Dirceu, Veja, Ley de Medios: Murdoch coloca Dilma numa sinuca de bico?

Faz tempo que não escrevo aqui no blog. Ando extremamente ocupado com a preparação para um concurso para professor, e com o encerramento dos trabalhos do meu pós-doc aqui na Espanha. A volta para meu amado Brasil, de onde tantas saudades tenho, tem consumido uma energia tremenda.

Agora, vem essa palhaçada da Veja, plantando provas (?) de corrupção no Zé Dirceu. Hoje, numa pausa em minha preparação para o concurso, resolvi dar uma lida no que a blogosfera está dizendo. Entrei no Blog da Cidadania, do Eduardo Guimarães, um que eu gosto muito, mas andei sem ler por bastante tempo. E me entristeci, ao mesmo tempo em que li bastantes coisas que me fizeram pensar.

Me entristeceu a fúria com que o Edu se lança contra os movimentos que surgem no Facebook (no último parágrafo deste post), ainda que insuflados pela mídia, golpista sim, que temos. Fúria, ainda que condensada em poucas linhas, ao compará-los ao movimento “Cansei”. Qual o problema de a população se manifestar? Para mim, o problema não é a população se manifestar, ainda que o faça como inocente massa de manobra. Que a mídia insufle e encoraje com suas intenções desestabilizadoras, aí sim, é que está o xis da questão. E que a população embarque no “Cansei” midiático, de verdade que não me surpreende. Desde que voltamos a ter uma democracia no país, na eleição de 1989, que esperamos mudanças. E já vão 21 anos, mais que o tempo de uma geração atingir maioridade civil.

É claro que vinte anos não são absolutamente nada, em uma escala histórica. Mas a percepção atual do passar do tempo, com seu ritmo alucinado de videoclipe, com isto de que tudo tenha que ser realizado ao mesmo tempo, aqui, agora e para ontem, não é essa. Talvez a coisa seja potencializada ainda mais intensamente pelo ritmo em que se perceberam as mudanças na situação econômica do país, na ascensão da classe pobre para a classe média. Pensem bem, foi em oito anos que se criaram mais de dez milhões de empregos formais, que 31 milhões de pessoas saíram da condição de pobreza absoluta e 24 outros milhões, ascenderam à classe média. Foi uma disparada nunca dantes vista nesse país, o que valeu a Lula o cognome dado por Paulo Henrique Amorim. A gente sentiu o gostinho de uma mudança acelerada, e agora, quer mais mudanças no mesmo ritmo – mas em outra área, a da corrupção.

E é aí que entra o caso Dirceu/Veja e o caso Jaqueline Roriz. Caso Jaqueline Roriz, antes do caso Dirceu/Veja. Há uma onda de moralização? Sim, há. Promovida pela grande mídia? Sim, nacional e internacional: a nacional, a gente está careca de conhecer, nossos queridos PIGuentos (é impressionante a influência do PHA na alcunhagem das figurinhas fáceis). Na parte internacional, em particular, com a ajuda desse golpista internacional do Juan Arias, que boas intenções, não tem nenhuma. É ruim que haja uma onda de moralização? É, e ao mesmo tempo, não é.

O Paulo Kliass escreve, em artigo recente no Carta Maior, sobre a tradicional cordialidade do povo brasileiro, que tende a se tornar quase uma passividade submissa. Pois bem, é claro que haverá um elemento catalisador para que eclodam protestos, seja pelo assunto que for – neste caso, a corrupção na política. Que este elemento catalisador tenha sido nossa imprensa golpista é muito mau, pois sua agenda oculta (para usar um eufemismo, pois nem os cegos são enganados pelos jornalecos) é a desestabilização do governo. Mas, ao mesmo tempo, é bom que comecemos a exprimir esta indignação, este desgosto com a corrupção, de maneira mais objetiva. Que nossa cordialidade deixe de ser esta passividade, esta submissão ao “foi Deus quem quis assim”, isso é maravilhoso. Ruim vai ser é se o movimento, que tem tudo para se tornar um movimento de fiscalização, arrefecer. Ruim vai ser é se o governo amolecer no combate à corrupção como resposta corretiva ao ímpeto exagerado do movimento inicial.

O Eduardo, em um de seus posts, diz: “O PT até parece ter ouvido os alertas que foram feitos neste blog sobre o novo Cansei que se desenha e germina como efeito do alarde midiático sobre corrupção exclusivamente no governo do PT e que esse governo, da forma como vem agindo, admite que existe.” Não consigo determinar exatamente o tom que o Eduardo quer dar a esta frase, que me deixa um pouco em dúvida se ele está dizendo que é mau que o governo admita que existe corrupção, sim, no seio de um governo recém-formado – coisa que eu estranharia imensamente, vindo dele. Como leitor do Blog da Cidadania, tenho todo o motivo do mundo para achar que não é isso, mas não custa nada alertar: não é prejudicial para o governo Dilma que admita que há corrupção em suas fileiras. E também, não sejamos tão paternalistas e condescendentes com a capacidade de compreensão do povo brasileiro: o que está havendo aqui – por parte do povo que protesta, que fique bem claro – é a cobrança do motivo por que votos foram dados a Dilma, e não o sentimento de que a corrupção só existiu no governo do PT. Dada toda a situação de acomodação de pressões para a nomeação de ministros e cargos, é natural que haja corruptos – houve no governo Lula, como também os houve no governo FHC, e sempre os haverá. A questão aqui é se o governo vai ser leniente com a corrupção.

O governo Dilma, ao que parece, dorme no ponto em muitos aspectos da vida política, que a blogosfera cansa de apontar. A aproximação de Dilma ao PIG, sua lua-de-mel quase desesperadora para os que a elegemos (não custa nada lembrar: por duas vezes, viajei de avião a Madrid para poder votar em Dilma, voltando de trem em uma viagem de cinco horas), e com a mesma imprensa que foi aliada do regime militar que brutalmente reprimiu a ela e a seus companheiros de luta, foi um movimento de intensidade maior que a necessária. Bastaria que houvesse uma relação respeitosa com a imprensa mas, aparentemente mal-assessorada e esquecida de sua militância, Dilma, por um tempo, foi seduzida pelo canto da sereia. Até hoje não engulo o discurso super elogioso de Dilma no aniversário da Folha.

E quase que Dilma foi seduzida novamente pela imprensa, desta vez, pelos louvores que lhe foram dedicados ao dar atenção às denúncias de corrupção no governo. No início dessa série de denúncias, que lhe valeram a alcunha de “faxineira” (convenhamos: no imaginário popular brasileiro, “faxineira” evoca a “tia da limpeza”, que é uma das figuras menos consideradas da face da terra. Mais uma maneira de denegrir Dilma com um insulto disfarçado de elogio), Dilma lançou-se com ímpeto. Até que pecebeu a armadilha que se delineava, as denúncias mais e mais frequentes de corrupção que ela, ao que parecia, estava inclinada a resolver sem pestanejar – e sem a menor discriminação entre o que era grampo sem áudio de Veja, e o que era denúncia de verdade. Juro que cheguei a pensar: “mas, se Dilma vai realmente afastar todo mundo que for colocado sob suspeita, não vai sobrar um, pois denúncia falsa, não vai faltar”. Felizmente, o governo percebeu o que estava acontecendo e freou o caminhão desgovernado que ameçava tornar-se. O problema é que o fez um pouco tarde: a imprensa foi hábil em acelerar a fermentação desse sentimento no coração do povo, apresentando-se como o Dom Quixote que investia contra gigantes muito reais.

Alguém duvida que seja mentira que, como noticia o Globo (confiando que a reprodução de sua notícia no Blog da Cidadania seja fiel – e não há nenhuma razão para não crer nisto), “No Facebook, a ‘Marcha Contra a Corrupção em Brasília’ conseguiu metade das 11 mil adesões, somente nos dois dias seguintes à absolvição de Jaqueline. Já na página do movimento ‘Reação contra a Corrupção – O Brasil de Luto’ , cerca de duas mil pessoas confirmaram presença logo após a decisão da Câmara”? O Globo não é um jornal confiável, mas acho perfeitamente lógico que algo assim aconteça, em vista do triste espetáculo de corrupção que o Congresso acaba de encenar com base em frágeis e inconsistentes argumentos jurídicos. E aqui é o fato que acho importante: se esses movimentos realmente ganharam força, foi muito mais com essa decisão absurda e imoral do Congresso, de absolver uma sabida receptora de dinheiro ilegal. Em termos simples, foi a absolvição de uma criminosa, pois corrupção e receptação de dinheiro ilegal são crimes, independentemente de se ter um mandato ou não.

É por isso que me entristeci com o desabafo do Eduardo Guimarães: pode-se até argumentar que o público que tem acesso ao Facebook é majoritariamente de classes mais abastadas (o que tenho para mim que seja muito menos verdadeiro do que se supõe e, desde já digo, não foi o que disse o Edu, mas vai ter gente que vai usar isso pra desqualificar os movimentos citados anteriormente), para justificar a analogia com o Cansei; pode-se argumentar que a maioria das pessoas que estão embarcando nessa sejam massa de manobra enganada pelos PIGuentos. Pode-se utilizar o argumento que for, mas não vale fazer como touro bravo, que não distingue nada à sua frente, e dizer que todo mundo que simpatiza com esse movimento seja um “novo cansado”. Mesmo porque, acho improvável que sete mil pessoas, que aderiram à “Marcha contra a Corrupção” e ao “Brasil em luto”, o tenham feito simplesmente por uma hábil manipulação alheia. É uma indignação justa, sincera, e o protesto é mais que apropriado, ainda mais após o ato vergonhoso de absolvição de Jaqueline Roriz.

Não me preocupa a possibilidade de os movimentos anti-corrupção acabarem desestabilizando o governo Dilma. A presidenta, como já disse anteriormente, parece já ter acordado para o fato de que estava sendo feita títere de uma imprensa que queria poder cortar suas cordinhas – ou que, pelo menos, é o que a imprensa PIGuenta queria fazer. O caso de Zé Dirceu e Veja, para mim, é muito mais preocupante que o caso da marcha contra a corrupção e movimentos afins. Posso estar sendo teórico de conspiração aqui, mas me parece muito mais uma armadilha maquiavélica que a “faxina Janista” que queriam induzir mi presidenta a fazer.

O Eduardo Guimarães diz no Blog que “A melhor coisa que poderia ter acontecido ao Brasil foi a Veja ousar tanto quanto ousou em seus delírios de poder“. Concordo quase que plenamente. É interessante sim, na medida em que mostra do quão capaz a Veja pode ser, de efetuar ações Murdochianas. No entanto, me parecia muito estranho esse movimento quase kamikaze da Veja. Um tiro no pé não sai assim, pelo menos, não com esse nível de patetice. Desde o famigerado caso da bolinha de papel de Padim Pade Cerra (olha o PHA aí de novo…) que se sabe que a blogosfera é rápida em desmascarar fraudes, e é claro, não tardou nem dois dias para que se concluísse que as imagens publicadas na Veja não tinham qualidade de câmera de circuito interno – eram muito melhores e, portanto, deviam ter sido captadas com aparelhos completamente ilegais.

Também não demorou para que José Dirceu fizesse aparições em público divulgando o caso – que foi conveniente e solenemente ignorado pela grande imprensa cúmplice e conivente. Claro que Dirceu fez a coisa certa: sua auto-defesa é estritamente necessária, e a estratégia parece ter dado certo. As redes sociais também se manifestaram em massa e, é claro, voltam as demandas pela Ley de Medios (PHA!!!!), que o ministro Paulo Bernardo (o poltrão, em minha opinião) engavetou, com medo do PIG. Eu mesmo, no meu Facebook, pedi que a Ley de Medios fosse posta em vigor. No seu post sobre o assunto no Blog da Cidadania, o Eduardo diz: “Se mesmo com a comprovação cabal de que a imprensa brasileira comete crimes iguais ou piores do que os da britânica o governo Dilma não enviar de uma vez ao Congresso um projeto de lei de regulação da mídia, haverá uma crise institucional no Brasil. E todos nós sabemos como sempre acabaram as crises institucionais neste país.”

Concordo. Há que se estabelecer um mecanismo para que este tipo de crime não passe em brancas nuvens. Mas, agora, exponho minha teoria: Veja está criando uma crise para o governo, mais ou menos nos mesmos moldes que Jobim fez. E me parece que a revista-esgoto está por colocar o governo numa sinuca. O que me leva a concluir isto é a cobertura que se está dando às reações ao caso, sem a devida exposição aos fatos que lhes causaram. Vejam a cobertura dos jornais sobre o congresso do PT: são unânimes em destacar que o governo parece ter acordado para o fato de que a mídia golpista não dorme, que são escorpiões prontos a picar sua jugular na primeira oportunidade. A Folha nos diz que “Os petistas protestam contra reportagem da revista ‘Veja’ que, há uma semana, relatou encontros de Dirceu com ministros de Dilma e o acusou de ter conspirado pela queda do ex-ministro Antonio Palocci (Casa Civil)”. Em outra reportagem, o título já antecipa a estratégia de guerra: “Presidente do PT diz que mídia tolhe a democracia”. Já dentro do texto, expõe o assunto mais completamente (desmentindo seu título, como de hábito), mas colocando-o como uma ameaça comunista velada: “O petista [Rui Falcão], que mais cedo havia reclamado do tratamento da mídia aos escândalos de corrupção no governo Dilma Rousseff, afirmou que o ‘domínio midiático por alguns grupos econômicos tolhe a democracia.'”. Provavelmente apenas o Professor Hariovaldo de Almeida Prado escreveria melhor.

Na MPB FM, que é uma ótima rádio em termos musicais, mas uma PIGuenta de marca maior quando se trata de dar notícias, fez-se questão de tratar a Presidenta como “a petista”, caracterização que não lembro ter sido feita até agora. E depois, voltam a bater na tecla de que Lula e o PT estão, mais uma vez, atacando a imprensa. Ora, se a Presidenta é petista e o PT está atacando a imprensa; se a presidenta diz que ela e Lula são um só, e que os erros e acertos (claro que a palavra “erros” virá antes da palavra “acertos”) de Lula são os seus; então a conclusão óbvia é…? Pra bom entendedor, meia palavra (mal-impressa) basta.

Aliás, nestas meias-palavras da imprensa, há mensagem e meia, Alberto Dines já alerta para o resto do plano de batalha:

“Caso o ministro Paulo Bernardo (Comunicações) fique insustentável, a presidente Dilma tem seu preferido: Franklin Martins”. (“Panorama Político”, O Globo, domingo, 28/8, pg. 2). Três linhas apenas, no pé da coluna. O suficiente, a mídia entenderá o recado.

E, perdoem a falta de informação, qual é a insustentabilidade do ministro Paulo Bernardo, o poltrão? O caso dos jatinhos? Seria muito conveniente para essa imprensa esperneante e chororona que Franklin voltasse. Com certeza, Franklin colocaria novemente na pauta, explicitamente, a Ley de Medios. Com a falta de informações que a grande imprensa dá ao caso Veja/Dirceu, seria fácil juntar, à massa do bolo, a “censura” de mais de 8.567.983,4 dias que supostamente sofre o Estadão, e “provar” que o governo era lobo em pele de cordeiro quando dizia que o barulho da imprensa livre era preferível ao silêncio das ditaduras.

Falando em Estadão, me ocorre de ir à página incial para ver sua cobertura sobre o tema. Qual minha não-surpresa ao ver as seguintes manchetes na página inicial: “Ministros defendem controle da imprensa em congresso do PT” ; “Dilma pede oito anos para governar o Brasil“, e “Por segurança de Dilma, PT barra militantes“. Como sempre, não basta ver a manchete, tem que olhar a matéria toda. Na primeira, ao clicar no link, o título se transforma em “Gilberto Carvalho defende regulamentação da imprensa”; para a segunda matéria, a metamorfose leva a “Dilma diz que erros e acertos são seus e de Lula, que pede 8 anos para a petista” (ou seja, é Lula quem pede os oito anos para Dilma, e não ela), e na terceira, vemos que “Para garantir a segurança da presidente Dilma Rousseff e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a polícia da Presidência da República só permitiu a entrada de 1.500 pessoas, público máximo que o lugar comporta sentados.”.

O problema de instituir uma Ley de Medios neste exato momento é que, se Dilma o faz, está instituída a revolta midiática e a gritaria de que um tsunami ditatorial que aniquilaria a imprensa “livre” no Brasil estaria em curso. Se não o faz, pode estar instituindo um clima de impunidade que deixa a imprensa de esgoto mais forte para implantar o vale-tudo na desinformação nossa de cada dia. Um impasse que lembra muito o que Jobim criou ao dar declarações completamente sem-noção a respeito dos “idiotas” no governo, e sobre seu apoio a Serra: se Dilma o despedisse, seria tachada de autoritária; se não, seria uma “fraca” e Jobim, um “forte”. É do maior interesse que o governo divulgue o caso o mais amplamente possível, e que a Polícia Federal investigue o caso e descubra como as imagens foram conseguidas. O problema vai ser como fazê-lo causando o menor dano possível.

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Se oriente, minha senhora

Mestre Gilberto Gil dizia: “Se oriente, rapaz, pela constelação do Cruzeiro do Sul”. Já eu, diria hoje a Dilma: “Se oriente, minha senhora, pela constelação de Eleitores que lhe deram seu voto”.

Vejo hoje no Viomundo que a aprovação ao governo Dilma subiu de 47% para 49%. O que mais me chamou a atenção na notícia, originalmente publicada no site do UOL, foi a seguinte frase: “O levantamento revela também que a maioria dos brasileiros quer que o ex-presidente Lula opine nas decisões de Dilma”. Claro, aqui podemos ver como notícias são dadas na Folha: diz que há muitos brasileiros que querem que Lula opine no governo Dilma, mas não diz quantos são. Dado que já se conhece o bom e velho padrão Folha de jornalismo, fui atrás de fuçar na edição impressa (mas online) da Falha (com “a”, mesmo) sobre a pesquisa Datafolha.

Acabei encontrando este link e este aqui. Do primeiro, vemos que são 64%, os que querem que Lula tenha efetiva influência sobre as decisões do governo Dilma. No segundo, vemos:

Para 64% dos brasileiros, Lula deveria mesmo participar das decisões de Dilma, informa reportagem da Folha publicada neste domingo (a íntegra está disponível para assinantes do jornal e do UOL, empresa controlada pelo Grupo Folha, que edita a Folha).

Quatro de cada cinco pessoas acreditam inclusive que o ex-presidente já esteja fazendo exatamente isso.

Segundo pesquisa Datafolha realizada na quinta e na sexta passadas, são os menos escolarizados no país os que mais defendem a participação de Lula nas decisões do governo –69% na faixa do ensino fundamental.

São informações muito significativas. É hora de Dilma prestar mais atenção à militância que a elegeu mas, principalmente, de que se dê conta de por quê foi eleita.

Se há tanta gente querendo que Lula tenha efetiva influência no governo Dilma, a razão – pelo menos para mim – é óbvia: os rumos do governo Dilma, na opinião da maioria dos entrevistados pela pesquisa, não correspondem à razão pela qual foi eleita. Razão que, recordemo-nos bem, não foi seu carisma ou eventuais amplas habilidades políticas, mas a promessa de ser continuidade do governo Lula. Do segundo, bem entendido. Porque daqui de longe, parece que Dilma está se empenhando em fazer uma reprise do primeiro quando todos seus eleitores achamos que se é para ter reprise, que seja do segundo.

Não há necessidade de Dilma ser Lula e muito menos que Lula participe efetivamente deste governo como ministro. Sim, porque o PIG poderia, então, tachar Lula com todas as letras, e até com um certo fundamento, de Putin tropical. É necessário, isso sim, que o atual governo seja coerente com o governo anterior, coisa que Dilma não está sendo, à parte alguns projetos sociais e o reforço às estruturas e ao poder de Petrobrás. Mas, segundo este decepcionado e agora bastante desconfiado militante, sabe Deus até quando também isto durará, com o atual andar da carruagem.

O recado é claro: “queremos que o governo Dilma vá na mesma direção do governo Lula”, e este é o primeiro sinal que, ainda que o povo perceba que atualmente não vai, é talvez por falta de bom aconselhamento. Dona Dilma que não leia as entrelinhas da pesquisa, que não escute seu eleitorado e sua militância, e que não tome tento, passando a agradar o povo que a elegeu, ao invés de agradar à turma a cujos nomes Palocci é muito mais leal que a seu país. Passará um inferno astral pior que o de agora. E sem fazer o menor esforço.

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O julgamento do Primeiro Ministro islandês

A Islândia, um país onde a vida era boa e tranquila, viu-se repentinamente sacudida, em 2008. Não pela erupção do vulcão de nome impronunciável e quase impossível de escrever, o Eyfjallajökul, mas sim, pela quebra de seu sistema financeiro. Desnecessário dizer que muiuta gente foi à bancarrota, e mais desnecessário dizer que os que foram à bancarrota foram os cidadãos comuns.

Vivemos uma triste época, em que praticamente todos os países europeus correm o risco de perder seu estado de bem estar – uns mais cedo, outros bem mais tarde – e ter seus povos arrochados e mesmo assim, apáticos e inermes, moles como o personagem do desenho “A Vaca e o Frango”, o Frango Desossado, e em que tantos assistem a seus semelhantes serem massacrados socialmente, sem dar-se conta que poderiam ser eles, os próximos.

A reação de tantos, enquanto os direitos sociais e o estado de bem-estar de seus semelhantes são dilacerados.

Nessa época tão sombria, é com felicidade que vejo que o primeiro-ministro da Islândia poderá ser levado ao banco dos réus pela irresponsabilidade e desonsestidade para com seu povo. Será mesmo julgado? Não sei. Uma vez julgado, será condenado? Essa, acho que nem mesmo Deus sabe dizer. Mas o fato de um julgamento de um crápula desses ser levado em consideração já é um grande avanço, em minha opinião. Não é suficiente, tem que chegar às vias de fato, com o FDP na cadeia, apodrecendo pelo roubo que promoveu, pelo sofrimento que causou – e ainda causa, porque a economia islandesa ainda não está completamente recuperada do furacão. Mas, alguém poderia imaginar que chegariam a um ponto desses? Quem me disser que sim, está mentindo.

Publico abaixo a tradução do artigo do jornal espanhol Público, onde se noticia o fato. Oxalá seja condenado a muitos anos de prisão. Quem sabe assim, seja aberto um precedente legal que amedronte a esses canalhas, que são empregados do povo e comportam-se de modo indecente, como se seus patrões, os eleitores, fossem seus súditos. Como sempre, desejo a todos uma ótima leitura.

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Geir Haarde se tornou, nesta terça-feira, o primeiro ex-chefe de governo europeu que se senta no banco dos réus por sua responsabilidade no estouro da crise financeira de 2008. Não pelo que fez depois de ter estourado, mas pelo que não fez antes: impedir que os três grandes bancos do país entrassem em uma louca corrida especulativa que acabou com a auto-destruição de todo o sistema financeiro da Islândia.

O promotor apresentou as acusações ao tribunal no primeiro exame preliminar. O julgamento, propriamente dito, não começará antes de Setembro.

Haarde negou as acusações e declarou que se trata do primeiro julgamento político da história do país: “As acusações são ridículas, especialmente porque as decisões tomadas por meu governo antes da crise se revelaram corretas”.

O ex-primeiro-ministro, do partido conservador Partido da Independência, é o primeiro político que tem que prestar contas ao Landsdomur, um tribunal especial criado em 1905 para julgar políticos com imunidade parlamentar.

O tribunal conta com 15 membros: cinco juízes do Tribunal Supremo, o presidente de um tribunal de primeira instância, um catedrático de direito constitucional e oito cidadãos eleitos pelo parlamento, freqüentemente parlamentares.

O promotor apresentou duas acusações contra Haarde. A primeira é de não ter tomado medidas com o propósito de impedir os previsíveis danos para o erário público” causados pela crise financeira.

Haarde também terá que se explicar por não ter controlado o sistema financeiro e não ter evitado que os três bancos (Glitnir, Kaupthing e Landsbanki) se convertessem em gigantes que arrastaram a economía do país com sua quebra.

Em 2003, os ativos das entidades compreendiam 174% do PIB islandês. Esta porcentagem subiu para 744% em 2007.

Diante da complacência do governo, os bancos multiplicaram seus negócios com o único recurso da chegada massiva de capital estrangeiro, atraído por remunerações astronômicas pelo dinheiro, em uma época em que as taxas de juros estavam em níveis muito baixos.

Ao longo destes anos, a economia havia crescido uma m;edia anual de 5,5%, em boa parte graças à bolha financeira.

A segunda acusação repreende o primeiro-ministro por não ter cumprido o dever constitucional de convocar reuniões de governo sobre assuntos relevantes. “Durante este período, houve poucas discussões nas reunões ministeriais sobre o perigo iminente, e nas atas tampouco aparecem referências a estes temas”, diz a promotoria no auto de acusação.

Duas semanas de protestos populares diante do parlamento terminaram provocando a demissão do governo de Haarde, que além disso abandonou a política também por razões de saúde: foi diagnosticado com câncer.

As eleições de 2009 levaram o governo a formar uma coalizão de social-democratas e da Esquerda Verde, encabeçada por Jóhanna Siguroardóttir, a primeira mulher a dirigir o governo. O partido de Haarde perdeu por dez pontos e ficou em segundo lugar

O que Haarde chamou de uma “piada política” começou quando o parlamento posterior a estes comícios ordenou a instauração de uma investigação do desastre financeiro. Uma comissão independente chegou à conclusão de que uma negligência extrema havia sido cometida.

Haarde e o governador do banco central são acusados pelo parlemento de ocultar informações cruciais aos demais ministros, inclusive o ministro da Fazenda. O reponsável pelo Banco da Islândia era o ex-primeiro ministro David Oddsson, um adepto das teorias de Milton Friedman sem formação econômica que havi levado a cabo a liberalização total do sistema financeiro em um mandato anterior.

Por 33 votos a 30, o parlamento ordenou o porcesso de Haarde, mas não dos ministros da área econômica, que também foram muito criticados no informe d comissão.

Haarde foi elogiado por sua decisão de proteger os depósitos dos islandeses, mas não os ativos dos departamentos dos bancos de investimentos. No entanto, não tinha outra opção, porque as quantias em dívida superavam em muito a riqueza do país.

A medida provocou a ira dos governos britânico e holandês, que demandaram que o país devolvesse os investimentos de seus cidadãos e das instituições que gaviam confiado nos bancos islandeses.

Em dois referendos – o último, em Abril deste ano -, os islandeses recusaram-se a devolver quatro bilhões de euros à Holanda e ao Reino Unido, uma quantia que constitui um terço do PIB do país.

Geir Haarde é um típico representante da elite do país que governa a Islândia desde que esta se separou da Dinamarca, em 1944. O partido conservador Partido da Independência tem metade de seus primeiros-ministros, em parte graças à sua tradicional força entre pescadores e classes agrárias.

Haarde, com 60 anos, orientou sua carreira para a economia desde o princípio. Estudou nos EUA e logo começou a trabalhar como economista no Banco da Islândia. Rapidamente galgou todos os degraus do poder: deputado, ministro da Fazenda de 1998 a 2005, ministro de relações Exteriores durante dois anos e, finalmente, chefe de governo.

Por esta época, trabalhou com o ministro Oddsson para aplicar um processo de liberalização à economia islandesa. Nesta época, dois terços das exportações provinham da indústria pesqueira.

Oddsson e Haarde impulsionaram a indústria financeira através de um esquema regulador no qual os bancos podiam fazer praticamente tudo o que quisessem.

Nos anos imediatamente precedentes à crise, e já com Haarde como primeiro ministro, os avisos sobre um modelo econômico insustentável se multiplicaram. Haarde não teve problemas para ignorá-los porque a maioria vinha do exterior.

O maior banco dinamarquês, o Danske Bank, publicum em 2006 um informe em que advertia que o sistema financeiro estava crescendo a um ritmo insano.

Em Maio de 2008, um prestigiado economista da universidade de Chicago visitou o país. “Lhes dou nove meses. Seus bancos estão mortos”, disse Bob Aliber.

O governo não reagiu. “Poderíamos ter criado pânico se tivéssemos dado o sinal de alarme”, disse Haarde quando lhe perguntaram por quê não havia feito nada.

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Pensamentos soltos e desiludidos sobre o 15-M (ou: a ideologia em ritmo de videoclipe)

Uau, que surpresa mais agradável olhar as estatísticas de visitas do blog, que anda jogado às traças por causa de meus compromissos profissionais, e ver que mesmo sem escrever nada há – chutando, hein? – mais de um mês, há pelo menos quatro visitas por dia! Obrigado a quem visitou o site – ainda que, suspeito, isso seja muito mais um fenômeno devido ao Google que outra coisa. Ainda assim, é bom ver que tem gente que chega ao blog.

Agora, ao que interessa.

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Em Santander há uma rua, a Río de la Pila, onde há vários bares, e o público é relax, gente que não necessariamente é de esquerda, mas que tem uma certa onda boa. Gente menos centrada em aparências, em beleza, em roupas. Gente que está aberta a jogar um papinho fora, a jogar uma partida de totó, a falar besteira. E, de vez em quando, a debater algo um pouco mais sério.

Sábado estava em Río de la Pila com meu camarada Edgar, catalão perdido em Santander a pegar ondas na praia e educar crianças e adolescentes hiperativos. Edgar é um desses que tem uma certa facilidade em puxar papos com desconhecidas. A bem da verdade, com desconhecidas, principalmente. Em nosso bar preferido, conheceu duas catalãs muito simpáticas – obviamente, pelo idioma que falavam – e ficamos a papear, os quatro. Em um certo momento, surgiu o tema dos “indignados”, os que estão acampados nas praças espanholas, reivindicando mudanças.

Fiquei espantado com o espírito de derrota, com respeito ao tema. As duas meninas eram bastante jovens, provavelmente estavam em seus 25, 26 anos. Ou talvez eu é que esteja ficando, ou seja potencialmente há muito tempo, um desses velhos crianções, estilo Wood & Stock. Um desses que carrega consigo um pouco de ideologia que dura mais de cinco minutos, barrigudo, uma peça anacrônica onde 21 dias são uma eternidade.

21 dias, uma eternidade?

Sim, foi o que me disse a garota: que o fato de que os acampados estejam aí, resistindo por esse tempo tão longo (grifo meu), é algo im-pres-si-o-nan-te.

Mas, o que é esse tempo tão “longo”, frente às escalas de tempo históricas? Um soluço. Não, menos. Uma fração de piscar de olhos talvez seja mais apropriado. Mas, seja o tempo que seja, é muito curto. Mudanças históricas ocorrem em escalas de tempo longuíssimas, mas hoje, nossa escala de tempo está completamente mudada.

Um telefone celular toca, em dez minutos nos encontramos com alguém em quem nem pensávamos.

O Windows demora um pouco mais a iniciar? Ô saco. Vou mudar pro Linux. Por quê, porque é grátis? Não, que o Windows eu baixo pirata em meia hora, com minha banda larga. É que ouvi falar que o Linux inicia mais rápido.

Foto em filme? Não, obrigado, com o digital eu vejo na hora. Grão? De que, de areia?

Não sou contra a tecnologia, não. Mas esse imediatismo, essa coisa que não vai além de cinco centímetros, que não passa de cinco minutos, me agonia. Nos tira a identidade. Ainda que, ao precipitar movimentos como os da primavera árabe, precipita coisas que não devem ser precipitadas. E essa precipitação, justamente, debilita. Debilita o que? Tudo.

Paciência.

Constância.

Compreensão.

Perspectiva.

Infelizmente, me parece que tudo isso falta, em algum grau, ao 15-M. Talvez falte a boa parte de seus integrantes, e certamente falta a boa parte das pessoas que poderiam fazer parte do movimento. Se assim não fosse, por que viriam notícias de levante do acampamento justo da Puerta del Sol, depois de menos de um mês?

Eu tinha essa impressão de que o 15-M queria mudar alguma coisa, só não sabe direito o que. Há que mudar, mas o que? Olhando a página do movimento, não há um foco definido. Há coisas que nos indignam, com certeza, no dia a dia. Mas falta consistência. Falta foco.

Falta ideologia.

E, claro, sem foco, não há ideologia, pois tudo se torna efêmero, não há tempo para identificação, para individuação. Não há elaboração.

A multiplicidade de pontos de vista é saudável, é mesmo essencial, mas dentro de um certo ritmo. E o ritmo atual é o do videoclipe. É o foco curto – ou seria, ao contrário, o fora de foco constante?

O ritmo de videoclipe é reforçado não só pelo bombardeamento de imagens, de fatos, de informação, mas pela inconstância de certas câmeras. Hoje é muito popular um certo tipo de câmera que foi popularizado por um seriado que acho um lixo, o “24 horas”. Tem uma câmera nervosa, que não para, que está em constante movimento, que muda de foco, com zooms in e out rápidos. Muda de um lado para outro como giramos nossa cabeça ao ouvir um ruído estranho. É o tudoaomesmotempoaquiagorapraontem.

E talvez seja esse o problema do 15-M: ao ter muitos focos, nenhum é forte, todos são flous. Ao proclamar-se sem ideologia, automaticamente define-se como indefinido. Sem foco. Sem rumo, não se avança.

E por que se proclamam sem ideologia? Acaso é vergonha ter ideologia? Segundo o establishment, é. É anacrônico, é velho, é ultrapassado. Já não existe mais: hoje mesmo, na TV espanhola, mostrava-se um mapa da América Latina, colorido segundo seus governos. Segundo esse mapa, a América Latina é de esquerda – apenas Colômbia e Chile têm governos de direita (mas particularmente, acho muito questionável dizer que o governo do PT seja de esquerda. Sendo bonzinho com ele, o melhor que pode-se dizer é que está pouco menos indefinido quanto o 15-M – opinião desse hoje desiludido blogueiro). Obviamente, um dos jornalistas que debatiam sobre a diferença de rumos da América Latina – predominantemente de esquerda – com relação à Europa – cada vez mais de (ultra-)direita, redator do jormal mais reacionário e PIGuento da Espanha, o ABC, apressou-se em dizer: “Para mim já não há mais isso de esquerda e direita. O que se chama de esquerda são os populistas.”. Obviamente, sobre o que é a direita, guardou um expressivo silêncio.

Raulzito dizia: eu prefiro ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo. Nunca concordei muito com a canção. Sempre achei que só se devia levá-la a sério até um certo ponto, porque no momento em que nada mais é fixo e tudo é relativo – mas de modo disfarçado, insidioso, com algumas coisas muito mais relativas que outras – e não há mais referencial, é fácil manipular, ou pelo menos, é fácil manter o status quo sem ser tocado.

Enquanto o 15-M não se assumir como algo de concreto, com objetivos muito claros, fundamentados e com ações concretas, mas com paciência, perspectiva mais ampla e, principalmente, com uma visão de muito mais longo prazo, nada se conseguirá. Ao contrário, se pessoas que já estão desempregadas e que não têm mais nada a perder só conseguem agüentar no máximo um mês, aí é que os donos do status quo vão deitar e rolar. Saber que há a intenção de desmontar o acampamento de Sol me decepcionou profundamente, e espero que seja nada mais que uma informação dos PIGuentos daqui.

Nunca quis tanto estar errado a respeito de uma notícia.

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Disseram que eu voltei Kryptonizado…

Quando eu era moleque, tinha vários amigos que adoravam quadrinhos de super-heróis. Tinha amigos que colecionavam as revistinhas, com pilhas e pilhas delas em seus armários. Posso exagerar, mas acho que alguns chegavam a ter mais de quinhentas edições, e de vários super-heróis diferentes. E o caras sabiam tudo sobre seus heróis favoritos, de onde veio, pra onde ia, o que fazia, sua identidade secreta, seu pior arqui-inimigo, e havia discussões acaloradas sobre o que tal super-herói deveria fazer quando seu arqui-inimigo fosse destruir a Terra, ou pusesse tal e tal pessoa em perigo… enfim, essas discussões que têm o poder de mudar o mundo, pelo menos aos 12 anos de idade.

Nunca fui fã de quadrinhos de super-herói, e por bastante tempo, não soube dizer por que. Os únicos que eu curtia um pouco mais eram os X-Men, o Thor (que, inclusive, vou ver no cinema) e o Surfista Prateado. Os X-Men eram mutantes, uma coisa indefinida que poder-se-ia considerar humanos ou não, dependendo do ponto de vista; tinham conflitos internos ao grupo e internos a eles mesmos. O Surfista lutava contra Galactor, que ia destruindo mundos, engolindo-os, enquanto sofria com a perda de sua amada e sua solidão. E o Thor, bom, tinha um aspecto épico que me encantava. Só depois de um certo tempo é que fui entender um pouco o por que: com eles, não havia identidades secretas, não estavam aí tentando se integrar ao mundo suprimindo sua verdadeira identidade, não escondiam o que eram. Wolverine era Wolverine, com ou sem uniforme. O Surfista era o Surfista, sem nem um uniforme a não ser sua sunga prateada, que se confundia com seu corpo e quase dava a impressão de que estava nu. O Thor, sim, era Donald Blake. Mas na época, eu já conhecia o bastante de mitologia nórdica para saber que Odin caminhava pela Terra disfarçado de mortal, e então sim, me parecia muito justificado que seu filho também o fizesse.

Na minha adolescência, com a “esquerdização” de minha personalidade, é que fui entender o resto: quadrinhos, como tudo, passam ideologia. E o problema não eram os quadrinhos passarem ideologia, pois tudo passa ideologia. O problema era passarem a ideologia que passavam, a de que os Estados Unidos (America is a continent, stupid) tinham as super-armas que salvariam o mundo de todas as ameaças, e pior, faria seu modo de vida prevalecer sobre todos os outros – porque era perfeito. Isso, para mim, sempre foi uma prova de arrogância e desrespeito à pluralidade de pontos de vista, de desprezo à diversidade. Até meus 20 e poucos anos, tinha ao mesmo tempo uma adimiração e desprezo pelos EUA que eram conflitantes e hoje, já não há mais conflito, pois considero os EUA um caso perdido ideologicamente, sem modo de mudar e de respeitar a pluralidade. Até por isso, fiquei surpreso e contentíssimo quando vi a notícia – que para mim foi uma bomba – de que o Super-Homem havia decidido renunciar à sua cidadania americana.

"I don't wanna stay here, I want to go back to Bahia", diz o Super-Homem

Na American Comics número 900, o Homem de Aço vai ao Irã mostrar solidariedade ao povo protestando contra Ahmadinejad. Por isso, tem que dar satisfações ao governo americano, em um encontro secreto com o Conselheiro Nacional de Segurança do Presidente dos EUA (na história, ele se chama Gabriel Wright). Segundo este agente, o medo é que o Super-Homem se tenha tornado um rogue, isto é, uma pessoa imprevisível, um fora-da-lei, por não cumprir com o alinhamento ideológico ao governo americano. (Muito na linha de que Chomsky nos chama a atenção em seu excelente livro “Rogue states: the rule of force in world affairs“, para como os EUA classificam os países desalinhados ideologicamente com eles, diga-se de passagem.) O texto do Super-Homem, depois da pergunta do agente do governo, é bastante ilustrativo do que o gesto significa, e o transcrevo (com tradução livre minha para o português e negrito nas partes que eu acho mais relevantes) abaixo:

GW: Portanto, vou perguntar uma vez mais: O que, em nome de Deus, você estava pensando quando voou para Teerã?

SH: Eu sigo os noticiários, como eu disse. E eu vi as notícias sobre os Iranianos protestando. Havia ocorrido violência na semana anterior. O regime de Ahmadinejad havia reagido de modo exagerado. Pessoas foram mortas. Alguns dos organizadores dos protestos… haviam desaparecido.

Aparentemente, os líderes dos protestos haviam usado sites de redes sociais para ajudar com a organização. E o governo havia estado espionando esses sites, de modo que sabiam quem iam prender – e onde estariam. O governo iraniano já tinha avisado ao público sobre aderir a mais protestos. Disseram que haveria repercussões sérias.

Mas estas pessoas – estudantes, comerciantes, mães, pais, crianças, – estavam colocando suas vidas em jogo apesar das ameaças. Eu queria que eles soubessem que não estavam sozinhas.

Como super-herói, como protetor de Metrópolis, lutei contra praticamente todas as ameças imagináveis: invasores alienígenas, déspotas viajantes no tempo, foras-da-lei com todo tipo de disfarce e truques que se possa conceber.

Sou bom em combater ameaças apocalípticas. Mas e as degradações que os humanos sofrem?

Morte por sede? Por fome? A negação de direitos humanos básicos? Nunca fui muito eficiente em acabar com coisas como estas. E eu quero ser.

Por isto, eu fui lá. Em solidariedade. Prometi a mim mesmo que não entraria diretamente no conflito. Não importa o que acontecesse. Era um ato de desobediência civil. Resistência não-violenta.

Fiquei na praça Azadi por vinte e quatro horas. Não me movi. Não falei. Só fiquei ali. Neste tempo, o número de manifestantes cresceu de uns 120.000 a mais de um milhão.

Algumas das pessoas jogaram rosas a meus pés. Outros jogaram faixas e bandeiras verdes, da cor de seu protesto. Opositores dos protestos me jogaram coquetéis molotov. Mas o exército dos guardiães da revolução islâmica não dispararam um único tiro. Os protestos começaram e terminaram pacificamente. Depois, após vinte e quatro horas, eu parti.

GW: Mas, adiantou de algo? O regime prometeu começar a instituir reformas democráticas?

SH: Não.

GW: E então, qual foi o propósito desse espetáculo? Seus atos criaram um incidente internacional. O governo iraniano está acusando você de agir em nome do Presidente. Eles estão chamando sua interferência de um ato de guerra.

SH: Sim, eu me dei conta. E é claro que você está certo. Foi tolo de minha parte… e é por isso que pretendo falar às Nações Unidas e informar a eles que renuncio à minha cidadania americana.

GW: O que?

SH: Estou cansado de ter minhas ações associadas a instrumentos da política dos EUA. “Verdade, justiça e o modo americano”… já não bastam mais. O mundo é pequeno demais. Conectado demais.

Quando eu olho para você, eu o vejo em todo o espectro. Posso ver os ácaros microscópicos que vivem nos seus cílios… A pinta pré-cancerosa em sua bochecha, que você provavelmente pensa que é somente uma pinta… O halo de radiação eletromagnética que vaza de seu smartphone…

Sou um estrangeiro, Sr. Wright. Nascido em um outro mundo. Não consigo evitar ver a coisa de um enfoque mais amplo. Tenho pensado pequeno demais. Me dou conta disso, agora.

Você me perguntou se meu espetáculo valeu a pena. Se ele resultou em alguma mudança significativa. Talvez não, em uma escala macroscópica. Mas, quando eu parti voando?

Eu olhei para baixo e vi algo. Dois homens. Um membro do exército da revolução islâmica e um manifestante. O manifestante estava entregando uma rosa ao soldado. Eu achei que o soldado ia atirar…

… mas, em vez disso, ele fez algo extremamente corajoso. [O desenho mostra o soldado de arma abaixada, aceitando a rosa do manifestante, N. T.]

Pode parecer pouca coisa, mas não é. Super-Homem? O bastião de proteção e divulgação do american way of life, pretendendo renunciar à sua cidadania americana? Isso tem implicações bastante fortes, minhas senhoras e meus senhores. E o texto é impressionantemente metafórico – às vezes, praticamente explícito.

Me parece que fica claro o reconhecimento da figura do Super-Homem como estando intimamente associada à política externa  americana. Pode parecer meio esquizofrênico que o Super-Homem não queira ser reconhecido como um instrumento da política externa americana, pois nesse mundo (do Super-Homem), a personagem passa a se reconhecer muito mais como poder, do que como poder dos Estados Unidos. Ele se destaca, em sua condição de personificação do poder, do país Estados Unidos da América. E, para os que reclamam que não é o Super-Homem quem tem cidadania americana, e sim, Clark Kent, basta lembrar que em uma história de 1974 0 Homem de Aço ganhou, da ONU, a cidadania de todos os países que faziam parte do órgão.

É o exemplo perfeito de reviravolta ideológica: em 1974, a mensagem era: “o american way of life é de todos os países membros da ONU. Agora, o american way of life está isolado. E claramente, o american way é muito bom para proteger o povo americano de todas as paranóias concebíveis e imagináveis, mas péssimo para resolver os reais problemas da humanidade”. Ao condenar a associação de sua personificação de poder da política externa, condena-se também o uso da força na resolução dos conflitos.

Mais que condenar a força na resolução de conflitos internacionais que, em princípio, não lhe dizem respeito, o Super-Homem condena a própria intervenção, usando Thoreau, Ralph Waldo Emerson e Gandhi como exemplos: “Desobediência civil” e “Resistência não-violenta”. Ao ir à Praça Azadi e ficar parado por vinte e quatro horas, o que o Homem de Aço está fazendo? Não apenas mostrando solidariedade, mas renunciando ao uso violento de seu poder. Mesmo que, na história, seja alvo de coquetéis molotov, lembremos que aqui temos uma dualidade nos elementos da história. Desse modo, a renúncia ao uso da força e o freio às ações de interferência se associam a um sentido de grandeza moral, que por conseqüência está completamente dissociado da grandeza física. Será que o Super-Homem está virando um trekkie?

Talvez o momento mais bonito do quadrinho seja o final, onde o Super-Homem reconhece que sua não-interferência gera mudanças quase imperceptíveis em uma escala macroscópica mas que, (e isso fica implícito de modo um pouco dúbio no quadrinho) em uma mirada mais refinada, podem gerar mudanças muito mais fortes que o intervencionismo. Pode gerar nações capazes de resolver seus próprios problemas levando em conta suas próprias especificidades e problemas – a rosa que o soldado aceita do manifestante. O quadrinho é riquíssimo – não toquei no fato de o Super-Homem dizer que é estrangeiro, e que como tal, vê detalhes finos que os cidadãos americanos não são capazes de perceber. Os vê por ter super-poderes? Sim, mas não nos esqueçamos que seus poderes existem justamente por ser um estrangeiro  a este mundo.

É claro que a mídia conservadora reagiu, e houve quem declarasse que os editores das historinhas do Super-Homem estavam sendo anti-patriotas. Isso já era de se esperar. Dependendo do que acontecer em uma próxima história do Super-Homem, em que ele vá as vias de fato na ONU e realmente apresente sua renúncia à cidadania americana, pode-se esperar virulência. Aí, tudo o que vai faltar é uma história com o Super-Homem usando um chapéu de frutas tropicais e cantando Carmem Miranda: “Disse-ram que eu vol-tei, Kryp-to-ni-zaaa-do”…

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O que realmente quis dizer uma reporcagem do Estadão.

“Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça” certamente é um dos versos mais cantados da música brasileira. Mas mal sabiam Vinícius e Tom que este verso poderia também servir para que nos regozijemos da desgraça alheia!

Calma, querido leitor. Não é o que você está pensando. O que acontece é que o Conversa Afiada chama a atenção para  uma matéria do Estadão de hoje, 5 de abril de 2011, onde se mostra que o FMI de endossará o controle de fluxo de capitais, recomendando-o para as economias emergentes. Por si só, dado o histórico Friedmaniano do órgão (que na verdade, não é órgão de verdade e está mais para apêndice canceroso – não presta pra nada e mata aos poucos), isso já é uma coisa linda. Mas, cheia de graça, mesmo, é a reação da pessoa que escreveu o artigo do Estadão. Dá pra sentir as lágrimas grossas escorrendo pela cara, e pode-se mesmo ouvir os soluços. Lindo de morrer.

O problema de jornais como o Estadão é que eles têm que dar um verniz de seriedade e isenção às matérias que publicam. Compadecido, eu, que faço parte dessa mídia suja mas sem compromisso com nada em especial, dou voz à verdadeira mensagem da escritora do Estadão. Tadinha da moça. A julgar pela enorme quantidade de erros de português no artigo, devia estar tão triste que tomou uns birináites pra afogar as mágoas e deixou transparecer.

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Gente, esse pessoal do FMI endoidou, só pode. Ou então resolveram trair São Miltão: dá pra acreditar que agora esses vira-casacas vão começar a dizer pros paisecos emergentes pra controlar o dinheiro que entra e sai? Dá pra acreditar?

Certamente há alguma coisa errada na comunicação interna entre os cabeças do FMI, pois agora os países que eram, até agora, os paraísos terrestres dos especuladores financeiros, tais como Brasil, China e Indonésia, agora vão ser aconselhados – ah, o horror! – a controlar os fluxos financeiros. Isso deve ser coisa desses canalhas desse franceses. Sapos perfumados nojentos, sabe o bom Deus por que têm tanta influência no G-20.

Gente, o FMI sempre foi uma máquina de imposição férrea do ideário neoliberal, quase uma espécie de Rocco Siffredi econômico, e agora eles vão abrir as pernas pra essa esquerdinha comunista que quer que os ricos do mundo fiquem pobres? Que história pra boi dormir é essa de código de conduta, gen-tem?

Esse negócio de controles de capital ou de utilização de impostos, taxas de juro e outros instrumentos de política para controlar o fluxo de dinheiro dentro e fora dos países, arruinam qualquer banqueiro, qualquer gestor de fundo de hedge e qualquer administrador de carteira, que querem a livre circulação do dinheiro de seus clientes. Meu tio é banqueiro, meu pai é gestor de fundo de hedge e meu marido é administrador de carteira. Precisa ver como ficam arrasados, os pobrezinhos, quando não conseguem fazer a montanha de dinheiro que seus clientes jogam circule livremente pros seus bolsos. O pior de tudo é que, se meu marido fica arrasado, a coisa fica dura – ou melhor, não fica – quando ele chega em casa, todo pra baixo. Todo mesmo.

E agora vem esse retardado do Dominique Strauss-Khan e arrasa com a minha vida sexual.  Ele vai ver só o que é pragmatismo, se um dia ele estiver do meu lado!

Eu tou torcendo pra que haja exceções nas recomendacões do FMI. Aliás, várias exceções, espero que haja mais exceções que regras, pra dizer a verdade. E olha, gen-tem, não adotem essas novas medidas que o FMI vai recomendar, que não dá certo, não. Não é que leve muito tempo, é que nunca funciona, mesmo. (Ai, tomara que vocês acreditem, tomara, tomara, tomara…) E não discriminem o capital estrangeiro, viu? Quem gosta de discriminação é o Bolsonaro e não, o especulador.

Tabu

Aliás, esse FMI parece que está indo pelo mesmo caminho do Papa, minha gente. Controle de capital é igual a usar camisinha, gente, é proibido por leis divinas… e nem ousem perguntar por que! E aí, basta ter uma crisezinha de bosta como essa de 2008, que já vêm agitadores – esses paisecos em desenvolvimento – fazer lambança na divina ordem das coisas.

Se vocês forem olhar bem pra coisa toda, vocês vão ver que esse negócio todo de juro alto, sem controle nenhum, foi bom pra todo mundo: o dinheiro vai entrando igual água, e aí todo mundo lucra, empreiteiros e gestores de derivativos tóxicos nos bancos. Tudo bem, o povo acaba lucrando também, com as obras de infra que são feitas, mas… uma hora dessas a gente dá um jeito de acabar com essa farra de pobre e de comuna que só quer impedir que minhas queridas amigas que moram em Noviórqui fiquem menos ricas porque seus maridos não vão mais poder sugar dinheiro desses paisecos, nem aumentar os preços do mercado imobiliário comprando um monte de apartamentos e casas somente pra deixá-los vazios.

Certamente que isso é coisa de alguma turminha do contra, uma gangue de sem-vergonhas que se infiltrou no FMI. Com certeza, querendo o bom Deus, vai rolar uma porradaria forte aí entre a turminha do pântano e a turma de guardiães sagrados do neoliberalismo, os ungidos que constituem este seleto grupo de, como diria o sábio Professor Hariovaldo Almeida Prado, homens bons. Essa cisão, essa cisma, essa bazófia, com certeza, é coisa dessa corja que acredita em luta de classes. Não satisfeitos em querer forçar uma luta de classe nas fábricas, agora eles querem forçar uma luta de classes a nível mundial! Mas, estejam seguros: não vão conseguir! Ora bolas, os países avancados têm infinitamente mais classe que esses medíocres nouveaux-emergents

Eu fico danada com essa coisa toda. Espero – e sinceramente, espero de verdade – que o FMI resolva voltar à razão e mostre a esses mesquinhos desses países emergentes como essas medidas absurdas (com relatórios de dados manipulados, se preciso for) vão prejudicar seus parceiros comerciais. Afinal, o que será de um país de economia avancada se cada criança não puder ter um Wii ou um Super-Nintendo, se uma mulher não puder ter mais de trinta pares de sapatos, ou se um homem não puder dirigir seu próprio monster truck zero quilômetro? Já imaginou os prejuízos que isso vai causar no inconsciente coletivo dos parceiros comerciais dos nouveaux-emergents? Só tomando uma pinga pra aguentar essa visão do inferno comunista que se nos avizinha.

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Michael Moore: Os Estados Unidos NÃO estão falidos.

Pois bem, eu, que há tempos deixei de ser um grande fã dos Estados Unidos, tenho que tirar o chapéu para Michael Moore e para as dezenas de milhares de pessoas que foram protestar no Wisconsin contra os ataques aos sindicatos, por parte do governador Scott Walker. Finalmente se vê alguma defesa da coisa pública – a res publica, a base da república – neste país onde algumas vezes este conceito é, em última instância, associado a comunismo e nazismo. Uma espécie de paraíso filosófico demotucano.

Traduzo abaixo um texto de Michael Moore, publicado originalmente no Huffington Post, que é, na verdade, um discurso feito durante os protestos do Wisconsin. O ideal, mesmo, seria que pudéssemos ler o texto ouvindo o discurso no vídeo, que é ainda mais forte que o que está escrito, ainda que a essência seja a mesma. Se alguém pudesse transcrever as falas do vídeo para uma posterior legendagem, baseado no texto traduzido, seria muito bom.

Dou minha pequena contribuição com a tradução. Tenho implicâncias ideológicas com a apropriação do termo America para designar os EUA, extrapolando a idéia de um país para todo um continente. Por isso, onde a palavra America aparece, no texto original, a traduzi por Estados Unidos, Estados Unidos da América ou EUA. Como sempre, desejo uma ótima leitura a todos.

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Discurso feito no Capitólio de Wisconsin em Madison, 5 de março de 2011

Os Estados Unidos da América não estão falidos.

Ao contrário do que os que estão no poder gostariam que vocês acreditassem, demmodo que vocês entregassem suas aposentadorias, diminuíssem seus salários, e aspirassem em ter a vida que seus bisavós tinham, os EUA não estão falidos. Nem de longe. O país está repleto de riqueza e dinheiro. O problema é que ele não está nas suas mãos. Ele foi transferido, no maior assalto da história, dos trabalhadores e consumidores, para os bancos e carteiras dos uber-ricos.

Hoje, apenas 400 norte-americanos têm mais riqueza que todos os outros juntos.

Deixem-me repetir. 400 pessoas indecentemente ricas, a maioria das quais se beneficiaram de alguma maneira do “resgate” multi-trilionário de 2008 feito com o dinheiro dos contribuintes,  agora têm mais grana, ações e propriedades que todos os bens de 155 milhões de norte-americanos, juntos. Se você não conseguir chamar isto de um golpe de estado financeiro, então você está sendo simplesmente desonesto sobre o que você sabe, em seu coração, ser verdadeiro.

E eu entendo o porquê. Para que possamos admitir que deixamos um pequeno grupo de pessoas surrupiar e escapulir com o grosso da riqueza que move a nossa economia, deveríamos aceitar o humilhante reconhecimento que, de fato, entregamos nossa preciosa Democracia à elite endinheirada. Wall Street, os bancos e os Fortune 500 agora gerenciam esta República – e, até o mês passado, o resto de nós se sentia completamente impotente, incapaz de fazer qualquer coisa a respeito.

Não tenho mais que o segundo grau. Mas na época em que eu estava na escola, tínhamos que fazer um semestre de economia para nos graduarmos. E eis o que eu aprendi: o dinheiro não cresce em árvores. Ele cresce quando criamos coisas. Ele cresce quando temos bons empregos, com bons salários, que usamos para comprar as coisas que necessitamos e assim, criamos mais empregos. Ele cresce quando temos um sistema educacional excepcional que cria toda uma geração de inventores, empresários, artistas, cientistas e pensadores que têm a próxima grande idéia para o planeta. E esta nova idéia cria novos empregos, e estes empregos criam receita para o Estado. Mas, se os que têm dinheiro não pagarem uma quantia de impostos justa, o Estado não consegue funcionar. As escolas não conseguem produzir as pessoas melhores e mais brlhantes, que criariam estes empregos. Se os ricos ficarem com a maior parte do dinheiro, já vimos o que farão: jogarão irresponsavelmente com ele em esquemas loucos em Wall Street, e quebrarão nossa economia. A quebra que eles causaram nos custou milhões de empregos. Isto, também, causou uma redução na receita. E a população acabou sofrendo porque os ricos reduziram seus pagamentos de impostos, reduziram nossos empregos e tomaram a riqueza do sistema, tirando-a de circulação.

A nação não está falida, meus amigos. O Wisconsin não está falido. É parte da Grande Mentira. É uma das três maiores mentiras da década: os EUA e o Wisconsin estão falidos, o Iraque tem armas de destruição em massa, e os Packers não conseguem vencer o Super Bowl sem Brett Favre.

A verdade é que há muito dinheiro para circular. MUITO. É que simplesmente, os que estão no poder desviaram este dinheiro para um poço profundo que fica bem dentro de sus propriedades bem guardadas. Eles sabem que cometeram crimes para que isto acontecesse e sabem que algum dia pode ser que vocês queiram ver um pouco desse dinheiro que era seu. Então eles compraram e pagaram centenas de políticos por todo o país para executar suas ordens por eles. Mas, no caso de isso não funcionar, eles têm suas comunidades cercadas, os motores ligados e o jatinho de luxo sempre abastecido, à espera do dia em que toda esperança acabar. Para evitar o dia em que as pessoas exigirem seu dinheiro de volta, eles fizeram duas coisas muito espertas:

  1. Eles tomaram o controle da mensagem. Sendo proprietários da maioria da mídia, eles habilmente convenceram muitos norte-americanos de poucos recursos a aceitar sua versão do Sonho Americano e votar em seus políticos. Sua versão do Sonho Americano diz que vocês também podem ser ricos um dia – estamos nos Estados Unidos da América, onde qualquer coisa pode acontecer se vocês se dedicarem! Eles convenientemente lhes deram exemplos críveis que mostram como um garoto pobre pode tornar-se um homem rico, como o filho de uma mãe solteira no Havaí pode tornar-se presidente, como um cara com apenas o segundo grau pode tornar-se um cineasta de sucesso. Eles vão mostrar estas histórias inúmeras vezes, o dia todo, todos os dias, porque a última coisa que vocês querem ser é diferentes das outras maçãs no carrinho – porque vocês – é, vocês também! – podem ser ricos/presidentes/ganhadores de Oscar, algum dia! A mensagem é clara: mantenham a cabeça baixa, mantenham seu nariz perto da lajota, não balancem o barco e assegurem-se de votar no partido que protege os homens ricos que vocês poderão ser um dia.
  2. Eles criaram uma pílula venenosa que eles sabem que vocês nunca vão querer tomar. É a versão deles da destruição mútua assegurada. E quando eles ameaçaram lançar esta arma de aniquilação econômica em massa em setembro de 2008, nós piscamos. Enquanto a economia e as bolsas de valores entraram em parafuso, e os bancos foram pegos armando um esquema de Ponzi mundial, Wall Street lançou sua ameaça: ou nos entregam trilhões de dólares dos contribuintes americanos, ou vamos fazer a economia despencar no chão. Ou nos dão tudo, ou podem dar tchauzinho às contas de poupança. Tchauzinho às aposentadorias. Tchauzinho ao Tesouro dos Estados Unidos. Tchauzinho aos empregos, às casas e ao futuro. Foi apavorante à beça e deixou todo mundo se cagando de medo. “Tomem! Peguem o nosso dinheiro! Não queremos nem saber. A gente até imprime mais pra vocês! Mas por favor, deixem nossas vidas em paz, POR FAVOR!”

Os executivos em conselhos e fundos de hedge não podiam conter seu riso, seu deleite, e em três meses já estavam dando uns aos outros cheques de bônuses enormes e maravilhando-se com a perfeição que enganaram uma nação de otários. Milhões de pessoas perderam seus empregos mesmo assim, e milhões perderam suas casas. Mas não houve revolta (vejam o item 1).

Isto é, até agora. No Wisconsin! Nunca um Michigander esteve tão contente de dividir um lago enorme com vocês! Vocês despertaram o gigante adormecido comhecido como o povo dos Estados Unidos da América. Neste exato momento a terra treme e o chão se move sob os pés dos que estão no poder. Sua mensagem inspirou as pessoas em todos os 50 estados e esta mensagem é: “NÓS NOS ENCHEMOS”! Nós rejeitamos qualquer um que nos diga que os Estados Unidos está falido e quebrantado. É justamente o contrário! Somos ricos em talento, em idéias, em trabalho duro e, sim, em amor. Amor e compaixão para com os que acabaram, sem ter sido culpa sua, os mais baixos entre nós. Mas estas pessoas ainda anseiam pelo que todos ansiamos: ter nosso país de volta. Ter nossa democracia de volta! Ter nosso bom nome de volta! Os Estados Unidos da América. NÃO, os Estados Corporativos da América. Os Estados Unidos da América!

E como o conseguiremos? Bem, com um pouquinho de Egito aqui, um pouquinho de Madison ali. Paremos por um momento e lembremos que foi um homem pobre com uma barraca de frutas na Tunísia que deu sua vida para que o mundo voltasse sua atenção para como um governo comandado por bilionários é uma afronta à liberdade, à moral e à humanidade.

Muito obrigado, Wisconsin. Vocês fizeram as pessoas se darem conta que esta era a nossa última boa oportunidade de agarrar o último fio do que foi deixado, do que somos como americanos. Por três semanas, vocês ficaram no frio, dormiram no chão, saíram da cidade para ir ao Illinois – o que quer que tenha custado, vocês o fizeram, e uma coisa é certa:  Madison é só o começo. Esses ricaços convencidos jogaram alto demais. Eles não estariam satisfeitos simplesmente com o dinheiro que eles saquearam do Tesouro. Eles não se saciariam com a simples remoção de milhões de empregos e seu envio ao estrangeiro, para explorar os pobres de algum outro lugar. Não, eles tinham que ter mais – algo mais que todas as riquezas do mundo. Eles tinham que ter nossas almas. Eles tinham que arrancar nossa dignidade. Eles tinham que nos calar e nos botar para baixo, de modo que não pudéssemos nem sentar em uma mesa com eles e barganhar sobre coisas tão simples quanto o tamanho de uma sala de aula, ou coletes à prova de bala para todos na polícia, ou permitir que um piloto de avião tenha algumas horas a mais de sono para que ele possa exercer seu trabalho – pelo qual ele ganha US$19.000 ao ano. É o quanto ganham alguns pilotos iniciantes em companhias aéreas, talvez mesmo os pilotos iniciantes que trazem as pessoas aqui, para Madison. Mas este piloto parou de tentar ganhar um salário melhor.  Tudo o que ele pede é que não tenha que dormir em seu carro entre seus turnos no aeroporto O’Hare. É assim, detestavelmente baixo, que afundamos. Os ricos não estariam contentes em simplesmente pagar US$19.000 por ano a este homem. Eles queriam tirar-lhe seu sono. Eles queriam degradá-lo e desumanizá-lo. Afinal de contas, ele é apenas outro desleixado.

E este, meus amigos, é o erro fatal dos Estados Corporativos da América. Mas, ao tentar nos destruir, eles deram à luz a um movimento, um movimento que  se está tornando uma revolta massiva e não-violenta em todo o país. Todos sabíamos que haveria um ponto crítico um dia, e o atingimos. Muita gente na mídia não entende isto. Eles dizem que foram pegos de surpesas com o Egito, que não se deram conta do que ia acontecer. Agora, eles fingem estarem surpresos, perplexos, com o por quê de tantas centenas de milhares de pessoas terem vindo a Madison nas últimas três semanas durante um tempo invernal brutal. “Por que eles estão todos ali fora, no frio? Quer dizer, houve eleição em Novembro e isto deveria ser tudo!”

“Tem alguma coisa rolando aqui, e você não sabe o que é… sabe?”

Os Estados unidos não estão quebrados! A única coisa quebrada aqui é a bússola moral dos mandantes. E nós queremos consertar esra bússola, e conduzir este navio nós mesmo, daqui para a frente. Nunca esqueçam que, enquanto a nossa Constituição existir, é uma pessoa, um voto, e é a coisa que os ricos mais odeiam nos Estados Unidos – porque apesar de parecer que eles têm todo o dinheiro e todas as cartas na manga, eles relutantemente sabem este fato inabalável: há muitos mais de nós de nós, que deles!

Madison, não recuem. Estamos com vocês. Venceremos juntos.

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Nova placa de trânsito

Nova placa de trânsito, introduzida, provavelmente, pelo delegado de Porto Alegre, Sr. Gilberto Almeida Montenegro.

O novo sinal será de conhecimento obrigatório para todos os ciclistas, aplicando-se sanções especiais em caso de infrações dirigidas a Golfs negros.

Interpretação da placa no manual do Detran-RS: “Proibido a ciclistas cercearem o direito de ir e vir de motoristas sociopatas, jogando-se no para-brisas dos carros com bicicleta e tudo”.

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O Mr. Wheeler gaúcho

Porto Alegre foi palco de uma cena de barbárie, digna de todos os adjetivos “in/im” em que se possa pensar.

Impensável.

Incompreensível.

Indignante.

Imperdoável.

O psicopata desequilibrado que atropelou os ciclistas já foi identificado, segundo o Jornal Nacional. Já se sabe onde mora, mas ele não se encontra em sua residência. Já se sabe seu número de telefone, mas (santa ingenuidade, Batman) ele não atende às ligações. Segundo esta reportagem da rede Bandeirantes, não está confirmado se era o dono do veículo que o conduzia no momento do crime.

Independentemente de ser o dono do veículo ou não, o vídeo abaixo mostra, sem sombra de dúvida, que a intenção foi criminosa. Preste bastante atenção aos 57 segundos do vídeo, que é quando um cinegrafista amador anônimo consegue registrar a cena absurda.

O que me deixa assombrado é o dono do veículo não ter seu nome revelado. Qual a razão disso? Por que se mantém segredo sobre sua identidade? É algum “peixe grande”? Se não me equivoco, pela lei, o dono do veículo pode ser também julgado culpado pelo acontecido, tenha ou não o carro chegado às mãos do sociopata que o conduzia – no caso de o dono não ser o condutor – com seu consentimento expresso. Isso me faz suspeitar que haja um “peixe grande” envolvido nesta história… mas, isso é pura especulação.

[Atualização, 27/02/2010, 21:51 : o sociopata se chama Ricardo José Neif e tem 47 anos. Seu advogado já ligou para a polícia e deve apresentar-se à mesma amanhã. Ainda não consegui descobrir o que o sujeito faz da vida.]

Também é revoltante e inadmissível a atitude das autoridades públicas com respeito ao fato. Lamentáveis as declarações do delegado Gilberto Almeida Montenegro ao Portal Terra:

… O delegado Gilberto Almeida Montenegro, diretor da Divisão de Crimes de Trânsito de Porto Alegre (RS), criticou neste sábado o movimento Massa Crítica, organizador do passeio ciclístico que terminou com pelo menos dez ciclistas atropelados por um automóvel no bairro Cidade Baixa, na noite de ontem. Para Montenegro, o grupo errou ao não comunicar às autoridades de trânsito a realização do evento.

“O primeiro erro crucial foi esse evento ciclístico. Esse grupo cometeu um erro grave, qualquer evento desse porte se avisa a Brigada Militar (BM), a EPTC (Empresa Pública de Transporte e Circulação), a Secretaria de Segurança, para se formar um aparato para evitar situações desse tipo”, disse Montenegro.

De acordo com o delegado, o direito à livre expressão dos manifestantes não podia impedir o direito de ir e vir de pedestres e motoristas. “Aqui não é a Líbia. Aqui tem toda a liberdade para fazer manifestação, desde que avisem as autoridades. Faz a tua manifestação, mas não impede o fluxo de automóveis. Se tu impedes, dá confusão, dá baderna, dá acidente. Fica o alerta”, afirmou.

Me parece que o primeiro erro crucial não tenha sido o evento ciclístico, mas sim, deixar um carro nas mãos de um sociopata. E há um segundo erro crucial, aqui: colocar, em posto tão importante, uma pessoa que demonstra condescendência com um tal ato de barbárie. Como sempre, a corda arrebenta do lado mais fraco.

Comportamentos agressivos no trânsito não são novidade. Desde que os automóveis se popularizaram (sem nenhuma alusão ou concordância com as colocações do Prates, façam-me o favor!), o tema existe. Tanto é assim, que Walt Disney, já em 1950, lançava um curta de seis minutos que ficaria famosíssimo: “Motor Mania”. Nele, o Pateta faz o papel de um Dr. Jekyll e Mr. Hyde: fora do carro, o Sr. Walker, gentil e atencioso, incapaz de ferir um inseto. Detrás do volante, o insano e sociopata Sr. Wheeler.

O vídeo, que coloco abaixo em português, tem uma versão no YouTube com uma introdução que resume tudo: “O filme não envelheceu nem um pouco. Continua a ser uma crítica mordaz sobre como os carros convertem pessoas boas em pessoas más”. No entanto, me pergunto: o carro realmente transforma uma pessoa? Ou é o poder que o motorista sente, ao estar por detrás do volante, que lhe corrompe? Não seria uma simples questão de trazer à tona o que já existe dentro da pessoa?

E, agora, uma idéia um pouco mais polêmica. Cargos onde se sofre fortes pressões psicológicas, como o de astronauta, têm como requisitos para admissão a aprovação em testes psicológicos onde se avalia as reações a problemas que ocorram sob situações extremas. Ora, dirigir nas grandes cidades brasileiras é uma situação de extrema pressão. Não seria o caso de se aplicar testes do gênero a aspirantes a motorista, ou aos que aspirem ter suas carteiras de motorista renovadas, ao invés de aplicar testes psicotécnicos risíveis?

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As dez condições para o amor

Eis que me descubro apaixonado por micropoesia. Já era apaixonado antes, pela poesia de Leminski, que já era um poeta perfeito para o Twitter antes mesmo que se pensasse em sua existência. Só fico imaginando Leminski tuitando sua poesia, como seria!

Ultimamente,  comecei a seguir alguns micropoetas no Twitter. Não são somente micropoetas: são artistas que tuitam micropoesia. Cada um tem seu próprio estilo, seus assuntos de preferência, seu caráter como poeta. Talvez, o que mais me apaixone na micropoesia seja ver que 140 caracteres são suficientes para imprimir estilo e caráter próprio…

Abaixo reproduzo uma seqüência de tuítes de uma escritora, a Margarida Souza, @margarida57 no Twitter. Sigo os tuítes de Margarida, e também os textos de seu blog, “Margarida Nua“. No blog, a Margarida dá um tom completamente diferente de seus tweets, mais libertino, quase que puramente sexual. Também muito interessante, mas sem a poesia que têm seus tuítes. Ou, quem sabe, uma poesia totalmente diferente. Afinal, não estamos acostumados a associar poesia à carnalidade. Uma coisa é certa: um é complemento, e não antagonismo, do outro.

Boa leitura a todos.

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Margarida SouzaMargarida57 Margarida Souza

Para amar é preciso que se cumpram certas condições: que o sol, todos os dias, de manhã, ilumine os dois, ao mesmo tempo, é a primeira.

Margarida SouzaMargarida57 Margarida Souza

Segunda condição para o amor: se houver sombra, ela deve ser do tamanho que comporte os dois, juntinhos, abaixadinhos. E ali se beijem.

Margarida SouzaMargarida57 Margarida Souza

Terceira condição para o amor: Lágrimas, se as houver, devem frequentar ambas as faces.

Margarida SouzaMargarida57 Margarida Souza

Quarta condição: Café não rima com poesia, ou rima? Não rima, decididamente, não. Mas nada impede que no desjejum seja servido um soneto.

Margarida SouzaMargarida57 Margarida Souza

Quinta condição para o amor: Leve-me contigo, levo-te comigo. Não há mais a barreira física, nem de ter de carregar peso depois do skype.

Margarida SouzaMargarida57 Margarida Souza

Sexta condição para o amor: Você poderá ter um amante, seu marido idem, desde que num baile de máscaras, ambos se enamorem…

Margarida SouzaMargarida57 Margarida Souza

Sétima condição para o amor: Suas amigas poderão amar o seu marido, desde que ele também as amem. Afinal, amemos todos uns aos outros.

Margarida SouzaMargarida57 Margarida Souza

Oitava condição para o amor: Caso nos percamos um do outro, numa noite turva, de névoa londrina, saibamos identificar perfumes.

Margarida SouzaMargarida57 Margarida Souza

Nona condição para o amor: Caso o conflito se estabeleça, façamos como diz o poeta, amemos apenas o corpo, pois as almas não se entendem.

Margarida SouzaMargarida57 Margarida Souza

Décima condição para o amor: Reparar que depois de alguns anos não se sabe mais de quem o retrato na parede, se meu, ou dele.

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