram bastante despolitizados em sua maioria: ou simplesmente reclamavam que estavam sem aulas, ou tachavam os professores de marajás e vagabundos.

Ultimamente, no entanto, o foco parece ter mudado. Os posts têm estado mais políticos – note-se o palavreado que, certamente, não foi escolhido por acaso:

Também há os que expressam maior impaciência com o impasse causado pela enrolação do governo, como este:

Marchas e protestos de Professores, alunos e funcionários técnico-administrativos de Universidades Federais também são divulgados:

E outros demonstram ter compreendido exatamente o que o governo está fazendo:

Isso, sem contar com os manifestos na página da candidatura Haddad no Facebook (dos quais participei e continuarei participando até que o governo se digne a negociar), em busca de maior visibilidade e divulgação da greve. Seja como for, o crescimento da insatisfação parece ter mudado o foco da revolta, anteriormente centrada nos professores, para o modo como o governo se esquiva de negociações. Parece que finalmente os estudantes começam a dar-se conta de que não adiantará ficar esperando a boa vontade do governo em negociar, e começam a protestar mais veementemente a respeito.

Críticas ao governo e a Dilma são aceitáveis para qualquer um que queira debater o problema seriamente, o que não é o caso da turma do discurso único, para quem a foto de Lula com Maluf não carrega nenhum peso como significante. O que me deixa mais preocupado, no entanto, é um possível começo de migração para a direita dos que, possivelmente, não sejam tão politizados:

O tweet de Serra é um prelúdio do tipo de ataque que Haddad sofrerá durante sua campanha. Preocupante é que uma foto como essa demonstre que procura-se saber a opinião de um candidato como Serra. Seria esta pergunta séria? Não sei. A bem da verdade Mas a resposta de Serra dá o tom do que virá pela frente.

A mídia também começa a capitalizar sobre a notícia. Primeiro, notícias com viés negativo sobre a greve, dando ênfase apenas no prejuízo sofrido pelos estudantes, no Jornal Hoje e “análises” de Cristiana Lobo na GloboNews. Depois, a tucaníssimamente aparelhada TV Cultura exibe uma reportagem surpreendentemente boa, mostrando as razões da greve, coroadas com comentários de Vladimir Safatle, filósofo de esquerda insuspeito de ser tucano.

Safatle diz: “Eu diria três coisas [que estão acontecendo com a Universidade brasileira]: primeiro, a inacreditável insensibilidade do governo com relação à greve. Quer dizer, a greve já tem praticamente dois meses e o governo se recusa a negociar, se recusa a ouvir, algo absolutamente incompreensível porque as questões que estão levantadas pela greve estão extremamente claras. Ou seja, há um problema de degradação da carreira, que vem de longa data; isto precisa ser revisto e acho que como a reitora da UNIFESP colocou de maneira muito clara, o plano de carreira não é digno do nívels dos professores. Segundo, também há um problema de infra-estrutura, que é um problema absolutamente inaceitável. (…)”

A mídia tradicionalmente desonesta, como a Globo e a Folha, começa a capitalizar falaciosamente com a greve. Uma notícia no G1 se vale de um recurso bastante usado pela Folha, a de colocar uma manchete, que é o que dá maior impacto e persiste mais na mente do leitor, por ser a manchete um resumo da tônica do artigo que segue. A manchete é ardilosa:

No primeiro parágrafo, o leitor encontra: “Durante audiência na Comissão de Educação, Cultura e Esporte (CE) do Senado Federal, Mercadante disse que os professores têm prioridade, mas que a crise internacional deve ser considerada.” E como sempre, ao final dos fatos, depois de ler muitas coisas e já nem prestar tanta atenção, o leitor vê a verdadeira versão dos fatos:

Dirigindo-se aos senadores presentes na discussão, o ministro da Educação afirmou que definir metas para o governo e declarar que 10% do Produto Interno Bruto (PIB) do país será investido na educação não é suficiente.

“É preciso que nos mostrem da onde que virão os recursos para empregarmos na educação. (…) Instituir que 10% do PIB brasileiro será aplicado na educação representaria um acréscimo no orçamento equivalente a 5 CPMF’s. Como não vamos criar novos impostos, é preciso realocar os recursos que temos hoje”, explicou Aloizio Mercadante.

Ou seja, a manchete dá a entender que o governo quer que os professores mostrem “da onde (sic) virão os recursos dos 10% do PIB para a educação”. No entanto, dirigia-se a senadores na CE. Ao final do texto, porém, o estrago está feito, ainda que ele diga que Mercadante se dirigia aos senadores presentes na sessão. O pior desta notícia é saber que, internamente, o próprio governo está sabotando o que deveria ser fundamental para o país: investimentos na educação, área estratégica para um país que tenha qualquer intenção de não ser uma república bananeira. A desculpa: a crise.

Por outro lado, a Folha publica texto cretino de Gilberto Dimenstein. Intitulado “Universidade gratuita é justo?”, Demenstein (com “e” mesmo, não é erro de digitação)  começa dizendo que a greve dos professores é justa, mas logo revela a que veio:

Não tenho dúvidas de que a reivindicação dos professores das universidades federais, em greve há quase dois meses por aumento de salários, é justa. Dificilmente uma carreira tão estratégica para o desenvolvimento do país –afinal, são professores que formam professores– será atrativa com salários nesse nível.

O que me incomoda, porém, é que o debate não analise outros modos de dar mais dinheiro às universidades, além do imposto. Por que não ter coragem e abrir o debate sobre se é justo a universidade ser gratuita?

Há um fato: o brasileiro já paga mais de quatro meses por ano de imposto e recebe muito pouco de volta. Outro fato: a elite brasileira estuda em universidades públicas, mas fez escolas privadas caras. Por que não cobrar mensalidade e garantir bolsa aos mais pobres?

Querem que o governo tire dinheiro do ensino básico, onde estão os pobres, para colocar mais dinheiro no ensino superior? Querem tirar do Ministério da Saúde? Ou querem que o governo aumente mais os impostos?

A verdade é que não sabemos nem mesmo quanto as universidades desperdiçam por má gestão.

Em seguida, na melhor tradição de arauta do PSDB, vaticina o que já cantei antes, mas indo além para desqualificar o ex-ministro:

Se tem um assunto que vai tirar o sono do candidato do PT à Prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad, é a questão das federais, ainda mais porque vemos o atraso das obras. É o custo de usar mais critérios eleitorais do que técnicos.

E fecha com chave de ouro, dando uma suposta chave para a independência dos estudantes e professores dessa greve nefasta (este adjetivo é sarcasmo meu…) travestida de inocente e bem-intencionada “dica”:

Uma dica: surgem cada vez mais aulas traduzidas para o português das melhores universidades americanas. Todos os estudantes e professores deveriam usar essa material gratuito. Veja a lista de aulas aqui.

De uma feita, diz aos alunos que não precisam das aulas de seus professores, e diz aos professores que suas aulas são uma porcaria, com o exemplo do que deveria ser feito em sala de aula. Dimenstein deixa transparente sua posição nas entrelinhas: a universidade gratuita brasileira é ruim, não merece mais recursos do governo, e deveríamos começar um processo de privatização das mesmas. Comecemos com a cabecinha, que o resto entra fácil, depois.

A campanha eleitoral para São Paulo nem começou ainda, e as harpias de sempre já aquecem suas asinhas e começam a afiar suas garras e bicos. Os alunos e professores estão fulos com a inépcia do governo em negociar, e com sua opção paredista de cortar o ponto com apenas uma reunião, onde o melhor (?) que o governo conseguiu fazer foi pedir uma trégua e demonstrar que além de ser incapaz de montar um plano de carreira apresentável, não tem a menor intenção de fazê-lo. Felizmente, circulam notícias de que os Reitores das Federais, usando-se da autonomia que lhes é concedida, decidiram por unanimidade não cortar o ponto, por entender que as opções de negociação estão longe de serem exauridas e por não terem o STF/STJ julgado a greve abusiva. Lembremos que está prometida uma proposta para o final deste mês, mas o orçamento da União fecha no dia 31 de agosto, o que deixa um mês ou menos para uma negociação que requer tempo. Fica clara a intenção do governo de deixar poucas escolhas aos Professores em greve e fazê-los aceitar qualquer coisa que proponha, valendo-se de uma estratégia de premência e atabalhoamento.

O PT que não tome tento, para ver. Pelo visto Haddad vai ter muita dor de cabeça, e os PTucanos de plantão – aqueles que se acham muito de esquerda por votar no PT do governo (que já não é mais o PT que conhecíamos na década de 80 e 90), mas acabam defendendo posições tão ou mais tucanas que as dos tucanos originais, no que toca a greve dos Profesores e funcionários públicos – vão ter muito trabalho para elaborar um discurso convincente para defender o partido.

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