Parar de fumar, parte II: planejamento

Um aviso: vocês vão ver a marca Niquitin aparecer aqui diversas vezes. Isso é porque eu parei de fumar usando Niquitin, mas não tenho nenhuma evidência de que seja a melhor marca, nem ganho nada da empresa que a produz. Ok?

Quando decidi parar de fumar, levei em conta duas coisas: minhas limitações e experiências de outras pessoas. Provavelmente não da maneira mais correta, mas da que eu consegui. Funcionou para mim, mas pode não funcionar para você. Não aceito responsabilização nenhuma, já fica avisado.

Tinha como exemplos meu irmão, que fumou durante vários anos, uma amiga que sumiu no mundo e de quem nunca mais ouvi falar, e o anedotário popular.

Meu irmão tinha deixado de fumar usando justamente Niquitin, depois de mais de dez anos fumando um maço ou pouco mais que isso por dia. Me disse que era difícil, mas que se podia conseguir. E que a vontade vinha de qualquer jeito, mesmo depois de anos.

Já minha amiga deixou de fumar quando quis, sem o menor trauma. No entanto, fazia exercícios regularmente e, ainda que fumasse 2/3 de maço diariamente, os exames que fazia acusavam uma saúde compatível com a de não-fumantes.

O anedotário popular, por sua vez, nos diz que “parar de fumar é fácil. Tanto é que a vasta maioria dos fumantes para de fumar mais de uma vez”.

Não comece impulsivamente

A ideia de parar de fumar apareceu no final de 2013, depois de eu ter fumado por quatro anos, mas só comecei em final de junho de 2014. A ideia era começar em uma época que eu tivesse menos estresse inicial. Junho era meu período de férias na universidade, de modo que não haveria a pressão de preparar aulas de uma matéria nova para mim, nem provas para corrigir, nem alunos choramingando nota.

Creio que este é um ponto fundamental: escolher a época em que você estará menos estressado para começar um período desafiador. No entanto, cuidado com o perfeccionismo, pois nunca haverá uma época de estresse zero. As férias são um período excelente para começar, e o por quê ficará mais claro mais tarde.

Leia a bula

Conhecendo minhas tendências “Oscar-Wilderianas” (resisto a tudo, menos às tentações), decidi que definitivamente precisava de química, e que somente a força de vontade não seria suficiente. Eu precisava fumar de hora em hora, menos durante meu sono – mas quando acordava, em compensação, fumava logo três cigarros enquanto fazia o café.

Seria com o auxílio dos adesivos de nicotina que eu pararia de fumar, então. Uma coisa que sei de mim é que não devo cobrar exageradamente de mim mesmo, o que não implica em auto-leniência. Portanto, entrei no campo de batalha já com a ideia de que poderia não conseguir, na primeira vez, mas que faria o esforço mais sincero do mundo para que a coisa funcionasse.

Parte desse esforço envolve conhecimento. Li muito em blogs, mas queria ver a bula do Niquitin. Escolhi o Niquitin porque sabia que havia um programa de apoio ao usuário, via telefone. Acabei descobrindo que achava que sabia, pois apesar de algmas caixas do produto mencionarem este programa, ele foi descontinuado pela empresa.

Liguei o modo “dane-se” e fui em frente. Fui a uma farmácia e comprei uma caixa de Niquitin fase 1 só pra ler a bula e entender como a coisa funciona. E foi aí que tive uma epifania.

Como funciona?

É simples. O programa tem adesivos que você cola em alguma parte do seu corpo. Estes adesivos liberam, ao longo de 24 horas, uma certa quantidade de nicotina, que entra na sua corrente sanguínea através de absorção pela pele. Você gruda o adesivo, com a fé de que ele vai te suprir a nicotina de que você precisa, e não fuma nenhum cigarro ao longo do dia. O adesivo tem que ser trocado diariamente, e não desgruda da sua pele.

Cada fase do tratamento envolve a liberação de quantidades cada vez menores de nicotina. A primeira fase libera a nicotina equivalente ao fumo de um maço de cigarro por dia. A segunda baixa a quantidade de nicotina para dois terços da primeira, e a terceira, para um terço da primeira. É como se você fumasse 20 cigarros por dia durante um tempo, depois uns 12 a 13, e depois 6 ou 7. E depois acaba.

Não se deve usar dois adesivos, nem cortá-los para ter uma fração da nicotina, como indica a bula. Eu li a bula atentamente antes de usar os adesivos, e você deve fazer o mesmo. Não aceito nenhuma responsabilidade sobre qualquer imbecilidade feita com base nesta leitura.

Um mês é pouco

Eu já tinha me dado conta que parte do meu vício de fumar era ritualístico. Havia horários e situações específicas em que eu fumava. E não era depois do café, nem depois do almoço. Era, por exemplo, na hora em que botava o pé para fora de casa, e ia caminhando e fumando para a universidade. Outro momento em que eu fumava era o de assistir um filme: sentávamos para ver um filme e eu levantava, ia até a varanda de casa e acendia o cigarrinho. O fumante é um ritualista.

Por outro lado, os adesivos de nicotina prometem que se deixa de fumar em um mês. Uma coisa que meus dois anos de terapia me ensinaram é que não se muda hábitos arraigados em um mês. Ainda mais quando estes hábitos te dão uma recompensa, o prazer de fumar. Aquele programa de um mês me dava medo de falhar.

O que ninguém te diz, em parte porque não está escrito na caixa e em parte porque ninguém lê bula de remédio, é que o programa não precisa ser levado a cabo em um mês. Você pode usar o Niquitin  por até nove meses ininterruptos, sem ter que consultar um médico.

Está escrito na bula que o programa de um mês é uma sugestão, não uma obrigação. O problema é que em nossos tempos, nada é para amanhã, nem hoje, nem ontem. Tudo é para a semana passada, o mês passado. Este texto corre o sério risco de ser desprezado completamente por ter (muito) mais que 140 caracteres e levar bem mais que 30 segundos para ser lido, então faz sentido que a empresa farmacêutica venda um mês como período de comprometimento. No mundo líquido, um mês é uma eternidade, uma viscosidade quase infinita. Mais que isso, é uma impossibilidade.

Minha estratégia foi a seguinte: comprei pelo menos três caixinhas de Niquitin fase 1. Assim que me sentisse à vontade o suficiente, passaria para a fase 2, pelo tempo que fosse necessário, depois para a fase 3, e finalmente largaria o fumo de vez.

Levaria mais que um mês? Sim. Mas seria de acordo com as minhas possibilidades, de acordo com o meu ritmo. E, mais importante de tudo: não duraria mais que nove meses, como recomendava a bula em negrito.

No próximo post: como foram os quatro ou cinco meses que passei usando os adesivos.

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Parar de fumar, parte I

Dois anos e meio sem escrever no blog deixam a gente enferrujado. Mais uma vez, minhas obrigações de professor levam a culpa da minha (parcial) preguiça em escrever. Resolvi mudar um pouco o tom, uma vez que já ando vomitando política no Facebook até não mais poder.

Há um ano e meio, resolvi parar de fumar. De lá para cá, sei que algumas pessoas ao meu redor tomaram a mesma decisão, inspiradas no meu exemplo – minha fonte foi um amigo em comum, que me confidenciou isto.

Ser exemplo é duro, você se sente na obrigação de não falhar… Por outro lado, é engraçado que eu saiba que algumas pessoas pararam de fumar por exemplo meu e não me perguntaram nada a respeito. Acho que em parte é porque sabem que eu, como professor, estou sempre atolado até o último fio de cabelo em coisas para fazer, e não querem me incomodar com perguntas. É compreensível que seja assim; penso que se ponham no meu lugar com várias pessoas perguntando a mesma coisa e imaginam que eu me cansaria. Pode ser verdade, mas eu estou sempre disposto a ajudar.

Achei que poderia usar este blog já tão esquecido para ajudar não só quem me conhece, mas qualquer outra pessoa que procure ajuda nos buscadores.

Decidir parar

Tomar a decisão é sempre o primeiro passo. Mas quando eu digo “tomar a decisão”, eu falo em resolver parar de verdade. É estar convencido de que você quer parar, e para isto você tem que ter uma boa razão. Se você vai conseguir menter sua decisão é outra história, e pode parecer incrível para alguns, mas falhar na sua decisão e não conseguir parar não quer dizer que você realmente não queria. Simplesmente quer dizer que você não conseguiu desta vez.

O que é uma “boa razão”? A resposta é simples: qualquer coisa que seja importante para você. A boa notícia é que não precisa ser um motivo afetivo, ou seja, você não precisa decidir parar por causa de alguém, por mais lindo que seja ter um nobre motivo de amor. Muita gente decide parar por causa de alguém, mas a má notícia é que acho que somos criaturas egoístas – umas mais, outras menos, mas todos temos algum grau de egoísmo nos motivos que nos levam a fazer algo. Então, leve-se em conta como motivo para parar de fumar.

Em meu caso, houve três motivos: o pessoal físico, o pessoal afetivo e o pessoal profissional, nessa ordem de importância.

O motivo pessoal físico foi minha saúde e meu bem-estar. Eu adorava fumar, mas me sentia cansado e pouco disposto para fazer qualquer coisa. Eu não sou chegado em exercícios físicos, sou sedentário e sei disso. No entanto, algo me disse que parar de fumar ajudaria. Mesmo que não ajudasse muito, mal não me faria.

O motivo pessoal afetivo foi – tcha-raaaaaaaa! – minha esposa. Eu notei que ela não curtia mais o cheiro do cigarro em mim. Ela nunca deixou de ser carinhosa comigo, mas é como dizia o sábio mulherengo-mor da MPB, Vinícius de Moraes: “Quando você se acha o dono do castelo, é aí que ele cai” (ou algo semelhante). Eu não queria que ela se cansasse de mim por causa do cheiro do cigarro, não queria perdê-la e queria agradá-la, fazer algo para ela além do tradicional.

Finalmente, o motivo profissional foi minha produtividade. Fumar, para alguns de nós, pode ser um momento de relaxamento, de higiene mental, ou de socialização. É aquele período do dia em que você para e passa sem pensar em nada, ou que você bate um papo com outros fumantes (“vamos lá embaixo fumar um cigarrinho?”), ou mesmo com não-fumantes que você encontre e que não se incomodem com o cheiro do cigarro.

É bom, é gostoso – sim, eu adorava fumar! Só que esse momento, nas minhas contas, tomava mais de um terço da minha jornada de trabalho. E sei que isto estava me prejudicando profissionalmente. Eu não ia perder meu emprego – estava dando conta da maioria ds minhas obrigações, principalmente das que mais importam numa universidade federal, que é dar minhas aulas regularmente, e fazer pesquisa, orientando alunos se possível. Mas eu sabia que eu poderia fazer muito mais, e isso me incomodava – ainda mais por eu estar em estágio probatório.

Essas foram as razões que me levaram a fumar, e vocês podem ver que há um pouco de egoísmo nisso, sim. Não há mal nenhum em ter razões egoístas para parar de fumar. O fato de suas razões serem egoístas não as invalidam, nem tornam menos provável que você tenha sucesso nessa empreitada difícil que é parar. O que importa é que as suas razões sejam motivos importantes para você, que sejam motivos de cuja importância você esteja convencido.

No próximo post: planejamento é essencial.

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Não fomos massa de manobra, não. Mas corre-se o risco.

Bom, faz tempo que não escrevo qualquer coisa neste humilde blog, abandonado às traças  devido a minhas obrigações como Professor. Mas a coisa chegou a um ponto que começo a achar perigoso. Falo das manifestações, que agora são sobre tudo e portanto, são sobre nada.

Não acho que as manifestações do MPL tenham começado como movimento de direita, como alguns amigos no Facebook vêm advogando desde o começo (o Twitter eu já larguei de mão por vários motivos). Acho que o motivo foi justíssimo: ainda que Haddad tenha anunciado um aumento menor que a inflação como promessa de campanha e portanto de fato ninguém tenha o direito de dizer que foi pego de surpresa, não é isso que se espera (talvez…) do PT. Já está mais que provado que a passagem de ônibus em SP subiu muito acima da inflação durante os governos de direita – no governo de Marta Suplicy, aparentemente, a subida foi de acordo com a inflação, e não mais que isso. Para alguns, talvez, se esperasse que o PT ainda pudesse agir melhor que os outros partidos e, mesmo com a “amarração” das pasagens de ônibus às passagens de trens e metrô por causa do Bilhete Único, ainda pudesse ao menos dignar-se a tentar achar uma saída alternativa. Mas não foi isso o que aconteceu. Queiramos ou não, era óbvio que se cobraria do PT ser muito melhor que os outros governos anteriores, e não simplesmente melhor.

Por outro lado, acho que a grande adesão às manifestações do MPL se deu por dois fatores. Um deles é a série de razões que a Cynara Menezes lista em seu artigo “Os 20 centavos e a indignação da esquerda com o abandono de bandeiras pelo PT“, sentimento do qual partilho, quase que palavra por palavra. Mas esse sentimento não é só da esquerda, é da direita também, mas com outro viés: “se é pra fazer o que a gente faria, por que não a gente?”.

Não me entendam errado. Evidentemente, o PT fez muitas coisas que a direita não faria; mesmo que se reivindique a paternidade do Bolsa-Família ao PSDB, é inegável que o PT, no mínimo, pegou a idéia, fez modificações importantes, e aplicou em escala inimaginavelmente maior do que o PSDB jamais teria feito. Não há nada de errado em encampar uma boa idéia, mesmo que venha de seu inimigo: isto é apenas prova de sabedoria, e não te torna igual ao seu inimigo. O que te torna igual ao seu inimigo é adotar o modus operandi dele; e ao instalar este pragmatismo em nome da governabilidade em suas últimas consequências, o PT se aproximou do inimigo e causou muito mal-estar entre muitos dos que sempre o apoiaram. Pior: creio que causou muito mais mal-estar entre a direita, ao forçá-los a reconhecer sua incompetência.

O segundo fator é a falta de comunicação do PT com seus eleitores, que o tornou, neste sentido, igual a qualquer outro partido de direita, que acha que ter sido eleito é o mesmo que ter carta branca pra fazer o que quiser. Claro que elegemos governantes para tomar decisões, e se para cada decisão que for tomada tivermos que ter aprovação da maioria, a coisa fica engessada. Mas a passagem no transporte público pesa no bolso do povo e, nesse sentido, creio que Haddad deveria ter tido a esperteza política de diferenciar-se muito mais de seus opositores – dos quais nada de bom se espera, de qualquer modo – já abrindo um debate com o mesmo conselho de 150 pessoas que convocou para o monólogo de explicação de por que não haveria modo de não aumentar a passagem.

Mas não era promessa de campanha? Não estava anunciado? Sim, mas a eleição de um político não implica em aceitação incondicional e passiva de todas as suas propostas. Em alguns casos, pode significar simplesmente a escolha da menos pior das opções. E, segundo amigos meus que moram em SP, sabidamente esquerdistas, era isso que Haddad representava para eles: a única opção viável sobre Serra. Tristes tempos estes em que temos que optar pelo menos pior, ao invés de optar pelo melhor. Parece que já não valem mais os versos dos Titãs: ” A gente não quer / Só dinheiro / A gente quer dinheiro / E felicidade / A gente não quer / Só dinheiro / A gente quer inteiro / E não pela metade…”

O que é errado, neste momento, é pedir o impeachment de Dilma, sendo que nada foi feito fora das regras do jogo. Pode-se não gostar do governo Dilma, o que é o meu caso. Mas é errado pedir um impeachment quando nenhum dos crimes que poderiam levar a um foi cometido. É anti-democrático. É deixar um terreno arado para um golpe (coincidência ou não, este link aparece pouco antes das grande manifestações do MPL, e do que eles se tornaram). Uma coisa é pedir maior participação popular, uma volta do PT à sua antiga instância que ainda propugnava (e efetivamente exercia) uma participação popular através do Orçamento Participativo, por exemplo. É correto, é justo, é, acima de tudo, necessário.

Dilma, por mais que eu ache que seja o menos pior (hoje – à época das eleições militei ativamente, de lá do exterior, por sua eleição), tem que sair de seu mutismo, e dar provas de que está disposta a dialogar efetivamente com o povo, sejam seus eleitores ou não. Se há alguma coisa boa no rumo que as manifestações tomaram, é que poderá forçar uma oxigenação da mentalidade do PT. Mas espero que se abram efetivos canais de comunicação e de diálogo, não de monólogo, senão a vaca vai pro brejo.

Como disse o Leandro Fortes no Facebook, agora temos sociopatas protestando (mas não apenas). O que começou bem, com dignidade e razão, degringolou para um movimento que é aproveitado de maneira eficiente por extremistas, cujo único objetivo agora é desestabilizar o governo. Se algo acontecer que force uma vacância de Dilma em breve, será o Congresso Nacional quem indicará o novo presidente, dado que aconteceu nos dois últimos anos de mandato. E, com a base aliada que Dilma arregimentou no congresso, com muitos integrantes nostálgicos dos anos de chumbo e partidários do fundamentalismo religioso, já se imagina o que poderá colocar em seu lugar.

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Maioridade penal ou maioria histérica?

Não ando acompanhando nada ultimamente com a frequência que deveria, pois pensar sobre o ensino e adaptar-me a uma nova metodologia que exige que eu me vire do avesso, inclusive mentalmente, tem me drenado uma energia danada. Minha única fonte de informações tem sido o Facebook e, ainda assim, durante os finais de semana. No entanto, a “discussão” sobre a maioridade penal, confesso, me tem embasbacado.

Um amigo posta uma matéria da IstoÉ onde se “debate” a redução da maioridade penal para 16 anos. Leio uma opinião disfarçada de debate (daí as aspas na palavra “debate”) onde o fechamento da matéria, a parte mais importante e que por senso comum, é onde bate-se o martelo – inclusive na cabeça do leitor – sobre o tema. E a IstoÉ assume esse véu de informação para depois dar seu veredito: falta rigor e severidade para a penalização do menor.

Por um lado, a revista expõe um argumento muito convincente, e justo: se o menor de idade tem mais e mais direitos, então deveria ter mais deveres e obrigações. Justo, concordo com o princípio, mas discordo do modo como a coisa foi tratada pela revista. O “jornalista” invoca até a decisão sobre a mudança de sexo que os menores passam a ter para justificar seu argumento: se menor pode decidir sobre seu sexo, então tem que poder responder penalmente por seus atos na mesma idade em que se considera que tem poder de decisão sobre seu corpo.

Acho o argumento injusto, capcioso e mesmo indecente, portador de um moralismo velado que assola a sociedade brasileira. Decidir sobre o próprio corpo nada tem a ver com o cometimento de crimes. As decisões sobre o próprio corpo são de foro íntimo e pessoal, que não deveriam afetar a ninguém, uma vez que é aquela pessoa quem vai conviver com o corpo enquanto o coração dela bater e enquanto o cérebro mantiver as funções vitais. É a própria pessoa quem vai sofrer na pele as consequências de ter que viver encarcerada numa jaula na qual não se sente confortável, e se isso afeta as pessoas próximas a ela, é por falta de empatia em nome de uma “força maior”. Fiquei com a impressão de que a revista quer simplesmente agradar a um público fundamentalista religioso, como se mudar de sexo fosse desafiar a Deus.

Por outro lado, a revista invoca o fato de que o jovem hoje tem o direito de votar e portanto deve ter o dever de pagar por crimes cometidos. Invoca ainda o fato de que o delinquente (pois ultimamente me parece que basta ter espinha na cara pra ser tachado de possível delinquente, assim como basta ajoelhar na direção de Meca três vezes por dia pra ser tachado de terrorista em potencial. Por um desses acasos inexplicáveis, “delinquente” rima com “adolescente”, e a fluidez no uso destes dois conceitos presta-se muito bem à criação de um clima de pânico e medo), aos 16 anos, tem plena consciência do que faz.

Concordo. Tem consciência do ato, e certamente tem consequência de suas implicações para ele. Afinal de contas, abundam telejornais sensacionalistas mostrando jovens monstros sendo presos e indo para a cadeia. Minha pergunta é: será que estes pequenos psicopatas  (sarcasmo mode on) tem consciência da dimensão do fato ligado a seu crime?  Será que ter consciência de que matar alguém é crime implica necessariamente em julgamento moral alinhado com o que preconiza a lei? Eu, particularmente, acho que não. Se fosse assim, não faríamos tantas besteiras ao longo de nossas vidas; a percepção da dimensão de uma ação, de consequências para outrem, é algo que se vem, vem somente com a idade e a experiência. O adolescente não tem nem uma, nem outra.

Não se trata, aqui, de relativizar a gravidade do crime cometido, nem a dor das famílias envolvidas. Têm todos os afetados o direito de querer vingança contra quem lhes tirou algo que lhes era tão precioso: um ente querido, amado. Verdade que não consigo imaginar o que seja isso e muito menos a reação que eu teria se algo semelhante acontecesse a um parente ou amigo meu. Mas também não consigo ver como, ao colocar um menor de idade junto a outros maus exemplos (na falta de expressão melhor), e isso sem prover nenhum referencial do que seja bom ou certo, o delinquente poderá melhorar. Saber o que é errado é importante, mas é só metade da história. Saber que não se deve matar não implica em automaticamente em saber por que não se deve fazê-lo.

E que prova temos que cadeia muda a vida de alguém? Se considerarmos que ou o sujeito embrutece ou vira pastor evangélico, então sim, podemos considerar que a cadeia muda a vida da criatura. O problema é que mesmo a “boa solução”, a de virar pastor evangélico, não significa que a coisa foi sincera ou que o delinquente se deu conta da dimensão do seu ato criminoso. Isso, certamente, se dá pela desconfiança que tenho em relação à maioria dos pastores que andam por aí, picaretas pura e simplesmente, em minha nem tão humilde opinião. Mas, descontado meu ceticismo crônico em relação a essa gente, uma coisa é certa: se simplesmente enjaular com outros qe têm a mesma atitude resolvesse ou mudasse algo, já teríamos uma sociedade muito mais tranquila. O problema é que desde que o mundo é mundo isso vem sendo feito. E, se algo mudou para melhor, o que causou essa mudança? Tenho cá para mim que não foi a cadeia.

A revista cita especialistas em educação, organizações de defesa dos direitos humanos e organismos internacionais de atenção às crianças, todos unânimes em sentenciar: a diminuição da idade penal não resolve o problema da violência juvenil; os adolescentes ainda não estão completamente formados e as mudanças devem ocorrer nas razões sociais que levam ao crime. Citam uma declaração do ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho: “Reduzir a maioridade penal não resolve. Ou agimos nas causas da violência ou daqui a pouco veremos o tráfico estar recrutando crianças com 14, 12 ou 10 anos”. Logo depois voltam a bater na cantilenada maior severidade, disfarçada de contraponto ao argumento da turma que prega correções de base: “O promotor Thales Cezar de Oliveira, da Vara da Infância e Juventude de São Paulo, discorda. Segundo ele, os jovens de 16 anos têm total consciência dos delitos que cometem. “Eles sabem que nada vai acontecer se matarem e roubarem, a ficha estará limpa aos 18 anos, quando saírem da Fundação Casa”, diz Oliveira. O promotor acrescenta que, quando pegos, a primeira coisa dita pelos infratores à polícia é: ‘sou de menor’. ‘É inadmissível a quantidade de pessoas honestas e famílias inteiras sendo destruídas, enquanto apenas discutimos a redução da maioridade penal.'”. A partir daí, prosseguem no bombardeio e prol deste último argumento, fechando com chave de ouro usando o argumento hipócrita, desonesto e capcioso de que, se a um menor dá-se o direito de decidir sobre seu próprio corpo – algo que, repito, cabe tão-somente a ele decidir e que não causa prejuízo de ordem nenhuma ao Estado ou à sociedade, nem de ordem moral, nem de ordem econômica – cabe também maior severidade na lei.

Pune-se, mas nenhuma indicação do caminho a ser seguido é dada. Coloca-se o menor em um contexto totalmente distorcido, que só vai reforçar o contexto em que ele se encontrava anteriormente. E só conforta os pais, em minha impressão de número continuamente crescente, omissos, que preferem transferir ao Estado uma responsabilidade que deveria ser sua: a de formar moralmente os filhos, de imprimir-lhes as noções de certo e errado. Quem sabe, para estes pais, a cartilha de alfabetização e de educação de seus filhos deva ser o código penal.

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Acabou o “rouba, mas faz”? (ou: Será que Maquiavel seria o próximo presidente do Brasil?)

Vejo uma notícia no site Brasil 247, estampada com letras garrafais, que me chama a atenção:

O FENÔMENO “MALUSSERRA”: 52% DE REJEIÇÃO, COM A IMPRENSA A FAVOR

A notícia, essencialmente, diz que Serra está mais associado a Maluf que Haddad – o que talvez esteja correto – mas que o principal fator para sua rejeição poderia bem ser o apoio que a Velha mídia (leia-se PIG: Folha, Estadão e Veja, entre outros) lhe dá – o que, suponho, está bastante, mas não completamente, errado.

O pobre injustiçado, na visão cínica e retrógrada da Veja.

Olhemos a capa da Veja. Ela nos dá todas os elementos essenciais para, em parte, compreendermos a impopularidade de Kassab (e de Serra, padrinho político-ideológico de Kassab): anda de helicóptero, distanciando-se da realidade da população, que mal consegue andar de ônibus, cuja tarifa quase dobrou em sua gestão, não criou corredores de ônibus, e gastou dinheiro em estações de metrô que nunca saíram do papel, acentuando o caos que é o trânsito de São Paulo dia e noite.

Acho, no entanto, que o Brasil 247 peca pela falta de contextualização e uma análise mais profunda. Na necessidade de produzir uma análise de 40 linhas em caracteres X de tamanho Y, perde profundidade e só deixa espaço para a parcialidade. Qual o contexto? Ora, estamos em uma situação de várias nuances, todas elas devidamente ignoradas pela matéria do Brasil 247. Creio que estamos entrando em uma era em que, se Maquiavel fosse candidato a presidente (nossa presidenta disse que é seu livro de cabeceira, uma frase que merece muita consideração), acabaria sendo praticamente um reinado.

Explico-me. Claro que a internet acelerou a disseminação de informações que nunca seriam veiculadas pela Velha Mídia. Isso não quer dizer que as entidades que dele fazem parte percam influência; me parece que a questão central, aqui, seja que as informações destes meios estão livremente disponíveis na internet em seus sites. Hoje lemos a Folha, a Veja, o Estadão e a Época “digrátis”, com as matérias mais e menos relevantes disponíveis apenas para assinantes. Estas própria entidades reconhecem que o futuro do meio impresso é certo: o caixão. O problema é que ainda não se deram conta que o modelo de faturamento com esse mercado não é mais o de pagar, uma vez que blogs como o do Nassif estão aí, abertos a quem queira lê-lo sem pagar. Então, não acho que haja uma real rejeição à Velha Mídia, uma vez que seus próprios detratores, eu incluso, valem-se de suas reportagens online até mesmo para disseminar informações.

A explicação, em minha opinião, parece estar mais no contexto político que no midiático. Lembremos do começo do governo Dilma. Ela aproximou-se da Velha Mídia, com carinhos e afagos, e os jornalões e revistonas prontamente se aproveitaram disso, achando que podiam deitar e rolar. Começou a caça às bruxas contra os ministros, que em sua maioria ainda indicados por Lula para deleite destes monstros midiáticos, foram caindo um a um. A coisa foi correndo sem sinais de que haveria um freio até Pimentel, que Dilma levava em alta consideração pessoalmente. Aí houve um basta, e a Velha Mídia entendeu o recado. Pararam, então, as denúncias.

Qual o elemento principal que podemos retirar deste episódio, para adicionar contexto ao assunto deste post? Dilma “deixou claro” que não haveria conivência com a corrupção em seu governo. Ora, a corrupção é algo endêmico em nosso país, algo que existe desde que o Brasil república é Brasil república, e nossa tolerância com este fenômeno é já um instinto atávico, tal como o dos gatos e cachorros, que quando fazem suas necessidades, escavam a terra para cobri-las. A merda está lá, é inevitável e nada vai fazê-la desaparecer, no imaginário nacional.

Basta entrar em qualquer fila de serviço público ou banco, que o Robin Hood indignado coletivo que existe dentro de cada um de nós desperta: passamos as horas reclamando indignada mas inocuamente do problema e de tudo que lhe possa ser aparentemente relacionado, uma vez que quatro anos depois, elege-se crápulas do naipe de Eduardo Paes para prefeitura do Rio, mesmo com a cidade tendo todos os problemas que tem há muitas e muitas décadas de existência. Eu, particularmente, sempre levo um livro para ler em filas, justo para não ter que participar dessa catarse que a nada leva.

Independente disso, me parece a era do “rouba mas faz” tem seus dias contados, ainda que, suspeito, ainda serão muitos.  O “rouba-mas-faz” é atávico no Brasil e provavelmente também em todas as populações de origem latina e ibérica – haja visto a Espanha, que elegeu Rajoy quando muitos políticos de seu partido estavam envolvidos em escândalos financeiros escabrosíssimos envolvendo dinheiro público e a Itália com seu anão priápico e megalomaníaco. Isso não quer dizer, entretanto, que gostemos do “rouba-mas-faz”. O sentimento em relação ao “rouba-mas-faz” é como o que se sente, imagino, a respeito das dores da velhice – elas estão lá, talvez haja algumas coisas que possamos fazer para minimzá-las, mas, ah! se pudéssemos fazê-las evaporar por um passe de mágica, certamente o faríamos. Já não aceitamos mais o “rouba-mas-faz” como antigamente, mas ainda temos esse velho câncer tão entranhado em nosso DNA, que ficamos como o finado Mario Covas: já livre do vício fisiológico do tabaco, mantinha todo o gestual do fumante, mesmo sem ter um cigarro na mão. Acho que somos, infelizmente, todos ex-junkies onde uma das grandes drogas é o “rouba-mas-faz” (*).

Por outro lado, o PT, com suas políticas sociais, conquistou o eleitorado brasileiro, estabelecendo um novo patamar de exigência político-social. Pela primeira vez, com as políticas sociais petistas, um governo federal estendeu a mão aos mais necessitados, provendo-lhes algo que sempre lhes foi negado: dinheiro para consumir não só o que necessitam, mas o que querem.

Pela primeira vez? Os defensores de FHC e os saudosistas do AI-5, duas categorias diferentes de pensamento mas que frequentemente falam em paralelo, dirão que não, que programas como o Bolsa-Família estavam presentes já nos governos FHC. Bem, ainda que isso seja correto, a verdade é que, seja pela razão que seja – falta de vontade, como argumentam seus detratores ou conjuntura econômica desfavorável, como argumentam os partidários de FHC, e só estaremos corretos se juntarmos estes dois argumentos, o segundo sendo desculpa para ignorar o primeiro – nunca houve uma implementação massiva destes programas como nos governos Lula e Dilma.

O Bolsa-Família é uma política essencial em nosso país: não haveria a ascensão econômica de 20 milhões de brasileiros (não me lembro se este número é correto, mas foi muita gente) no que dependesse de partidos de direita (na falta de denominação melhor, uma vez que já não mais considero o PT como esquerda). Evidente que o eleitorado perceberia este tipo de bandeira, cujos efeitos sempre foram as principais bandeiras da esquerda nacional como  um esforço sincero, uma mudança de posição radical em relação às posições da direita. Não é à toa que Dilma hoje goza de aprovação ainda maior que Lula: mais emprego e continuidade de políticas sociais que atingem a maioria da população… inevitável, meu caro Watson.

Aqui, então, juntamos os dois elementos essenciais, em minha opinião, para compreender o Crepúsculo dos Deuses de José Serra em um estado conservador e viciado em leis para todas as situações como São Paulo: o governo Dilma dá sinais de descolamento (se são reais ou não, isso é outra história) do “rouba-mas-faz” com o episódio da caça aos ministros malfeitores, condenando vários deles justamente ou não, e o governo demonstra levar as necessidades da população em conta, duas coisas que nem José Serra nem Kassab fizeram a menor menção de incorporar à sua práxis. Junte-se a isso a fome por resultados, que em grande medida suplantou a rejeição que Haddad poderia ter sentido por sua associação pornográfica a Paulo Maluf, e conclui-se facilmente que a rejeição à Velha Mídia, simplesmente, é insuficiente para explicar essa rejeição a Serra. Ainda que para o Brasil 247 e muitos outros blogs sujos, essa explicação seja a mais conveniente.

(*) A outra droga em que somos viciados é o caçador de malfeitores – Dilma que se prepare em 2014. Joaquim Barbosa está aí a todo vapor, mais devastador que ela, que teve atitude essencialmente passiva e oportunista, aproveitando-se das denúncias para livrar-se dos indesejáveis que lhe fossem inconvenientes, nesse aspecto.  Dado que Aécio Never é uma sumidade da nulidade, acho que Barbosa vai ser o grande trunfo da direita. Longe de qualquer racismo, já digo o que penso. Joaquim Barbosa pode ser realmente douto e competente no que for, mas a campanha de 2014 vai ter dois motes: incorruptível  e negro que não precisa de cotas, uma espécie de Obama brasileiro com tração nas quetro rodas. Esperemos ansiosamente, ainda que eu ache que isso não será o suficiente para bater uma re-candidatura de Dilma ou uma volta de Lula.
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Demorou, mas começou

Demorou, mas começou uma reação mais substancial nas redes sociais a respeito da greve dos Professores das Universidades Federais, rumando a dois meses sem previsão de qualquer desvio de rota. No meu último texto, há quase um mês atrás, cantei a pedra: a intransigência do governo com relação à greve dos Professores das Universidades Federais seria munição para a mídia e para a oposição.  Quase um mês depois de sua deflagração, entraram em greve outras categorias de funcionários públicos. Levou quase cinquenta dias para que se começasse a dar maior visibilidade à greve na mídia televisiva com reportagens na GloboNews.

Enquanto isso, em um grupo do Facebook, vários alunos comentavam revoltados. Inicialmente, os posts eram bastante despolitizados em sua maioria: ou simplesmente reclamavam que estavam sem aulas, ou tachavam os professores de marajás e vagabundos.

Ultimamente, no entanto, o foco parece ter mudado. Os posts têm estado mais políticos – note-se o palavreado que, certamente, não foi escolhido por acaso:

Também há os que expressam maior impaciência com o impasse causado pela enrolação do governo, como este:

Marchas e protestos de Professores, alunos e funcionários técnico-administrativos de Universidades Federais também são divulgados:

E outros demonstram ter compreendido exatamente o que o governo está fazendo:

Isso, sem contar com os manifestos na página da candidatura Haddad no Facebook (dos quais participei e continuarei participando até que o governo se digne a negociar), em busca de maior visibilidade e divulgação da greve. Seja como for, o crescimento da insatisfação parece ter mudado o foco da revolta, anteriormente centrada nos professores, para o modo como o governo se esquiva de negociações. Parece que finalmente os estudantes começam a dar-se conta de que não adiantará ficar esperando a boa vontade do governo em negociar, e começam a protestar mais veementemente a respeito.

Críticas ao governo e a Dilma são aceitáveis para qualquer um que queira debater o problema seriamente, o que não é o caso da turma do discurso único, para quem a foto de Lula com Maluf não carrega nenhum peso como significante. O que me deixa mais preocupado, no entanto, é um possível começo de migração para a direita dos que, possivelmente, não sejam tão politizados:

O tweet de Serra é um prelúdio do tipo de ataque que Haddad sofrerá durante sua campanha. Preocupante é que uma foto como essa demonstre que procura-se saber a opinião de um candidato como Serra. Seria esta pergunta séria? Não sei. A bem da verdade Mas a resposta de Serra dá o tom do que virá pela frente.

A mídia também começa a capitalizar sobre a notícia. Primeiro, notícias com viés negativo sobre a greve, dando ênfase apenas no prejuízo sofrido pelos estudantes, no Jornal Hoje e “análises” de Cristiana Lobo na GloboNews. Depois, a tucaníssimamente aparelhada TV Cultura exibe uma reportagem surpreendentemente boa, mostrando as razões da greve, coroadas com comentários de Vladimir Safatle, filósofo de esquerda insuspeito de ser tucano.

Safatle diz: “Eu diria três coisas [que estão acontecendo com a Universidade brasileira]: primeiro, a inacreditável insensibilidade do governo com relação à greve. Quer dizer, a greve já tem praticamente dois meses e o governo se recusa a negociar, se recusa a ouvir, algo absolutamente incompreensível porque as questões que estão levantadas pela greve estão extremamente claras. Ou seja, há um problema de degradação da carreira, que vem de longa data; isto precisa ser revisto e acho que como a reitora da UNIFESP colocou de maneira muito clara, o plano de carreira não é digno do nívels dos professores. Segundo, também há um problema de infra-estrutura, que é um problema absolutamente inaceitável. (…)”

A mídia tradicionalmente desonesta, como a Globo e a Folha, começa a capitalizar falaciosamente com a greve. Uma notícia no G1 se vale de um recurso bastante usado pela Folha, a de colocar uma manchete, que é o que dá maior impacto e persiste mais na mente do leitor, por ser a manchete um resumo da tônica do artigo que segue. A manchete é ardilosa:

No primeiro parágrafo, o leitor encontra: “Durante audiência na Comissão de Educação, Cultura e Esporte (CE) do Senado Federal, Mercadante disse que os professores têm prioridade, mas que a crise internacional deve ser considerada.” E como sempre, ao final dos fatos, depois de ler muitas coisas e já nem prestar tanta atenção, o leitor vê a verdadeira versão dos fatos:

Dirigindo-se aos senadores presentes na discussão, o ministro da Educação afirmou que definir metas para o governo e declarar que 10% do Produto Interno Bruto (PIB) do país será investido na educação não é suficiente.

“É preciso que nos mostrem da onde que virão os recursos para empregarmos na educação. (…) Instituir que 10% do PIB brasileiro será aplicado na educação representaria um acréscimo no orçamento equivalente a 5 CPMF’s. Como não vamos criar novos impostos, é preciso realocar os recursos que temos hoje”, explicou Aloizio Mercadante.

Ou seja, a manchete dá a entender que o governo quer que os professores mostrem “da onde (sic) virão os recursos dos 10% do PIB para a educação”. No entanto, dirigia-se a senadores na CE. Ao final do texto, porém, o estrago está feito, ainda que ele diga que Mercadante se dirigia aos senadores presentes na sessão. O pior desta notícia é saber que, internamente, o próprio governo está sabotando o que deveria ser fundamental para o país: investimentos na educação, área estratégica para um país que tenha qualquer intenção de não ser uma república bananeira. A desculpa: a crise.

Por outro lado, a Folha publica texto cretino de Gilberto Dimenstein. Intitulado “Universidade gratuita é justo?”, Demenstein (com “e” mesmo, não é erro de digitação)  começa dizendo que a greve dos professores é justa, mas logo revela a que veio:

Não tenho dúvidas de que a reivindicação dos professores das universidades federais, em greve há quase dois meses por aumento de salários, é justa. Dificilmente uma carreira tão estratégica para o desenvolvimento do país –afinal, são professores que formam professores– será atrativa com salários nesse nível.

O que me incomoda, porém, é que o debate não analise outros modos de dar mais dinheiro às universidades, além do imposto. Por que não ter coragem e abrir o debate sobre se é justo a universidade ser gratuita?

Há um fato: o brasileiro já paga mais de quatro meses por ano de imposto e recebe muito pouco de volta. Outro fato: a elite brasileira estuda em universidades públicas, mas fez escolas privadas caras. Por que não cobrar mensalidade e garantir bolsa aos mais pobres?

Querem que o governo tire dinheiro do ensino básico, onde estão os pobres, para colocar mais dinheiro no ensino superior? Querem tirar do Ministério da Saúde? Ou querem que o governo aumente mais os impostos?

A verdade é que não sabemos nem mesmo quanto as universidades desperdiçam por má gestão.

Em seguida, na melhor tradição de arauta do PSDB, vaticina o que já cantei antes, mas indo além para desqualificar o ex-ministro:

Se tem um assunto que vai tirar o sono do candidato do PT à Prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad, é a questão das federais, ainda mais porque vemos o atraso das obras. É o custo de usar mais critérios eleitorais do que técnicos.

E fecha com chave de ouro, dando uma suposta chave para a independência dos estudantes e professores dessa greve nefasta (este adjetivo é sarcasmo meu…) travestida de inocente e bem-intencionada “dica”:

Uma dica: surgem cada vez mais aulas traduzidas para o português das melhores universidades americanas. Todos os estudantes e professores deveriam usar essa material gratuito. Veja a lista de aulas aqui.

De uma feita, diz aos alunos que não precisam das aulas de seus professores, e diz aos professores que suas aulas são uma porcaria, com o exemplo do que deveria ser feito em sala de aula. Dimenstein deixa transparente sua posição nas entrelinhas: a universidade gratuita brasileira é ruim, não merece mais recursos do governo, e deveríamos começar um processo de privatização das mesmas. Comecemos com a cabecinha, que o resto entra fácil, depois.

A campanha eleitoral para São Paulo nem começou ainda, e as harpias de sempre já aquecem suas asinhas e começam a afiar suas garras e bicos. Os alunos e professores estão fulos com a inépcia do governo em negociar, e com sua opção paredista de cortar o ponto com apenas uma reunião, onde o melhor (?) que o governo conseguiu fazer foi pedir uma trégua e demonstrar que além de ser incapaz de montar um plano de carreira apresentável, não tem a menor intenção de fazê-lo. Felizmente, circulam notícias de que os Reitores das Federais, usando-se da autonomia que lhes é concedida, decidiram por unanimidade não cortar o ponto, por entender que as opções de negociação estão longe de serem exauridas e por não terem o STF/STJ julgado a greve abusiva. Lembremos que está prometida uma proposta para o final deste mês, mas o orçamento da União fecha no dia 31 de agosto, o que deixa um mês ou menos para uma negociação que requer tempo. Fica clara a intenção do governo de deixar poucas escolhas aos Professores em greve e fazê-los aceitar qualquer coisa que proponha, valendo-se de uma estratégia de premência e atabalhoamento.

O PT que não tome tento, para ver. Pelo visto Haddad vai ter muita dor de cabeça, e os PTucanos de plantão – aqueles que se acham muito de esquerda por votar no PT do governo (que já não é mais o PT que conhecíamos na década de 80 e 90), mas acabam defendendo posições tão ou mais tucanas que as dos tucanos originais, no que toca a greve dos Profesores e funcionários públicos – vão ter muito trabalho para elaborar um discurso convincente para defender o partido.

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A greve dos Professores das Federais

Como é de conhecimento público, a greve dos Professores das Universidades Federais de todo o país já dura quase um mês. Em universidades que trabalham com quadrimestres, como a UFABC, mais dois meses de greve farão com que o quadrimestre corrente seja perdido. Nas universidades que trabalham por semestres, alunos podem deixar de se formar por falta de aulas, e o Natal e o Ano Novo podem quase se passar dentro das salas de aula.

É fato que a greve dos professores prejudica, principalmente, os alunos. Por mais que o direito de greve seja garantido pela nossa Constituição, ainda há quem queira pintar as greves como coisa de vagabundos:

Defende-se o corte de ponto, diz-se que é uma vergonha que se ganhe para não trabalha; só falta dizer que se deve colocar tropas de choque pra reprimir manifestações de professores. Não é o que é dito, claro, mas é o passo seguinte natural. Mas, será que é para ganhar sem trabalhar, mesmo? A julgar pelos comentários deste post no excelente blog de Luis Nassif Braslianas.org, a maioria escritos por professores, não. Vale a pena ler, em especial, os comentários e a reportagem do site da ANDES-SN postados pelo sergior – são, respectivamente o sexto e nono comentários após o texto.

As reivindicações dos professores para além da evidente e endêmica falta de infraestrutura física das Universidades Federais podem ser encontradas no décimo segundo comentário, de autoria de Daniel Augusto, neste post do mesmo Brasilianas.org, e também me parecem muito justas. Ainda assim, nem todos os professores aderiram à greve, por razões que se sintetizam, em parte, no quarto comentário do mesmo post, de autoria de Adriano Martins. É importante dizer que não considero a simples não-adesão à greve uma “peleguice”. É uma questão de foro íntimo e pessoal e, se a pessoa acha que não deve entrar na greve, seja pela razão que for, deve fazer o que acredita ser correto. Julgar uma pessoa pelas convicções pessoais, para mim, é a mesma coisa que dizer  – de modo maniqueísta – que uma pessoa é má por não ser de esquerda, ou que é má por ser atéia. Enfraquece a greve? Sim. Mas, se uma pessoa julga que tudo está bem, ou que o modo pelo qual está se tentando conseguir algo é errado, não vejo por quê ir contra seus princípios. O que não se pode, sob hipótese nenhuma, é ser hipócrita.

O que quero com este texto, e que muito me dói, é chamar a atenção para o fato decepcionante de que o PT deixou de ter aquela visão de desenvolvimento de Nação que um dia, provavelmente, teve. Segundo os professores grevistas (e talvez também segundo os não-grevistas), as negociações sobre seu novo plano de carreira se arrasta já há mais de um ano, nas palavras da presidente da Associação Nacional dos Docentes do Ensino Superior (Andes), Marina Barbosa: segundo ela, desde agosto de 2010 as negociações com o governo sobre o assunto se arrastam sem avanço.

Deflagrou-se a greve, os alunos começaram a sentir o prejuízo que teriam, e o Governo, em atitude estúpida, decidiu tratar o assunto, incialmente, fazendo ouvidos de mercador. Depois, com a inquietação crescendo, começaram a circular rumores (classifico assim pois não consegui encontrar notícias online que suportem estas coisas, apenas imagens no Facebook) de que o Ministro da Educação, Aloísio Mercadante, teria declarado que não negociaria com os professores enquanto estivessem em greve. Levou duas semanas para que o Ministro começasse a declarar que a greve era precipitada por ser o dia 31 de agosto de 2012 a data-limite para a chegada a um acordo (após praticamente dois anos de espera!):

Pior, levou quase um mês para que o Governo resolvesse sentar à mesa com os grevistas para negociar e, quando o fez, revelaram-se tanto a inépcia deste governo em ter uma visão estratégica sobre o papel da educação no país, como sua débil (bondosamente falando) habilidade em negociar e, principalmente, o descaso com que trata os docentes de ensino superior no país. A proposta feita no dia 12 de junho, Segunda-feira, é de uma indecência e desfaçatez impressionantes. Eis o relato do que aconteceu na reunião, postado no grupo Greve2012 no Facebook, pelo Prof. José Monserrat Neto:

Informação fresquinha direto de Brasília, do Prof. Antônio Maria, que participa do Comando Nacional de Greve (CNG/Andes):

“Caros colegas,

A reunião prevista para começar as 17horas iniciou-se por volta das 18h30 e o governo iniciou informando sua proposta.

Ele propôs o seguinte:
– Gostaria de propor uma trégua de 20 dias, os professores voltariam a sala de aula e terminariam o semestre e então juntos faremos um calendário para se apresentar o plano de carreira.

A presidente do Andes, profa. Marina, disse que a trégua já havia sido dada em agosto passado, quando foi assinado o acordo, um cronograma estabelecido com prazo final até 31 de março, o qual foi prorrogado para 31 de maio sem nenhum avanço concreto. Portanto, a entidade não tinha como confiar no governo, considerando que a greve comecou forte e que a base está mobilizada e consciente do processo que ocorrido e que nada foi resolvido.

Então os técnicos do governo cochicham, ponderam, e, então, após uns 30 minutos de reunião, pedem tempo técnico para eles se reunirem, assim como Bernardinho da seleção de volei faz para organizar o time. Marina disse que Bernardinho precisa de menos de 5 minutos para organizar o time. Governo diz que precisa de 15 minutos.

Passados cerca de 30 minutos, governo retorna a mesa de negociação e diz que apresentará sua proposta no decorrer dos próximos 20 dias e que a negociação será finalizada no máximo em 20 dias. Informou que a carreira docente é prioridade para o governo e eles estão elaborando a proposta com referencia na carreira de C&T.

Marina questionou se a referência é de valores salariais de referência, ou de piso e teto, ou a estrutura da carreira. Governo informou que são valores de referência e que não pode assumir os valores agora, pois demanda análise.

Nada foi dito sobre a estrutura, condições, progressões, piso, teto, etc.
O governo mais uma vez enrolou na reunião e claramente não tem nenhuma proposta de fato para a carreira docente.

Mais uma vez, mesmo muitos discordando, o ANDES acertou ao iniciar a greve antes do prazo, pois passados 2 semanas após o termino do prazo o governo não tem proposta e ainda pediu mais 20 dias.

A próxima reunião foi agendada para o dia 19 (terca).

Portanto companheiros, a greve continua, não há o que deliberarmos em termos de carreira ou proposta a ser discutida. É inacreditável!

Att,
Prof. Antonio Maria
Direto de Brasilia”

Fica claro, filtrando as partes que fazem a equipe de negociadores do Governo parecerem um bando de galinhas tontas correndo em torno de montinhos de ração, que (1) o Governo não tem um “plano B” para solucionar o problema, (2) não se preocupou em elaborar uma proposta que dignifique os professores e (3) está querendo enrolar os Professores, subestimando de modo gritante sua capacidade intelectual. Em palavras simples e diretas: o Governo está achando que os grevistas é que são galinhas tontas e burras que se satisfariam simplesmente com um pouquinho a mais de ração em seus já minguantes montinhos. Se vai ser este o caso, só o tempo e as negociações dirão.

Quase que paralelamente à greve dos Professores, deflagrou-se uma greve de médicos, inicialmente por uma paralisação de médicos em hospitais públicos no Paraná, e que posteriormente se estendeu a 40 hospitais públicos em todo o país. A razão foi uma MP que, efetivamente, aumentava a carga de trabalho dos médicos ao mesmo tempo em que, efetivamente, cortava seus salários pela metade. O Governo foi rápido em sanar esta situação: no próprio dia 12 de junho, decidiu revogar a malfadada MP.

Para os professores, no entanto, uma tentativa de enrolação. Por quê não com os médicos? Ora, por uma razão simples: ano eleitoral. Os médicos atingem uma parcela muito maior da população, com prejuízos muito maiores que o adiamento de formaturas por um semestre ou quadrimestre e a perda de férias de inverno e verão. Além disso, quem depende dos hospitais públicos é a fatia do eleitorado que é o fiel da balança nas eleições, parcela essencial para que seja possível uma maioria do PT ou de partidos de esquerda nas prefeituras do país, fator essencial para impedir o avanço da direita no país. Eu, particularmente, há tempos deixei de achar o PT a melhor opção política, mas continuo sendo de esquerda, e continuo achando que o avanço da direita é uma coisa nefasta em qualquer país – haja visto o que está acontecendo com o estado de bem-estar social na Europa, com a Espanha como exemplo cabal.

Ledo engano de quem acha que o recuo do Governo em relação à greve dos médicos dos hospitais públicos tem a ver com querer o bem-estar do eleitorado que se gostaria de manter cativo. Os recuos com relação às greves dos médicos e dos Professores das Federais têm como raiz a mesma razão: uma tentativa de minimização de danos à candidatura de Fernando Haddad em São Paulo, que insiste em não decolar dos 3% nas pesquisas ainda que, como bem pondera Fernando Mitre, estejamos em uma época das eleições em que pesquisas não valem praticamente nada, mas começam a ganhar alguma importância. A “trégua” proposta pelo Governo possibilitaria minimizar estes danos de modo maquiavélico (como descrito em “O Príncipe”, de Maquiavel): uma trégua de vinte dias e a finalização do calendário acadêmico seria um modo de limpar a imagem do governo, que depois poderia muito bem enrolar a negociação de um plano de carreira por mais dois meses, o que adiaria o impacto no Orçamento Geral da União para 2014, uma vez que seu fechamento é em 31 de Agosto de 2012. Lembremos que olhando mais à frente, em 2014 teremos a Copa do Mundo, em que certamente as negociações, mais uma vez, não avançariam – quem não se lembra da época de lançamento dos malditos pacotes econômicos dos governos anteriores, que eram sempre em épocas de Carnaval ou Copa do Mundo? O problema é que o Governo não se deu conta, ou resolveu blefar com o fato, de que desta vez seu próprio projeto de enfraquecimento da direita no país (que eu apóio, sem querer que ela seja eliminada!) “melou” tudo, dando uma força incrível aos professores em conseguir melhorias significativas.

É um erro crasso não preceber, ou ignorar, que os professores não têm força, e muita, dessa vez, justamente por causa das eleições para prefeito em São Paulo. Vejamos como se posicionam as peças no tabuleiro: temos uma eleição que provavelmente será decidida entre um ex-ministro da educação concorrendo pelo PT, partido criado pelo Lula, que comandou as maiores greves do país, e um ex-ministro da saúde concorrendo pelo PSDB. Pra quem ainda não ligou os pontinhos da minha hipótese, vai o desenho: um partido trabalhista enrolando pra negociar – primeira contradição crassa – com professores – sendo que seu ex-ministro da educação concorre em SP – e médicos – sendo que seu adversário é um ex-ministro da saúde com boa receptividade em um eleitorado extremamente conservador, e que não vai hesitar em distorcer os fatos a seu favor.

Quem acha que o PSDB não vai capitalizar forte com todos esses ingredientes? Há uma  semana atrás, o PSDB já avisou que ia usar a greve dos professores contra Haddad na campanha de Serra. A Folha, por sua vez, começa a dizer que o governo tem medo que a greve dos professores, que foi reforçada na Segunda-feira dia 12/06 (presentão de dia dos namorados, hein?) pelos funcionários técnico-administrativos das Universidades Federais, prejudique a candidatura de Haddad à prefeitura de São Paulo. Até que demoraram a perceber essa possibilidade…

Mas a coisa fica muito pior para o Governo quando consideramos que a propaganda eleitoral gratuita no rádio e na TV começa em 21 de agosto, segundo o calendário eleitoral, mas a da internet começa em 6 de julho. Para achar que é coincidência o governo pedir uma “trégua” de vinte dias, dado que a propaganda eleitoral na internet começa justamente 24 dias após o começo da propaganda eleitoral na interne,t tem que ser muito Poliana. O Governo sabe da força da internet e das redes sociais; não subestimem esta força e esta influência, porque o próprio Governo não as subestima. Vejamos dois comentários no grupo Greve2012 do Facebook (omiti os nomes dos comentaristas de propósito):

A manchete foi bem cruel. O conteúdo da fala dele não está expressa na manchete. Mas o que vai se fazer? Se o PT quer queimar seu candidato e deixar o infeliz enfrentando esta pauta, que seja. Felicidade na direita e na extrema-esquerda! Continuo com minha campanha: Lula, liga para Brasília e bota este povo no “cantinho da reflexão”. kkkkkkkkk

É cômico.. esse playboyzinho [N.A.: Haddad] aí falando que nao está no DNA criticar grevista.. q q o Mercadante ta fazendo falando q a greve é precipitada? a pra puta que pariu viu…. como que alguém ainda pensa em votar em alguem dessa corja?

E, como não fosse o bastante, vejam o que foi tuitado pelo Senador Cristovam Buarque, e que começa a ser amplamente divulgado pelos indignados com a greve, no Facebook:

Buarque tem quase 300 mil seguidores no Twitter e, com mais exposição através das redes sociais com platitudes como esta que, além de falar alto e forte em épocas de indignação e ânimos exaltados e que, no fundo, têm bastante a ver com o conecito de desenvolvimento do governo Dilma, pode acabar ganhando muitos mais. Pelo tom geral dos Tweets e discursos do Senador, dá pra perceber que ele não é bem o que se chamaria de um simpatizante do atual Governo ou do PT.

Tic-tac, tic-tac, tic-tac, é o que devem escutar atualmente Dilma, Mercadante e Sérgio Mendonça. Não há desculpa para não dar um aumento e investir mais na educação superior pública. Impacto orçamentário? Pequeno, ainda mais com as quedas da taxa Selic, que possibilitariam que as economias do Governo no financiamento da dívida pública fossem re-direcionadas para o pagamento dos aumentos necessários, e para a execução das obras de infra-estruturas ao longo do resto do atual mandato. Afinal de contas, ao contrário do judiciário, que tem salários muito mais polpudos que os dos Professores das Universidades Federais, a aposentadoria com salário integral pago pelo Estado já levou o devido golpe mortal. Tic-tac, tic-tac, tic-tac.

Se os Professores pararem agora, vão estar dando tiro na cabeça, porque “no pé” seria mero eufemismo. Estão com a faca e o queijo na mão. Parar agora e terminar o semestre seria burrice: depois, o governo poderia, como disse anteriormente, voltar a enrolar e nas propagandas eleitorais, dizer que está negociando, limpando sua imagem. Os médicos conseguiram as coisas muito mais fácil, pois muitas vezes as pessoas têm que sair de cidades longe pra ir se tratar, e isso iria provocar uma ira enorme da população de baixa renda (historicamente mais suscetível a demagogias como as de figurinhas carimbadas como Maluf e Serra), que é um colégio eleitoral maior que nós, que podemos aceder à educação superior, e portanto é o fiel da balança nas eleições.

A trégua que o governo propôs é ato de desespero. Posso estar sendo otimista demais, mas é possível que esta greve, continuando com pressão forte mas equilibrada, mal chegue ao final de julho, principalmente se os Professores forem solidários com os funcionários de suas instituições. Quero mais é que a greve continue, e que os Professores grevistas consigam seus objetivos que, como visto mais acima, está muito além de um mero aumento salarial. Ainda mais que os alunos de graduação, eu estou sendo prejudicado pela greve: fui aprovado em um concurso, me chamaram para preencher uma vaga numa Federal, e minha papelada chegou no RH no final de Maio. Justamente na Segunda-feira seguinte, os funcionários técnico-administrativos da UFF entram em greve. Leva um mês ou mais para publicar a nomeação no DOU, e provavelmente meus papéis estão lá parados, com a validade de meu concurso expirando em 1 de novembro. Se essa greve se estender até Agosto ou Setembro, arrisco a perder minha vaga. Mas agora não é a hora de parar, em hipótese alguma. É a hora de conseguir que o governo deixe de ter essa visão puramente monetarista de desenvolvimento, e que pelo menos assuma compromissos de desenvolvimento que não sejam puramente aumentos salariais “cala-a-boca”.

Só me deixa sentimentos de tristeza e de traição à minha militância de mais de 20 anos por este partido ver que, para chegar ao poder, enterrou na lama seus princípios que nos eram mais caros. Lembro de quando eu tinha oito ou nove anos – isso foi por volta da fundação do PT, por volta de 1980, em meio a uma ditadura militar já na descendente -, quando estudava no Externato São Patrício, no Rio de Janeiro, ver um adesivo “OPTei” colado na pasta da minha professora (de História?), Tia Helena (?). Anos mais tarde, compreendi sua reticência em me explicar o que era, com agentes do DOPS infiltrados onde menos se esperava de olhos e ouvidos abertíssimos, e esta compreensão me marcou e influenciou enormemente até hoje. Hoje, continuo a ser de esquerda. Também continuo a votar no PT, ainda que seja somente por falta de melhores opções – PSOL e PSTU, para mim, são só “a esquerda que a direita adora”. Fico imaginando o que pensará a respeito disso tudo, hoje, a Tia Helena.

Atualização às 17:52:

Quando a pressão é feita no momento certo e no momento certo, começa a surtir efeito. Os grevistas fizeram muito bem em não parar.

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Como a pseudo-ciência da imprensa irresponsável pode sabotar muita gente

Cada vez mais, me impressiona a irresponsabilidade da imprensa, e a nível mundial.

Claro que é legal dar um toque de irreverência ou de polêmica a alguns assuntos, para deixá-los mais interessantes. Daí a distorcer fatos de maneira grosseira, de modo a causar efeitos que podem prejudicar todo um grupo ou até mesmo uma geração, existe um abismo enorme de distância.

Há pouco tempo atrás, a Veja publicou uma matéria irresponsável sobre um remédio para diabetes, o Victoza, que era apresentado como a última palavra para o combate à obesidade. Indo ao site da Veja e fazendo uma busca sobre o assunto, é difícil encontrar a matéria – dá a impressão até que eles tiraram do site. Por sorte (ou infelicidade extrema), a revistolha – ainda – tem repercussão, de modo que muita gente reproduz o que a revista publica, sem questionar. A conseqüência? Muitos diabéticos, que realmente precisam do Victoza, ficaram sem o remédio, que sumiu das prateleiras, e médicos alertaram: o uso indiscriminado pode ter sérios efeitos colaterais. Tudo por uma pseudo-ciência sem nenhum fundamento científico, para vender revistas sem importar as possivelmente graves consequências.

Pois bem, desta vez, a Veja reproduz, sem nem verificar o que é dito, outra reportagem irresponsável, desta vez publicada em periódico internacional. Inicialmente publicada no Sunday Telegraph, a notícia foi provavelmente copiada e aumentada em dramaticidade pelo Daily Mail, que afirma:

It runs counter to all the received wisdom about revision. But scientists say last-minute cramming could actually be better than spending months swotting up for exams.

Em livre tradução para o português: “Vai contra tudo o que aprendemos sobre como estudar. Mas cientistas dizem que tentar aprender tudo de última hora pode ser, na verdade, melhor que queimar as pestanas durante meses para as provas.”

A Veja, por sua vez, diz: “Estudar em cima da hora, antes de uma prova, pode ser a melhor forma de aprender. É o que indica uma nova pesquisa publicada no periódico Experimental Neurology. Segundo seus autores, hormônios produzidos em situação de estresse provocam mudanças dentro das células do cérebro que ajudam a guardar a informação de forma mais eficiente. Em excesso, porém, o estresse pode ter o efeito inverso.”. Pelo menos eles ainda fazem a coisa um pouco melhor que essa geração que está se acostumando, cada vez mais, a dar CTRL+C – CTRL-V na Wikipédia (sarcasmo mode on).

Estranhei muito, quando vi a notícia, e senti cheiro de pilantragem no ar. Parecia muito o caso de uma reportagem da Folha, do dia 18/10/2010, onde as declarações do Prof. José Marcio Camargo, da PUC-RJ, eram convenientemente distorcidas para dar a impressão que o Bolsa-Família estimulava a vagabundagem – tratei do tema no post “Por que não confio na Folha (e no PIG, em geral) – Parte II”, neste mesmo blog – e resolvi tirar a coisa a limpo.

Para tanto, primeiro fui olhar o artigo da Experimental Neurology, de onde essa asneira sem fim teria sido, supostamente, retirada. Como esperava de pesquisadores que se respeitem, nada tão ridículo assim estava escrito no artigo. Só me faltava perguntar ao próprio pesquisador ao qual esta monstruosidade tinha sido atribuída, o Prof. Hans Reul, da Universidade de Bristol, na Inglaterra, se ele realmente tinha dito aquilo, ou se tudo tinha sido inventado. Abaixo reproduzo os dois e-mails que lhe enviei, traduzidos para o português (ao final deste post, vocês encontrarão o original em inglês):

Caro Prof. Reul,

Recentemente, tomei conhecimento de seu artigo na revista Experimental Neurology, sobre a influência do stress na capacidade de o cérebro memorizar informações. Foi muito interessante ler sobre o resultado de que o aprendizado devido ao stress imposto a ratos é um efeito de longa duração. No entanto, vi uma afirmação que lhe foi atribuída reproduzida em muitos sites de notícias na web – e suponho que a vasta maioria seja uma cópia de uma notícia original – que diz que “tentar aprender tudo na última hora pode ser muito melhor que queimar as pestanas durante meses estudando para as provas” (http://www.dailymail.co.uk/sciencetech/article-1382936/Last-minute-exam-stress-actually-help-students-form-stronger-memories.html).

Esta declaração é realmente sua? Ou é apenas uam extrapolação de uma declaração que me parece muito mais plausível, do mesmo artigo, que diz que “O Professor Hans Reul, um neurocientista na Universidade de Bristol, disse que suas descobertas sugerem que o aprendizado dos estudantes pode ser potencializado quando feito sob a pressão de uma data-limite”?
Sei que o Sr. deve ser uma pessoa bastante ocupada, mas realmente gostaria de saber se esta é apenas uma invenção da mídia para chamar a atenção para o assunto com afirmações controversas como a do Daily Mail, de que “Vai contra tudo o que aprendemos sobre como  estudar. Mas cientistas dizem que tentar aprender tudo de última hora pode ser, na verdade, melhor que queimar as pestanas durante meses para as provas”. Vejo que muitos estudantes em redes sociais, tas como o Facebook, estão dizendo que estudarão tudo somente na última hora, uma vez que se conclui que este é o melhor modo de se estudar. Tenho que admitir que me preocupa, pois minha experiência pessoal me diz justo o contrário (no que toca a estudar de última hora), e como eu mesmo sou um educador, gostaria de saber se isto é verdade, em caso de os estudantes me perguntarem algo sobre o tema.
Atenciosamente,
Marcos Verissimo Alves
Pesquisador em estágio de Pós-doutoramento em Teoria em Ciência de Materiais
Universidade Federal do ABC – Santo André, SP, Brasil

A resposta do Prof. Reul, gentilíssima e pronta, foi a seguinte (os grifos são meus):

Caro Marcos,

Muito obrigado por me chamar a atenção para isto.

Isto tudo começou com uma entrevista que dei a um jornalista do Sunday Telegraph em março ou abril de 2011. Conversamos sobre minha pesquisa, mas eu nunca disse nada no sentido de estudar de última hora ser melhor, nem qualquer coisa do gênero. Claramente, tanto meu artigo na Experimental Neurology, como quaisquer outras publicações , não têm nada a ver com estudar para provas ou o stress induzido pelas provas. Sua conclusão, de que é uma invenção da mídia, é correta.

Creio que, como você diz, é senso comum que não se deve deixar o estudo para a última hora. É preocupante, entretanto, que estudantes levem as notícias publicadas a sério. Por favor, diga a seus estudantes que nunca aprovei tais declarações. Estou pensando em publicar uma afirmação rebatendo a que me ;e atribuída.

Tudo de bom,

Hans Reul

É claro que o artigo é um caso evidente da irresponsabilidade jornalística que, como se pode ver, não se restringe à Veja e a nossos periódicos de segunda categoria. No entanto, me preocupou o fato de que um primo tivesse divulgado a reportagem da Veja, e me preocuparam muito mais os comentários de estudantes na reportagem, como o do Anônimo:

Anônimo

Finalmente a verdade aparece…depois de anos ouvindo aquela balela de estudar tudo antes…no último dia ir andar de bicicleta ou jogar tênis para diminuir o estresse e relaxar para a prova…quanta bobagem! O negócio é estudar até o último minuto, o descanso vem dps, ora essa! Todo estudante que se preza já sabia disso! E com o tempo você consegue guardar textos em minutos!!!

08.12.2011

Qual a real influência desses irresponsáveis da Veja sobre os adolescentes, não sei. Mas, e se de repente a maioria dos estudantes do país resolve seguir os “conselhos científicos” da revistolha e deixa pra estudar em cima da hora para a prova? Uma série de reprovações, baixo desempenho escolar – mais baixo que já é atualmente, e mais chumbo no cano dessa nossa imprensa golpista para minar qualquer bom esforço que esteja sendo feito no sentido de melhorar a educação neste país. Bom pro PIG, quando quiserem minar o governo e a candidatura do Haddad para a prefeitura de SP. E bom também pra desmoralizarem (ou melhor, tentarem desmoralizar) a imagem de Lula, de quem Haddad seria o ungido.

Os benefícios políticos para o PIG são, em minha opinião, entretanto, apenas um efeito colateral, que não vêm tanto ao caso como o perigo que o uso da pseudo-ciência, ou da distorção de fatos científicos, pode causar em um número expressivo de pessoas. É preciso que divulguemos que isto é uma lorota, como disse o próprio (suposto) autor da declaração – pelo bem maior da educação no país.

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Minha carta ao Prof. Reul, em inglês:

Dear Prof. Reul,
I have recently come to know about your article on Experimental Neurology, on the influence of stress on the ability of the brain to memorize information. It was very interesting to read about your result that the learning due to stress imposed on mice is actually a long term effect. However, I have seen an affirmation which is attributed to you, reproduced in many different news sites – and I would guess that the vast majority of them are a copy of an original one – which is that “last-minute cramming could actually be better than spending months swotting up for exams” (http://www.dailymail.co.uk/sciencetech/article-1382936/Last-minute-exam-stress-actually-help-students-form-stronger-memories.html).
Is that an actually true declaration? Or is it an extrapolation of a declaration that seems much more plausible to me, in the same article, which states that “Professor Hans Reul, a neuroscientist at the University of Bristol, said that the findings suggest students’ learning could actually be improved by studying when feeling the pressure of a deadline”?
I know you must be a very busy man, but I would really like to know if this is just an invention of the media, trying to attract attention to the subject with controversial affirmations such as Daily Mail’s “It runs counter to all the received wisdom about revision. But scientists say last-minute cramming could actually be better than spending months swotting up for exams.”  I am seeing many students in social networks, such as Facebook, which are actually saying they will only do their studying in the last minutes, since they conclude that this is the best way to study. I have to say it worries me, for my personal experience tells me the contrary (in what concerns last-minute cramming for the examinations), and as an educator myself, I would like to know if this is true, in case students question me about it.
Best regards,
Marcos Verissimo Alves
Post-doctoral researcher in Theoretical Materials Science
Universidade Federal do ABC – Santo André, SP, Brasil

E a resposta do Prof. Reul, também em inglês:

Dear Marcos,

Many thanks for bringing this to my attention.

This all goes back to an interview I gave to a journalist of the Sunday Telegraph in March or April 2011. We talked about my research but I never said anything  like that last-minute studying for exams is the best way to study or something similar. Clearly, my Exp Neurology paper and other publications have nothing to do with studying for exams or exam stress. Your conclusion is correct that this is an invention of the media.

I thought, as you said, it is common sense that one shouldn’t leave studying till the last minute. It is worrying however that students take the news articles seriously. Please tell your students that I never endorsed those statements. I am considering to publish a counter statement.

Best wishes,

Hans Reul

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O lado bom de um câncer?

Parem o mundo pra imprensa brasileira descer. Eu continuo nele, a imprensa brasileira é que bem podia ir embora.

Pode-se ser de direita, não gostar do Lula, ter arrepios com programas sociais como o Bolsa-Família e tudo o mais que possa melhorar as condições de vida de gente pouco favorecida economicamente. Mas, vamos combinar que ética é fundamental e que ser de direita não nos dá o menor direito a celebrar o câncer de uma pessoa? Pois é exatamente isto que faz, hipocritamente e sem o menor traço de ética, o Sr. Gilberto Dimenstein na Folha de São Paulo. Reproduzo abaixo o texto do jenio:

29/10/2011 – 16h23

Câncer de Lula vai servir de lição

Possivelmente o câncer de Lula servirá como a mais forte campanha popular de que se tem notícia no Brasil contra o fumo –afinal, há uma forte associação entre o câncer de laringe e o cigarro.

Enquanto todos estivermos acompanhando (e torcendo para que o tratamento dê certo), o país vai conhecer, como nunca conheceu, os efeitos no cigarro, apesar de tantas campanhas realizadas há tanto tempo.

Nunca tivemos um personagem tão popular e tão próximo dos mais pobres com um câncer ligado diretamente ao fumo.

Justamente nas camadas mais baixas o hábito de fumar tem caído com muito menos velocidade do que entre os mais ricos. E justamente na laringe, por onde passa a habilidade de Lula em convencer as pessoas em seus discursos.

Infelizmente é desse jeito, com as pessoas sentindo-se próximas e vulneráveis diante de uma ameaça que se consegue mudar atitudes.

Gilberto DimensteinGilberto Dimenstein, 54, integra o Conselho Editorial da Folha e vive nos Estados Unidos, onde foi convidado para desenvolver em Harvard projeto de comunicação para a cidadania.

Vamos deixar de lado o fato de que ele fala de Lula, por alguns momentos. Como é que alguém consegue ser tão desumano a ponto de celebrar um câncer? Não se deve celebrar nenhum tipo de câncer, muito menos um tipo maligno como é o do Lula. Perdi meu pai para um câncer muito mais maligno, um glioblastoma multiforme. E pelo texto do Dimenstein, já percebo que ele nunca perdeu um ente querido para esta doença tão triste. Não adianta dizer que os avanços da medicina tornam o carcinoma de Lula curável. O carcinoma é um tumor maligno, que pode entrar em metástase e ser letal.

Agora voltemos a colocar Lula na equação. Dimenstein está celebrando o câncer de Lula como uma punição por seu “mau ato” de fumar. Diz – e escrevo aqui com todas as letras, hipocritamente – que isso servirá de lição para os outros fumantes, e que torce por uma pronta recuperação de Lula. E são duas mentiras, tanto o argumento furado de que os outros fumantes irão parar pelo câncer de Lula, quanto o suposto desejo de pronta recuperação. Em primeiro lugar, se exemplos e “punições divinas” adiantassem para fazer as pessoas parar de fumar, a Souza Cruz e a Phillip Morris já teriam falido no Brasil. Depois, gente como o Sr. Dimenstein sabe muito bem – e se não sabe, tem toda a condição de saber – que câncer não é gripe. Se mesmo uma gripe pode evoluir para uma pneumonia, com o desenvolvimento de sérias complicações e matar – ainda que isso não seja mais tão comum -, que dirá uma doença como um câncer, que pode entrar em metástase e matar de forma lenta e dolorosa? Francamente, pergunto: há alguma coisa a ser celebrada na potencial morte de uma pessoa, mesmo que essa possibilidade seja muito remota, como dizem os médicos?

O problema é que, como diz o Luis Nassif em seu artigo “Como seria um Brasil sem Lula?“,

Até nos ambientes mais selvagens – das guerras, por exemplo – há a ética do guerreiro, de embainhar as armas quando vê o inimigo caído, por doença, tragédia ou mesmo na derrota. Por aqui, não: é selvageria em estado puro.

Porque, reconheçamos: os Quatro Fantásticos dessa imprensa golpista tupiniquim não vêem limites para os ataques políticos. Por que não se diz que um câncer como o do ex-governador Mário Covas também teria sido uma punição? A resposta é simples: porque Covas era do PSDB, o partido mais querido de todos os tempos dessa nossa imprensa inescrupulosa desde que começou nossa jovem democracia. Afinal de contas, que provas há que o fumo só cause o aparecimento de câncer na garganta ou nos pulmões? Nenhuma, até onde sei.

E essa bondade de Dimenstein para com Lula (“estamos todos torcendo para que Lula se recupere logo”) é falsa, pois a celebração esconde a vingança rancorosa de alguém que não suporta que Lula ainda exista na cena política nacional, mesmo sem se meter nela de modo ativo e explícito. Não nos iludamos e leiamos nas entrelinhas a clara mensagem: “Lula não morreu e ainda não está sofrendo, mas ainda assim, alguma coisa de bom pode ser extraído de sua doença”. É o prelúdio da armação de um circo midiático – que no caso de Covas, Dimenstein condenava sob o pretexto de auto-crítica à imprensa – mas, também, um modo de fazer de Lula um bode expiatório pelo pecado de roubar do PSDB a glória de ter levado o Brasil ao desenvolvimento econômico que sempre mereceu ter. E é, acima de tudo, um modo de diminuir o processo de martirização de Lula à qual se refere Nassif em seu lúcido artigo sobre as análise políticas que imediatamente se fizeram sobre o que seria o Brasil sem Lula, nesse processo sórdido de celebração do sofrimento do inimigo, nesse vale-tudo político onde a humanidade não chega nem mesmo a ser uma ideia platônica, por não existir nem mesmo no mundo do conceitual – dessa imprensa nojenta, claro.

Com este tipo de atitudes, dou graças ao universo que Dimenstein tenha ido ser parte de um projeto de comunicação para a cidadania na universidade de Harvard, e não em uma universidade brasileira. Porque, se é inevitável haver este tipo de “comunicação” para uma “cidadania” cujas bases estejam assentadas na canalhice, na hipocrisia e na desumanidade, é muito preferível que não seja aqui. Só me dá pena do povo para o qual uma tal “comunicação cidadã” esteja sendo concebida. Será que Dimenstein ganha uma bolsa da Fox News e a tal “cidadania” tem suas bases concebidas pelo Sr. Rupert Murdoch?

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A débâcle do jornalismo de esgoto

“Ah”, dirão os saudosos, “não se faz mais promoções como antigamente”. (Para os eternos nostálgicos, não existe o hoje, só o ontem.)

E a gente responde: “que bom”.  Porque as novas promoções dão esperança de que o jornalismo declaratório, como diz o Paulo Henrique Amorim, não vai continuar vivo por muito tempo no Brasil. Quem viver, verá.

Antes assinava-se a Óia e ganhava-se milhas Smiles - nem que me dessem um milhão de milhas por uma única edição. Mas pra Carta Capital... não tem opção de assinar a Carta Capital por quatro anos?

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