A greve dos Professores das Federais

Como é de conhecimento público, a greve dos Professores das Universidades Federais de todo o país já dura quase um mês. Em universidades que trabalham com quadrimestres, como a UFABC, mais dois meses de greve farão com que o quadrimestre corrente seja perdido. Nas universidades que trabalham por semestres, alunos podem deixar de se formar por falta de aulas, e o Natal e o Ano Novo podem quase se passar dentro das salas de aula.

É fato que a greve dos professores prejudica, principalmente, os alunos. Por mais que o direito de greve seja garantido pela nossa Constituição, ainda há quem queira pintar as greves como coisa de vagabundos:

Defende-se o corte de ponto, diz-se que é uma vergonha que se ganhe para não trabalha; só falta dizer que se deve colocar tropas de choque pra reprimir manifestações de professores. Não é o que é dito, claro, mas é o passo seguinte natural. Mas, será que é para ganhar sem trabalhar, mesmo? A julgar pelos comentários deste post no excelente blog de Luis Nassif Braslianas.org, a maioria escritos por professores, não. Vale a pena ler, em especial, os comentários e a reportagem do site da ANDES-SN postados pelo sergior – são, respectivamente o sexto e nono comentários após o texto.

As reivindicações dos professores para além da evidente e endêmica falta de infraestrutura física das Universidades Federais podem ser encontradas no décimo segundo comentário, de autoria de Daniel Augusto, neste post do mesmo Brasilianas.org, e também me parecem muito justas. Ainda assim, nem todos os professores aderiram à greve, por razões que se sintetizam, em parte, no quarto comentário do mesmo post, de autoria de Adriano Martins. É importante dizer que não considero a simples não-adesão à greve uma “peleguice”. É uma questão de foro íntimo e pessoal e, se a pessoa acha que não deve entrar na greve, seja pela razão que for, deve fazer o que acredita ser correto. Julgar uma pessoa pelas convicções pessoais, para mim, é a mesma coisa que dizer  – de modo maniqueísta – que uma pessoa é má por não ser de esquerda, ou que é má por ser atéia. Enfraquece a greve? Sim. Mas, se uma pessoa julga que tudo está bem, ou que o modo pelo qual está se tentando conseguir algo é errado, não vejo por quê ir contra seus princípios. O que não se pode, sob hipótese nenhuma, é ser hipócrita.

O que quero com este texto, e que muito me dói, é chamar a atenção para o fato decepcionante de que o PT deixou de ter aquela visão de desenvolvimento de Nação que um dia, provavelmente, teve. Segundo os professores grevistas (e talvez também segundo os não-grevistas), as negociações sobre seu novo plano de carreira se arrasta já há mais de um ano, nas palavras da presidente da Associação Nacional dos Docentes do Ensino Superior (Andes), Marina Barbosa: segundo ela, desde agosto de 2010 as negociações com o governo sobre o assunto se arrastam sem avanço.

Deflagrou-se a greve, os alunos começaram a sentir o prejuízo que teriam, e o Governo, em atitude estúpida, decidiu tratar o assunto, incialmente, fazendo ouvidos de mercador. Depois, com a inquietação crescendo, começaram a circular rumores (classifico assim pois não consegui encontrar notícias online que suportem estas coisas, apenas imagens no Facebook) de que o Ministro da Educação, Aloísio Mercadante, teria declarado que não negociaria com os professores enquanto estivessem em greve. Levou duas semanas para que o Ministro começasse a declarar que a greve era precipitada por ser o dia 31 de agosto de 2012 a data-limite para a chegada a um acordo (após praticamente dois anos de espera!):

Pior, levou quase um mês para que o Governo resolvesse sentar à mesa com os grevistas para negociar e, quando o fez, revelaram-se tanto a inépcia deste governo em ter uma visão estratégica sobre o papel da educação no país, como sua débil (bondosamente falando) habilidade em negociar e, principalmente, o descaso com que trata os docentes de ensino superior no país. A proposta feita no dia 12 de junho, Segunda-feira, é de uma indecência e desfaçatez impressionantes. Eis o relato do que aconteceu na reunião, postado no grupo Greve2012 no Facebook, pelo Prof. José Monserrat Neto:

Informação fresquinha direto de Brasília, do Prof. Antônio Maria, que participa do Comando Nacional de Greve (CNG/Andes):

“Caros colegas,

A reunião prevista para começar as 17horas iniciou-se por volta das 18h30 e o governo iniciou informando sua proposta.

Ele propôs o seguinte:
– Gostaria de propor uma trégua de 20 dias, os professores voltariam a sala de aula e terminariam o semestre e então juntos faremos um calendário para se apresentar o plano de carreira.

A presidente do Andes, profa. Marina, disse que a trégua já havia sido dada em agosto passado, quando foi assinado o acordo, um cronograma estabelecido com prazo final até 31 de março, o qual foi prorrogado para 31 de maio sem nenhum avanço concreto. Portanto, a entidade não tinha como confiar no governo, considerando que a greve comecou forte e que a base está mobilizada e consciente do processo que ocorrido e que nada foi resolvido.

Então os técnicos do governo cochicham, ponderam, e, então, após uns 30 minutos de reunião, pedem tempo técnico para eles se reunirem, assim como Bernardinho da seleção de volei faz para organizar o time. Marina disse que Bernardinho precisa de menos de 5 minutos para organizar o time. Governo diz que precisa de 15 minutos.

Passados cerca de 30 minutos, governo retorna a mesa de negociação e diz que apresentará sua proposta no decorrer dos próximos 20 dias e que a negociação será finalizada no máximo em 20 dias. Informou que a carreira docente é prioridade para o governo e eles estão elaborando a proposta com referencia na carreira de C&T.

Marina questionou se a referência é de valores salariais de referência, ou de piso e teto, ou a estrutura da carreira. Governo informou que são valores de referência e que não pode assumir os valores agora, pois demanda análise.

Nada foi dito sobre a estrutura, condições, progressões, piso, teto, etc.
O governo mais uma vez enrolou na reunião e claramente não tem nenhuma proposta de fato para a carreira docente.

Mais uma vez, mesmo muitos discordando, o ANDES acertou ao iniciar a greve antes do prazo, pois passados 2 semanas após o termino do prazo o governo não tem proposta e ainda pediu mais 20 dias.

A próxima reunião foi agendada para o dia 19 (terca).

Portanto companheiros, a greve continua, não há o que deliberarmos em termos de carreira ou proposta a ser discutida. É inacreditável!

Att,
Prof. Antonio Maria
Direto de Brasilia”

Fica claro, filtrando as partes que fazem a equipe de negociadores do Governo parecerem um bando de galinhas tontas correndo em torno de montinhos de ração, que (1) o Governo não tem um “plano B” para solucionar o problema, (2) não se preocupou em elaborar uma proposta que dignifique os professores e (3) está querendo enrolar os Professores, subestimando de modo gritante sua capacidade intelectual. Em palavras simples e diretas: o Governo está achando que os grevistas é que são galinhas tontas e burras que se satisfariam simplesmente com um pouquinho a mais de ração em seus já minguantes montinhos. Se vai ser este o caso, só o tempo e as negociações dirão.

Quase que paralelamente à greve dos Professores, deflagrou-se uma greve de médicos, inicialmente por uma paralisação de médicos em hospitais públicos no Paraná, e que posteriormente se estendeu a 40 hospitais públicos em todo o país. A razão foi uma MP que, efetivamente, aumentava a carga de trabalho dos médicos ao mesmo tempo em que, efetivamente, cortava seus salários pela metade. O Governo foi rápido em sanar esta situação: no próprio dia 12 de junho, decidiu revogar a malfadada MP.

Para os professores, no entanto, uma tentativa de enrolação. Por quê não com os médicos? Ora, por uma razão simples: ano eleitoral. Os médicos atingem uma parcela muito maior da população, com prejuízos muito maiores que o adiamento de formaturas por um semestre ou quadrimestre e a perda de férias de inverno e verão. Além disso, quem depende dos hospitais públicos é a fatia do eleitorado que é o fiel da balança nas eleições, parcela essencial para que seja possível uma maioria do PT ou de partidos de esquerda nas prefeituras do país, fator essencial para impedir o avanço da direita no país. Eu, particularmente, há tempos deixei de achar o PT a melhor opção política, mas continuo sendo de esquerda, e continuo achando que o avanço da direita é uma coisa nefasta em qualquer país – haja visto o que está acontecendo com o estado de bem-estar social na Europa, com a Espanha como exemplo cabal.

Ledo engano de quem acha que o recuo do Governo em relação à greve dos médicos dos hospitais públicos tem a ver com querer o bem-estar do eleitorado que se gostaria de manter cativo. Os recuos com relação às greves dos médicos e dos Professores das Federais têm como raiz a mesma razão: uma tentativa de minimização de danos à candidatura de Fernando Haddad em São Paulo, que insiste em não decolar dos 3% nas pesquisas ainda que, como bem pondera Fernando Mitre, estejamos em uma época das eleições em que pesquisas não valem praticamente nada, mas começam a ganhar alguma importância. A “trégua” proposta pelo Governo possibilitaria minimizar estes danos de modo maquiavélico (como descrito em “O Príncipe”, de Maquiavel): uma trégua de vinte dias e a finalização do calendário acadêmico seria um modo de limpar a imagem do governo, que depois poderia muito bem enrolar a negociação de um plano de carreira por mais dois meses, o que adiaria o impacto no Orçamento Geral da União para 2014, uma vez que seu fechamento é em 31 de Agosto de 2012. Lembremos que olhando mais à frente, em 2014 teremos a Copa do Mundo, em que certamente as negociações, mais uma vez, não avançariam – quem não se lembra da época de lançamento dos malditos pacotes econômicos dos governos anteriores, que eram sempre em épocas de Carnaval ou Copa do Mundo? O problema é que o Governo não se deu conta, ou resolveu blefar com o fato, de que desta vez seu próprio projeto de enfraquecimento da direita no país (que eu apóio, sem querer que ela seja eliminada!) “melou” tudo, dando uma força incrível aos professores em conseguir melhorias significativas.

É um erro crasso não preceber, ou ignorar, que os professores não têm força, e muita, dessa vez, justamente por causa das eleições para prefeito em São Paulo. Vejamos como se posicionam as peças no tabuleiro: temos uma eleição que provavelmente será decidida entre um ex-ministro da educação concorrendo pelo PT, partido criado pelo Lula, que comandou as maiores greves do país, e um ex-ministro da saúde concorrendo pelo PSDB. Pra quem ainda não ligou os pontinhos da minha hipótese, vai o desenho: um partido trabalhista enrolando pra negociar – primeira contradição crassa – com professores – sendo que seu ex-ministro da educação concorre em SP – e médicos – sendo que seu adversário é um ex-ministro da saúde com boa receptividade em um eleitorado extremamente conservador, e que não vai hesitar em distorcer os fatos a seu favor.

Quem acha que o PSDB não vai capitalizar forte com todos esses ingredientes? Há uma  semana atrás, o PSDB já avisou que ia usar a greve dos professores contra Haddad na campanha de Serra. A Folha, por sua vez, começa a dizer que o governo tem medo que a greve dos professores, que foi reforçada na Segunda-feira dia 12/06 (presentão de dia dos namorados, hein?) pelos funcionários técnico-administrativos das Universidades Federais, prejudique a candidatura de Haddad à prefeitura de São Paulo. Até que demoraram a perceber essa possibilidade…

Mas a coisa fica muito pior para o Governo quando consideramos que a propaganda eleitoral gratuita no rádio e na TV começa em 21 de agosto, segundo o calendário eleitoral, mas a da internet começa em 6 de julho. Para achar que é coincidência o governo pedir uma “trégua” de vinte dias, dado que a propaganda eleitoral na internet começa justamente 24 dias após o começo da propaganda eleitoral na interne,t tem que ser muito Poliana. O Governo sabe da força da internet e das redes sociais; não subestimem esta força e esta influência, porque o próprio Governo não as subestima. Vejamos dois comentários no grupo Greve2012 do Facebook (omiti os nomes dos comentaristas de propósito):

A manchete foi bem cruel. O conteúdo da fala dele não está expressa na manchete. Mas o que vai se fazer? Se o PT quer queimar seu candidato e deixar o infeliz enfrentando esta pauta, que seja. Felicidade na direita e na extrema-esquerda! Continuo com minha campanha: Lula, liga para Brasília e bota este povo no “cantinho da reflexão”. kkkkkkkkk

É cômico.. esse playboyzinho [N.A.: Haddad] aí falando que nao está no DNA criticar grevista.. q q o Mercadante ta fazendo falando q a greve é precipitada? a pra puta que pariu viu…. como que alguém ainda pensa em votar em alguem dessa corja?

E, como não fosse o bastante, vejam o que foi tuitado pelo Senador Cristovam Buarque, e que começa a ser amplamente divulgado pelos indignados com a greve, no Facebook:

Buarque tem quase 300 mil seguidores no Twitter e, com mais exposição através das redes sociais com platitudes como esta que, além de falar alto e forte em épocas de indignação e ânimos exaltados e que, no fundo, têm bastante a ver com o conecito de desenvolvimento do governo Dilma, pode acabar ganhando muitos mais. Pelo tom geral dos Tweets e discursos do Senador, dá pra perceber que ele não é bem o que se chamaria de um simpatizante do atual Governo ou do PT.

Tic-tac, tic-tac, tic-tac, é o que devem escutar atualmente Dilma, Mercadante e Sérgio Mendonça. Não há desculpa para não dar um aumento e investir mais na educação superior pública. Impacto orçamentário? Pequeno, ainda mais com as quedas da taxa Selic, que possibilitariam que as economias do Governo no financiamento da dívida pública fossem re-direcionadas para o pagamento dos aumentos necessários, e para a execução das obras de infra-estruturas ao longo do resto do atual mandato. Afinal de contas, ao contrário do judiciário, que tem salários muito mais polpudos que os dos Professores das Universidades Federais, a aposentadoria com salário integral pago pelo Estado já levou o devido golpe mortal. Tic-tac, tic-tac, tic-tac.

Se os Professores pararem agora, vão estar dando tiro na cabeça, porque “no pé” seria mero eufemismo. Estão com a faca e o queijo na mão. Parar agora e terminar o semestre seria burrice: depois, o governo poderia, como disse anteriormente, voltar a enrolar e nas propagandas eleitorais, dizer que está negociando, limpando sua imagem. Os médicos conseguiram as coisas muito mais fácil, pois muitas vezes as pessoas têm que sair de cidades longe pra ir se tratar, e isso iria provocar uma ira enorme da população de baixa renda (historicamente mais suscetível a demagogias como as de figurinhas carimbadas como Maluf e Serra), que é um colégio eleitoral maior que nós, que podemos aceder à educação superior, e portanto é o fiel da balança nas eleições.

A trégua que o governo propôs é ato de desespero. Posso estar sendo otimista demais, mas é possível que esta greve, continuando com pressão forte mas equilibrada, mal chegue ao final de julho, principalmente se os Professores forem solidários com os funcionários de suas instituições. Quero mais é que a greve continue, e que os Professores grevistas consigam seus objetivos que, como visto mais acima, está muito além de um mero aumento salarial. Ainda mais que os alunos de graduação, eu estou sendo prejudicado pela greve: fui aprovado em um concurso, me chamaram para preencher uma vaga numa Federal, e minha papelada chegou no RH no final de Maio. Justamente na Segunda-feira seguinte, os funcionários técnico-administrativos da UFF entram em greve. Leva um mês ou mais para publicar a nomeação no DOU, e provavelmente meus papéis estão lá parados, com a validade de meu concurso expirando em 1 de novembro. Se essa greve se estender até Agosto ou Setembro, arrisco a perder minha vaga. Mas agora não é a hora de parar, em hipótese alguma. É a hora de conseguir que o governo deixe de ter essa visão puramente monetarista de desenvolvimento, e que pelo menos assuma compromissos de desenvolvimento que não sejam puramente aumentos salariais “cala-a-boca”.

Só me deixa sentimentos de tristeza e de traição à minha militância de mais de 20 anos por este partido ver que, para chegar ao poder, enterrou na lama seus princípios que nos eram mais caros. Lembro de quando eu tinha oito ou nove anos – isso foi por volta da fundação do PT, por volta de 1980, em meio a uma ditadura militar já na descendente -, quando estudava no Externato São Patrício, no Rio de Janeiro, ver um adesivo “OPTei” colado na pasta da minha professora (de História?), Tia Helena (?). Anos mais tarde, compreendi sua reticência em me explicar o que era, com agentes do DOPS infiltrados onde menos se esperava de olhos e ouvidos abertíssimos, e esta compreensão me marcou e influenciou enormemente até hoje. Hoje, continuo a ser de esquerda. Também continuo a votar no PT, ainda que seja somente por falta de melhores opções – PSOL e PSTU, para mim, são só “a esquerda que a direita adora”. Fico imaginando o que pensará a respeito disso tudo, hoje, a Tia Helena.

Atualização às 17:52:

Quando a pressão é feita no momento certo e no momento certo, começa a surtir efeito. Os grevistas fizeram muito bem em não parar.

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2 respostas para A greve dos Professores das Federais

  1. O texto é excelente, mas discordo apenas – de forma veemente – com o final. Se o PT não é a melhor opção, porque a esquerda que se mantém fiel às bandeiras do próprio PT dos anos 80-90 é a q a direita gosta? direita esta que está inteira com o PT: PSC, PP, PR, PMDB…

  2. bertagna disse:

    Reblogged this on Beto Bertagna a 24 quadrose comentado:
    Para reflexão ,,,

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