O lado bom de um câncer?

Parem o mundo pra imprensa brasileira descer. Eu continuo nele, a imprensa brasileira é que bem podia ir embora.

Pode-se ser de direita, não gostar do Lula, ter arrepios com programas sociais como o Bolsa-Família e tudo o mais que possa melhorar as condições de vida de gente pouco favorecida economicamente. Mas, vamos combinar que ética é fundamental e que ser de direita não nos dá o menor direito a celebrar o câncer de uma pessoa? Pois é exatamente isto que faz, hipocritamente e sem o menor traço de ética, o Sr. Gilberto Dimenstein na Folha de São Paulo. Reproduzo abaixo o texto do jenio:

29/10/2011 – 16h23

Câncer de Lula vai servir de lição

Possivelmente o câncer de Lula servirá como a mais forte campanha popular de que se tem notícia no Brasil contra o fumo –afinal, há uma forte associação entre o câncer de laringe e o cigarro.

Enquanto todos estivermos acompanhando (e torcendo para que o tratamento dê certo), o país vai conhecer, como nunca conheceu, os efeitos no cigarro, apesar de tantas campanhas realizadas há tanto tempo.

Nunca tivemos um personagem tão popular e tão próximo dos mais pobres com um câncer ligado diretamente ao fumo.

Justamente nas camadas mais baixas o hábito de fumar tem caído com muito menos velocidade do que entre os mais ricos. E justamente na laringe, por onde passa a habilidade de Lula em convencer as pessoas em seus discursos.

Infelizmente é desse jeito, com as pessoas sentindo-se próximas e vulneráveis diante de uma ameaça que se consegue mudar atitudes.

Gilberto DimensteinGilberto Dimenstein, 54, integra o Conselho Editorial da Folha e vive nos Estados Unidos, onde foi convidado para desenvolver em Harvard projeto de comunicação para a cidadania.

Vamos deixar de lado o fato de que ele fala de Lula, por alguns momentos. Como é que alguém consegue ser tão desumano a ponto de celebrar um câncer? Não se deve celebrar nenhum tipo de câncer, muito menos um tipo maligno como é o do Lula. Perdi meu pai para um câncer muito mais maligno, um glioblastoma multiforme. E pelo texto do Dimenstein, já percebo que ele nunca perdeu um ente querido para esta doença tão triste. Não adianta dizer que os avanços da medicina tornam o carcinoma de Lula curável. O carcinoma é um tumor maligno, que pode entrar em metástase e ser letal.

Agora voltemos a colocar Lula na equação. Dimenstein está celebrando o câncer de Lula como uma punição por seu “mau ato” de fumar. Diz – e escrevo aqui com todas as letras, hipocritamente – que isso servirá de lição para os outros fumantes, e que torce por uma pronta recuperação de Lula. E são duas mentiras, tanto o argumento furado de que os outros fumantes irão parar pelo câncer de Lula, quanto o suposto desejo de pronta recuperação. Em primeiro lugar, se exemplos e “punições divinas” adiantassem para fazer as pessoas parar de fumar, a Souza Cruz e a Phillip Morris já teriam falido no Brasil. Depois, gente como o Sr. Dimenstein sabe muito bem – e se não sabe, tem toda a condição de saber – que câncer não é gripe. Se mesmo uma gripe pode evoluir para uma pneumonia, com o desenvolvimento de sérias complicações e matar – ainda que isso não seja mais tão comum -, que dirá uma doença como um câncer, que pode entrar em metástase e matar de forma lenta e dolorosa? Francamente, pergunto: há alguma coisa a ser celebrada na potencial morte de uma pessoa, mesmo que essa possibilidade seja muito remota, como dizem os médicos?

O problema é que, como diz o Luis Nassif em seu artigo “Como seria um Brasil sem Lula?“,

Até nos ambientes mais selvagens – das guerras, por exemplo – há a ética do guerreiro, de embainhar as armas quando vê o inimigo caído, por doença, tragédia ou mesmo na derrota. Por aqui, não: é selvageria em estado puro.

Porque, reconheçamos: os Quatro Fantásticos dessa imprensa golpista tupiniquim não vêem limites para os ataques políticos. Por que não se diz que um câncer como o do ex-governador Mário Covas também teria sido uma punição? A resposta é simples: porque Covas era do PSDB, o partido mais querido de todos os tempos dessa nossa imprensa inescrupulosa desde que começou nossa jovem democracia. Afinal de contas, que provas há que o fumo só cause o aparecimento de câncer na garganta ou nos pulmões? Nenhuma, até onde sei.

E essa bondade de Dimenstein para com Lula (“estamos todos torcendo para que Lula se recupere logo”) é falsa, pois a celebração esconde a vingança rancorosa de alguém que não suporta que Lula ainda exista na cena política nacional, mesmo sem se meter nela de modo ativo e explícito. Não nos iludamos e leiamos nas entrelinhas a clara mensagem: “Lula não morreu e ainda não está sofrendo, mas ainda assim, alguma coisa de bom pode ser extraído de sua doença”. É o prelúdio da armação de um circo midiático – que no caso de Covas, Dimenstein condenava sob o pretexto de auto-crítica à imprensa – mas, também, um modo de fazer de Lula um bode expiatório pelo pecado de roubar do PSDB a glória de ter levado o Brasil ao desenvolvimento econômico que sempre mereceu ter. E é, acima de tudo, um modo de diminuir o processo de martirização de Lula à qual se refere Nassif em seu lúcido artigo sobre as análise políticas que imediatamente se fizeram sobre o que seria o Brasil sem Lula, nesse processo sórdido de celebração do sofrimento do inimigo, nesse vale-tudo político onde a humanidade não chega nem mesmo a ser uma ideia platônica, por não existir nem mesmo no mundo do conceitual – dessa imprensa nojenta, claro.

Com este tipo de atitudes, dou graças ao universo que Dimenstein tenha ido ser parte de um projeto de comunicação para a cidadania na universidade de Harvard, e não em uma universidade brasileira. Porque, se é inevitável haver este tipo de “comunicação” para uma “cidadania” cujas bases estejam assentadas na canalhice, na hipocrisia e na desumanidade, é muito preferível que não seja aqui. Só me dá pena do povo para o qual uma tal “comunicação cidadã” esteja sendo concebida. Será que Dimenstein ganha uma bolsa da Fox News e a tal “cidadania” tem suas bases concebidas pelo Sr. Rupert Murdoch?

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