Como a pseudo-ciência da imprensa irresponsável pode sabotar muita gente

Cada vez mais, me impressiona a irresponsabilidade da imprensa, e a nível mundial.

Claro que é legal dar um toque de irreverência ou de polêmica a alguns assuntos, para deixá-los mais interessantes. Daí a distorcer fatos de maneira grosseira, de modo a causar efeitos que podem prejudicar todo um grupo ou até mesmo uma geração, existe um abismo enorme de distância.

Há pouco tempo atrás, a Veja publicou uma matéria irresponsável sobre um remédio para diabetes, o Victoza, que era apresentado como a última palavra para o combate à obesidade. Indo ao site da Veja e fazendo uma busca sobre o assunto, é difícil encontrar a matéria – dá a impressão até que eles tiraram do site. Por sorte (ou infelicidade extrema), a revistolha – ainda – tem repercussão, de modo que muita gente reproduz o que a revista publica, sem questionar. A conseqüência? Muitos diabéticos, que realmente precisam do Victoza, ficaram sem o remédio, que sumiu das prateleiras, e médicos alertaram: o uso indiscriminado pode ter sérios efeitos colaterais. Tudo por uma pseudo-ciência sem nenhum fundamento científico, para vender revistas sem importar as possivelmente graves consequências.

Pois bem, desta vez, a Veja reproduz, sem nem verificar o que é dito, outra reportagem irresponsável, desta vez publicada em periódico internacional. Inicialmente publicada no Sunday Telegraph, a notícia foi provavelmente copiada e aumentada em dramaticidade pelo Daily Mail, que afirma:

It runs counter to all the received wisdom about revision. But scientists say last-minute cramming could actually be better than spending months swotting up for exams.

Em livre tradução para o português: “Vai contra tudo o que aprendemos sobre como estudar. Mas cientistas dizem que tentar aprender tudo de última hora pode ser, na verdade, melhor que queimar as pestanas durante meses para as provas.”

A Veja, por sua vez, diz: “Estudar em cima da hora, antes de uma prova, pode ser a melhor forma de aprender. É o que indica uma nova pesquisa publicada no periódico Experimental Neurology. Segundo seus autores, hormônios produzidos em situação de estresse provocam mudanças dentro das células do cérebro que ajudam a guardar a informação de forma mais eficiente. Em excesso, porém, o estresse pode ter o efeito inverso.”. Pelo menos eles ainda fazem a coisa um pouco melhor que essa geração que está se acostumando, cada vez mais, a dar CTRL+C – CTRL-V na Wikipédia (sarcasmo mode on).

Estranhei muito, quando vi a notícia, e senti cheiro de pilantragem no ar. Parecia muito o caso de uma reportagem da Folha, do dia 18/10/2010, onde as declarações do Prof. José Marcio Camargo, da PUC-RJ, eram convenientemente distorcidas para dar a impressão que o Bolsa-Família estimulava a vagabundagem – tratei do tema no post “Por que não confio na Folha (e no PIG, em geral) – Parte II”, neste mesmo blog – e resolvi tirar a coisa a limpo.

Para tanto, primeiro fui olhar o artigo da Experimental Neurology, de onde essa asneira sem fim teria sido, supostamente, retirada. Como esperava de pesquisadores que se respeitem, nada tão ridículo assim estava escrito no artigo. Só me faltava perguntar ao próprio pesquisador ao qual esta monstruosidade tinha sido atribuída, o Prof. Hans Reul, da Universidade de Bristol, na Inglaterra, se ele realmente tinha dito aquilo, ou se tudo tinha sido inventado. Abaixo reproduzo os dois e-mails que lhe enviei, traduzidos para o português (ao final deste post, vocês encontrarão o original em inglês):

Caro Prof. Reul,

Recentemente, tomei conhecimento de seu artigo na revista Experimental Neurology, sobre a influência do stress na capacidade de o cérebro memorizar informações. Foi muito interessante ler sobre o resultado de que o aprendizado devido ao stress imposto a ratos é um efeito de longa duração. No entanto, vi uma afirmação que lhe foi atribuída reproduzida em muitos sites de notícias na web – e suponho que a vasta maioria seja uma cópia de uma notícia original – que diz que “tentar aprender tudo na última hora pode ser muito melhor que queimar as pestanas durante meses estudando para as provas” (http://www.dailymail.co.uk/sciencetech/article-1382936/Last-minute-exam-stress-actually-help-students-form-stronger-memories.html).

Esta declaração é realmente sua? Ou é apenas uam extrapolação de uma declaração que me parece muito mais plausível, do mesmo artigo, que diz que “O Professor Hans Reul, um neurocientista na Universidade de Bristol, disse que suas descobertas sugerem que o aprendizado dos estudantes pode ser potencializado quando feito sob a pressão de uma data-limite”?
Sei que o Sr. deve ser uma pessoa bastante ocupada, mas realmente gostaria de saber se esta é apenas uma invenção da mídia para chamar a atenção para o assunto com afirmações controversas como a do Daily Mail, de que “Vai contra tudo o que aprendemos sobre como  estudar. Mas cientistas dizem que tentar aprender tudo de última hora pode ser, na verdade, melhor que queimar as pestanas durante meses para as provas”. Vejo que muitos estudantes em redes sociais, tas como o Facebook, estão dizendo que estudarão tudo somente na última hora, uma vez que se conclui que este é o melhor modo de se estudar. Tenho que admitir que me preocupa, pois minha experiência pessoal me diz justo o contrário (no que toca a estudar de última hora), e como eu mesmo sou um educador, gostaria de saber se isto é verdade, em caso de os estudantes me perguntarem algo sobre o tema.
Atenciosamente,
Marcos Verissimo Alves
Pesquisador em estágio de Pós-doutoramento em Teoria em Ciência de Materiais
Universidade Federal do ABC – Santo André, SP, Brasil

A resposta do Prof. Reul, gentilíssima e pronta, foi a seguinte (os grifos são meus):

Caro Marcos,

Muito obrigado por me chamar a atenção para isto.

Isto tudo começou com uma entrevista que dei a um jornalista do Sunday Telegraph em março ou abril de 2011. Conversamos sobre minha pesquisa, mas eu nunca disse nada no sentido de estudar de última hora ser melhor, nem qualquer coisa do gênero. Claramente, tanto meu artigo na Experimental Neurology, como quaisquer outras publicações , não têm nada a ver com estudar para provas ou o stress induzido pelas provas. Sua conclusão, de que é uma invenção da mídia, é correta.

Creio que, como você diz, é senso comum que não se deve deixar o estudo para a última hora. É preocupante, entretanto, que estudantes levem as notícias publicadas a sério. Por favor, diga a seus estudantes que nunca aprovei tais declarações. Estou pensando em publicar uma afirmação rebatendo a que me ;e atribuída.

Tudo de bom,

Hans Reul

É claro que o artigo é um caso evidente da irresponsabilidade jornalística que, como se pode ver, não se restringe à Veja e a nossos periódicos de segunda categoria. No entanto, me preocupou o fato de que um primo tivesse divulgado a reportagem da Veja, e me preocuparam muito mais os comentários de estudantes na reportagem, como o do Anônimo:

Anônimo

Finalmente a verdade aparece…depois de anos ouvindo aquela balela de estudar tudo antes…no último dia ir andar de bicicleta ou jogar tênis para diminuir o estresse e relaxar para a prova…quanta bobagem! O negócio é estudar até o último minuto, o descanso vem dps, ora essa! Todo estudante que se preza já sabia disso! E com o tempo você consegue guardar textos em minutos!!!

08.12.2011

Qual a real influência desses irresponsáveis da Veja sobre os adolescentes, não sei. Mas, e se de repente a maioria dos estudantes do país resolve seguir os “conselhos científicos” da revistolha e deixa pra estudar em cima da hora para a prova? Uma série de reprovações, baixo desempenho escolar – mais baixo que já é atualmente, e mais chumbo no cano dessa nossa imprensa golpista para minar qualquer bom esforço que esteja sendo feito no sentido de melhorar a educação neste país. Bom pro PIG, quando quiserem minar o governo e a candidatura do Haddad para a prefeitura de SP. E bom também pra desmoralizarem (ou melhor, tentarem desmoralizar) a imagem de Lula, de quem Haddad seria o ungido.

Os benefícios políticos para o PIG são, em minha opinião, entretanto, apenas um efeito colateral, que não vêm tanto ao caso como o perigo que o uso da pseudo-ciência, ou da distorção de fatos científicos, pode causar em um número expressivo de pessoas. É preciso que divulguemos que isto é uma lorota, como disse o próprio (suposto) autor da declaração – pelo bem maior da educação no país.

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Minha carta ao Prof. Reul, em inglês:

Dear Prof. Reul,
I have recently come to know about your article on Experimental Neurology, on the influence of stress on the ability of the brain to memorize information. It was very interesting to read about your result that the learning due to stress imposed on mice is actually a long term effect. However, I have seen an affirmation which is attributed to you, reproduced in many different news sites – and I would guess that the vast majority of them are a copy of an original one – which is that “last-minute cramming could actually be better than spending months swotting up for exams” (http://www.dailymail.co.uk/sciencetech/article-1382936/Last-minute-exam-stress-actually-help-students-form-stronger-memories.html).
Is that an actually true declaration? Or is it an extrapolation of a declaration that seems much more plausible to me, in the same article, which states that “Professor Hans Reul, a neuroscientist at the University of Bristol, said that the findings suggest students’ learning could actually be improved by studying when feeling the pressure of a deadline”?
I know you must be a very busy man, but I would really like to know if this is just an invention of the media, trying to attract attention to the subject with controversial affirmations such as Daily Mail’s “It runs counter to all the received wisdom about revision. But scientists say last-minute cramming could actually be better than spending months swotting up for exams.”  I am seeing many students in social networks, such as Facebook, which are actually saying they will only do their studying in the last minutes, since they conclude that this is the best way to study. I have to say it worries me, for my personal experience tells me the contrary (in what concerns last-minute cramming for the examinations), and as an educator myself, I would like to know if this is true, in case students question me about it.
Best regards,
Marcos Verissimo Alves
Post-doctoral researcher in Theoretical Materials Science
Universidade Federal do ABC – Santo André, SP, Brasil

E a resposta do Prof. Reul, também em inglês:

Dear Marcos,

Many thanks for bringing this to my attention.

This all goes back to an interview I gave to a journalist of the Sunday Telegraph in March or April 2011. We talked about my research but I never said anything  like that last-minute studying for exams is the best way to study or something similar. Clearly, my Exp Neurology paper and other publications have nothing to do with studying for exams or exam stress. Your conclusion is correct that this is an invention of the media.

I thought, as you said, it is common sense that one shouldn’t leave studying till the last minute. It is worrying however that students take the news articles seriously. Please tell your students that I never endorsed those statements. I am considering to publish a counter statement.

Best wishes,

Hans Reul

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