Parar de fumar, parte II: planejamento

Um aviso: vocês vão ver a marca Niquitin aparecer aqui diversas vezes. Isso é porque eu parei de fumar usando Niquitin, mas não tenho nenhuma evidência de que seja a melhor marca, nem ganho nada da empresa que a produz. Ok?

Quando decidi parar de fumar, levei em conta duas coisas: minhas limitações e experiências de outras pessoas. Provavelmente não da maneira mais correta, mas da que eu consegui. Funcionou para mim, mas pode não funcionar para você. Não aceito responsabilização nenhuma, já fica avisado.

Tinha como exemplos meu irmão, que fumou durante vários anos, uma amiga que sumiu no mundo e de quem nunca mais ouvi falar, e o anedotário popular.

Meu irmão tinha deixado de fumar usando justamente Niquitin, depois de mais de dez anos fumando um maço ou pouco mais que isso por dia. Me disse que era difícil, mas que se podia conseguir. E que a vontade vinha de qualquer jeito, mesmo depois de anos.

Já minha amiga deixou de fumar quando quis, sem o menor trauma. No entanto, fazia exercícios regularmente e, ainda que fumasse 2/3 de maço diariamente, os exames que fazia acusavam uma saúde compatível com a de não-fumantes.

O anedotário popular, por sua vez, nos diz que “parar de fumar é fácil. Tanto é que a vasta maioria dos fumantes para de fumar mais de uma vez”.

Não comece impulsivamente

A ideia de parar de fumar apareceu no final de 2013, depois de eu ter fumado por quatro anos, mas só comecei em final de junho de 2014. A ideia era começar em uma época que eu tivesse menos estresse inicial. Junho era meu período de férias na universidade, de modo que não haveria a pressão de preparar aulas de uma matéria nova para mim, nem provas para corrigir, nem alunos choramingando nota.

Creio que este é um ponto fundamental: escolher a época em que você estará menos estressado para começar um período desafiador. No entanto, cuidado com o perfeccionismo, pois nunca haverá uma época de estresse zero. As férias são um período excelente para começar, e o por quê ficará mais claro mais tarde.

Leia a bula

Conhecendo minhas tendências “Oscar-Wilderianas” (resisto a tudo, menos às tentações), decidi que definitivamente precisava de química, e que somente a força de vontade não seria suficiente. Eu precisava fumar de hora em hora, menos durante meu sono – mas quando acordava, em compensação, fumava logo três cigarros enquanto fazia o café.

Seria com o auxílio dos adesivos de nicotina que eu pararia de fumar, então. Uma coisa que sei de mim é que não devo cobrar exageradamente de mim mesmo, o que não implica em auto-leniência. Portanto, entrei no campo de batalha já com a ideia de que poderia não conseguir, na primeira vez, mas que faria o esforço mais sincero do mundo para que a coisa funcionasse.

Parte desse esforço envolve conhecimento. Li muito em blogs, mas queria ver a bula do Niquitin. Escolhi o Niquitin porque sabia que havia um programa de apoio ao usuário, via telefone. Acabei descobrindo que achava que sabia, pois apesar de algmas caixas do produto mencionarem este programa, ele foi descontinuado pela empresa.

Liguei o modo “dane-se” e fui em frente. Fui a uma farmácia e comprei uma caixa de Niquitin fase 1 só pra ler a bula e entender como a coisa funciona. E foi aí que tive uma epifania.

Como funciona?

É simples. O programa tem adesivos que você cola em alguma parte do seu corpo. Estes adesivos liberam, ao longo de 24 horas, uma certa quantidade de nicotina, que entra na sua corrente sanguínea através de absorção pela pele. Você gruda o adesivo, com a fé de que ele vai te suprir a nicotina de que você precisa, e não fuma nenhum cigarro ao longo do dia. O adesivo tem que ser trocado diariamente, e não desgruda da sua pele.

Cada fase do tratamento envolve a liberação de quantidades cada vez menores de nicotina. A primeira fase libera a nicotina equivalente ao fumo de um maço de cigarro por dia. A segunda baixa a quantidade de nicotina para dois terços da primeira, e a terceira, para um terço da primeira. É como se você fumasse 20 cigarros por dia durante um tempo, depois uns 12 a 13, e depois 6 ou 7. E depois acaba.

Não se deve usar dois adesivos, nem cortá-los para ter uma fração da nicotina, como indica a bula. Eu li a bula atentamente antes de usar os adesivos, e você deve fazer o mesmo. Não aceito nenhuma responsabilidade sobre qualquer imbecilidade feita com base nesta leitura.

Um mês é pouco

Eu já tinha me dado conta que parte do meu vício de fumar era ritualístico. Havia horários e situações específicas em que eu fumava. E não era depois do café, nem depois do almoço. Era, por exemplo, na hora em que botava o pé para fora de casa, e ia caminhando e fumando para a universidade. Outro momento em que eu fumava era o de assistir um filme: sentávamos para ver um filme e eu levantava, ia até a varanda de casa e acendia o cigarrinho. O fumante é um ritualista.

Por outro lado, os adesivos de nicotina prometem que se deixa de fumar em um mês. Uma coisa que meus dois anos de terapia me ensinaram é que não se muda hábitos arraigados em um mês. Ainda mais quando estes hábitos te dão uma recompensa, o prazer de fumar. Aquele programa de um mês me dava medo de falhar.

O que ninguém te diz, em parte porque não está escrito na caixa e em parte porque ninguém lê bula de remédio, é que o programa não precisa ser levado a cabo em um mês. Você pode usar o Niquitin  por até nove meses ininterruptos, sem ter que consultar um médico.

Está escrito na bula que o programa de um mês é uma sugestão, não uma obrigação. O problema é que em nossos tempos, nada é para amanhã, nem hoje, nem ontem. Tudo é para a semana passada, o mês passado. Este texto corre o sério risco de ser desprezado completamente por ter (muito) mais que 140 caracteres e levar bem mais que 30 segundos para ser lido, então faz sentido que a empresa farmacêutica venda um mês como período de comprometimento. No mundo líquido, um mês é uma eternidade, uma viscosidade quase infinita. Mais que isso, é uma impossibilidade.

Minha estratégia foi a seguinte: comprei pelo menos três caixinhas de Niquitin fase 1. Assim que me sentisse à vontade o suficiente, passaria para a fase 2, pelo tempo que fosse necessário, depois para a fase 3, e finalmente largaria o fumo de vez.

Levaria mais que um mês? Sim. Mas seria de acordo com as minhas possibilidades, de acordo com o meu ritmo. E, mais importante de tudo: não duraria mais que nove meses, como recomendava a bula em negrito.

No próximo post: como foram os quatro ou cinco meses que passei usando os adesivos.

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