Não fomos massa de manobra, não. Mas corre-se o risco.

Bom, faz tempo que não escrevo qualquer coisa neste humilde blog, abandonado às traças  devido a minhas obrigações como Professor. Mas a coisa chegou a um ponto que começo a achar perigoso. Falo das manifestações, que agora são sobre tudo e portanto, são sobre nada.

Não acho que as manifestações do MPL tenham começado como movimento de direita, como alguns amigos no Facebook vêm advogando desde o começo (o Twitter eu já larguei de mão por vários motivos). Acho que o motivo foi justíssimo: ainda que Haddad tenha anunciado um aumento menor que a inflação como promessa de campanha e portanto de fato ninguém tenha o direito de dizer que foi pego de surpresa, não é isso que se espera (talvez…) do PT. Já está mais que provado que a passagem de ônibus em SP subiu muito acima da inflação durante os governos de direita – no governo de Marta Suplicy, aparentemente, a subida foi de acordo com a inflação, e não mais que isso. Para alguns, talvez, se esperasse que o PT ainda pudesse agir melhor que os outros partidos e, mesmo com a “amarração” das pasagens de ônibus às passagens de trens e metrô por causa do Bilhete Único, ainda pudesse ao menos dignar-se a tentar achar uma saída alternativa. Mas não foi isso o que aconteceu. Queiramos ou não, era óbvio que se cobraria do PT ser muito melhor que os outros governos anteriores, e não simplesmente melhor.

Por outro lado, acho que a grande adesão às manifestações do MPL se deu por dois fatores. Um deles é a série de razões que a Cynara Menezes lista em seu artigo “Os 20 centavos e a indignação da esquerda com o abandono de bandeiras pelo PT“, sentimento do qual partilho, quase que palavra por palavra. Mas esse sentimento não é só da esquerda, é da direita também, mas com outro viés: “se é pra fazer o que a gente faria, por que não a gente?”.

Não me entendam errado. Evidentemente, o PT fez muitas coisas que a direita não faria; mesmo que se reivindique a paternidade do Bolsa-Família ao PSDB, é inegável que o PT, no mínimo, pegou a idéia, fez modificações importantes, e aplicou em escala inimaginavelmente maior do que o PSDB jamais teria feito. Não há nada de errado em encampar uma boa idéia, mesmo que venha de seu inimigo: isto é apenas prova de sabedoria, e não te torna igual ao seu inimigo. O que te torna igual ao seu inimigo é adotar o modus operandi dele; e ao instalar este pragmatismo em nome da governabilidade em suas últimas consequências, o PT se aproximou do inimigo e causou muito mal-estar entre muitos dos que sempre o apoiaram. Pior: creio que causou muito mais mal-estar entre a direita, ao forçá-los a reconhecer sua incompetência.

O segundo fator é a falta de comunicação do PT com seus eleitores, que o tornou, neste sentido, igual a qualquer outro partido de direita, que acha que ter sido eleito é o mesmo que ter carta branca pra fazer o que quiser. Claro que elegemos governantes para tomar decisões, e se para cada decisão que for tomada tivermos que ter aprovação da maioria, a coisa fica engessada. Mas a passagem no transporte público pesa no bolso do povo e, nesse sentido, creio que Haddad deveria ter tido a esperteza política de diferenciar-se muito mais de seus opositores – dos quais nada de bom se espera, de qualquer modo – já abrindo um debate com o mesmo conselho de 150 pessoas que convocou para o monólogo de explicação de por que não haveria modo de não aumentar a passagem.

Mas não era promessa de campanha? Não estava anunciado? Sim, mas a eleição de um político não implica em aceitação incondicional e passiva de todas as suas propostas. Em alguns casos, pode significar simplesmente a escolha da menos pior das opções. E, segundo amigos meus que moram em SP, sabidamente esquerdistas, era isso que Haddad representava para eles: a única opção viável sobre Serra. Tristes tempos estes em que temos que optar pelo menos pior, ao invés de optar pelo melhor. Parece que já não valem mais os versos dos Titãs: ” A gente não quer / Só dinheiro / A gente quer dinheiro / E felicidade / A gente não quer / Só dinheiro / A gente quer inteiro / E não pela metade…”

O que é errado, neste momento, é pedir o impeachment de Dilma, sendo que nada foi feito fora das regras do jogo. Pode-se não gostar do governo Dilma, o que é o meu caso. Mas é errado pedir um impeachment quando nenhum dos crimes que poderiam levar a um foi cometido. É anti-democrático. É deixar um terreno arado para um golpe (coincidência ou não, este link aparece pouco antes das grande manifestações do MPL, e do que eles se tornaram). Uma coisa é pedir maior participação popular, uma volta do PT à sua antiga instância que ainda propugnava (e efetivamente exercia) uma participação popular através do Orçamento Participativo, por exemplo. É correto, é justo, é, acima de tudo, necessário.

Dilma, por mais que eu ache que seja o menos pior (hoje – à época das eleições militei ativamente, de lá do exterior, por sua eleição), tem que sair de seu mutismo, e dar provas de que está disposta a dialogar efetivamente com o povo, sejam seus eleitores ou não. Se há alguma coisa boa no rumo que as manifestações tomaram, é que poderá forçar uma oxigenação da mentalidade do PT. Mas espero que se abram efetivos canais de comunicação e de diálogo, não de monólogo, senão a vaca vai pro brejo.

Como disse o Leandro Fortes no Facebook, agora temos sociopatas protestando (mas não apenas). O que começou bem, com dignidade e razão, degringolou para um movimento que é aproveitado de maneira eficiente por extremistas, cujo único objetivo agora é desestabilizar o governo. Se algo acontecer que force uma vacância de Dilma em breve, será o Congresso Nacional quem indicará o novo presidente, dado que aconteceu nos dois últimos anos de mandato. E, com a base aliada que Dilma arregimentou no congresso, com muitos integrantes nostálgicos dos anos de chumbo e partidários do fundamentalismo religioso, já se imagina o que poderá colocar em seu lugar.

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