Visões espanholas: “Rio de Janeiro, ciudad sin ley”

Traduzo abaixo um texto de Henrique Mariño, dos blogs do jornal espanhol Público. Henrique morou no Brasil há alguns anos atrás, e nos presenteia com um ótimo artigo sobre as origens do conflito que hoje assola o Rio. A parte algumas imprecisões e a falta de alguns elementos que seriam chave para um maior entendimento do problema, o texto de Mariño é algo extremamente raro na imprensa mundial, comportando uma visão sensata e sóbria do que é o Rio, sem recorrer a clichês. O texto original pode ser encontrado aqui, para quem curte ler em Espanhol. Os grifos em itálico no texto são porque estes termos aparecem em português no original e os links foram colocados por mim, para fatos que desconhecia e que me saltaram aos olhos durante a tradução. Uma prazerosa leitura a todos – espero que tão prazerosa como foi para mim.

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Não é fácil explicar o que sejam o céu e o inferno, mas há metáforas que ajudam. O Rio de Janeiro simboliza ambos. O paraíso está ao nível do mar, que banha as praias de Ipanema e Copacabana, com seus corpaços ao sol e seus bares com terraça onde se pode tomar uma cerveja com colarinho, bem gelada, ao ritmo do samba e os rebolados da garotada. Não muito longe dali e alheio aos olhos dos turistas, o inferno ocupou os morros da cidade maravilhosa: pobreza, violência, marginalidade, narcotráfico, fracasso escolar, crime, expectativa de vida minguante… O mundo ao revés: acima, o inferno e abaixo, o céu.

A capital turística e cultural do Brasil, onde a cada dia morrem vinte personas de maneira violenta, sediará a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016. Muitos habitantes de Chicago, Tóquio ou Madri, que aspiravam a levar as seis argolas para casa, ainda se perguntam como é possível que uma das cidades mais violentas do planeta seja palco de semelhante evento. Considerando-se mais que somente sua infra-estrutura, o Rio é uma cidade insegura, com três máfias que controlam o tráfico de drogas, grupos paramilitares que tentam usurpar seu espaço para impor sua própria lei, e uma polícia violenta, de gatilho solto. Ninguém questiona o esforço das autoridades políticas e policiais para controlar a situação durante o transcorrer de ambas as competições esportivas, mas até o presente momento a situação é de deixar os cabelos en pé.

As favelas no Rio têm, diferentemente das bidonvilles ou localidades miseráveis de outras latitudes, uma particularidade: estão nas encostas dos morros. Seu nascimento remonta ao início do século passado, quando o governo cedeu a alguns militares terrenos no alto dos morros, pelos serviços prestados em batalha.  Naqueles morros próximos à costa, que conferem à cidade sua beleza característica, um capricho da natureza, crescia a planta denominada favela. A planta deu nome ao Morro da Favela e, com o tempo, a todas as construções de sub-habitações que começaram a surgir nas zonas da cidade onde os azulejos dos ricos, brancos de origem européia, não haviam chegado. Ali estabeleceu-se, e continua a fazê-lo, a população negra e mulata do nordeste do Brasil, de imigração interna e de poucos recursos.

Pobre não quer dizer bandido

Ainda que com o passar dos anos os povoados de barracos tenham proliferado nas áreas mais planas da periferia, as zonas nobres do Rio, infestadas de riscos, estão cercadas por bairros humildes. O Hotel Sheraton, por exemplo, tem vistas maravilhosas para a praia do Leblon, mas se o cliente pegar o quarto errado, terá um panorama um pouco mais modesto: o da favela do Vidigal. E, para aprofundar o paradoxo, da areia, a mais bela imagem é a que nos proporcionam as centenas de luzinhas que de noite se acendem lá em cima, ou seja, no coração da pobreza. E pobre, que fique bem claro, não quer dizer bandido. Boa parte de seus moradores são trabalhadores que ganham salários miseráveis e são o motor da cidade. São mão-de-obra barata que permite que se tenha vários atendentes por detrás dos balcões ou alguns trabalhadores domésticos em casa. No fundo, são triplamente vitimizados: por não ter um tostão e arcar com os trabalhos os mais ingratos, por sofrer a violência de traficantes e policiais, e por ter que levar a estampa de “favelados”, ou seja, os que moram na favela.

Viver é muito perigoso, dizia o escritor e diplomata brasileiro  Guimarães Rosa. No Rio de Janeiro, ajuntaria qualquer carioca acostumado a lidar com a insegurança do dia-a-dia, é ainda mais. Em mil dias, registrou-se mais de 20.000 assassinatos, segundo a ONG Rio de Paz, que assegura que entre Janeiro de 2007 e Setembro de 2009, morreram 20 fluminenses (nome dado aos habitantes do estado do Rio de Janeiro) por dia.

Os dados, extraídos das estatísticas do Instituto de Segurança Pública, apresentam 16.310 homicídios, 3.272 falecidos em confrontos com a polícia, 589 vítimas de roubo assassinadas, 84 agentes mortos em serviço… Total: 22.250 pessoas enterradas em um estado de 15.5 milhões de habitantes, dos quais uns seis milhões vivem na capital. Uma parte siginficativa destes, em habitações precárias distribuídas entre as quase mil favelas existentes, duzentas mais que cinco anos antes, segundo dados do Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos.

Da prisão à favela

Muitas destas vítimas são danos colaterais de uma guerra (civil) entre narcostraficantes, a polícia e as milícias. Os primeiros, controlam as drogas. Há três facções, que perderam poder e sofreram rachas, lutando hoje para controlar seus territórios: Terceiro Comando, Amigos dos Amigos e Comando Vermelho, a organização criminal pioneira, nascida nos anos 70 na prisão de  Cândido Mendes. Ali estiveram juntos presos comuns e presos políticos, condenados por enfrentar a ditadura militar de 1964. Destes, os criminosos aprenderam a ser solidários para fazer frente aos abusos carcerários e às duríssimas condições de vida entre as grades, mas também aprenderam táticas guerilheiras que puseram em prática, uma vez fora da prisão, durante os assaltos a bancos. O contato com os condenados esquerdistas lhes inoculou, digamos, uma certa consciência de classe e os profissionalizou no crime.

Uma vez instalada nas favelas, a máfia carcerária começou a traficar drogas, servindo-se de jovens que atuavam como vigilantes, vendedores e soldados. Alguns caíam, e outros vinham para substituí-los. Como comentou Antonio Carlos Costa, da Rio de Paz, há “milhares de jovens  pobres, sem escolaridade, sem uma referência paterna, com uma demanda enorme de autoestima e prontos para ocupar os postods deixados por seus companheiros assassinados”. A escalada da violência levou o Complexo do Alemão, uma das zonas mais conflituosas da cidade, a ser rebatizado com o nome de “Faixa de Gaza”. E as semelhanças com os territórios palestinos não terminam aqui, uma vez que o governo do estado anunciou ano passado, com a desculpa de proteger o meio-ambiente, a construção de muros altos em volta das favelas Dona Marta, Rocinha, e de outras favelas da zona sul, perto de bairros de classe média e alta.

Longe das bocas de fumo, denominação dada aos pontos de venda de drogas nos morros,  a delinqüência se instala à vontade nas ruas da cidade: assaltos, seqüestros-relâmpago e arrastões, uma técnica de roubo coletivo praticada por vários bandidos que deixam sem dinheiro os que estão nas praias, em seu edifício ou em um local público. No entanto, no que toca à criminalidade organizada, os especialistas minimizam a importância dos traficantes, dando mais ênfase às milícias, formadas por policiais da ativa e aposentados, bombeiros, militares, carcereiros e, nos bastidores, por políticos que apoiam a estes grupos paramilitares, como demonstrou uma investigação parlamentar que colocou em evidência as ligações perigosas de vereadores e deputados do estado.

O imposto revolucionário das milícias

A redução dos ganhos no tráfico de drogas propiciou que os policiais corruptos que antes extorquiam dinheiro aos narcotraficantes em troca de fazer vista grossa, passassem a controlar diretamente as favelas. Assim, seu objetivo foi deslocar os traficantes de seus bastiões e extorquir seus moradores, gente comum, cobrando-lhes um imposto revolucionário por uma suposta proteção, e taxas abusivas por serviços e artigos de uso cotidiano: gás, eletricidade, transporte, televisão a cabo…

“O grande problema do Rio foi o tráfico de drogas. Hoje o tráfico está em declínio e foi substituído pelas milícias. Os milicianos matem os traficantes, escondem os corpos e ninguém os denuncia”, explica Luiz Eduardo Soares, ex-secretário nacional de Segurança Pública do Brasil, que sustenta que ainda não exploraram a fundo o filão das drogas devido ao suculento lucro que obtêm de seus negócios em bairros pobres, onde também “controlam os eleitores, negociam seus votos com os políticos e inclusive se tornam seus candidatos”. As milícias, como a Liga da Justiça ou o Comando Chico Bala, chegaram a dominar cerca de 200 favelas, sua maioria na Zona Oeste do Rio. E os nomes cinematográficos de seus líderes (Batman, Popeye…) são os substitutos dos de Fernandinho Beira-Mar e Marcinho VP, personagens históricas do Comando Vermelho.

Con os antigos cabeças mortos ou presos, as novas gerações de traficantes também sofrem os efeitos da crise econômica, da aparição de drogas sintéticas que evitam a passagem pelos morros e do auge de outras drogas baratas como o crack, o que se traduz em menores margens de lucro e menores remunerações para seus vendedores. Por quê, então, a carreira de traficante continua  sendo tão atrativa para um garoto, mesmo com todos os problemas econômicos e familiares?

FOTOS: SERGIO MORAES / REUTERS

A pesquisa “Meninos do Rio: jovens, violência armada e polícia nas favelas cariocas”, feita pela UNICEF, revela que a culpa é das chamadas “Marias-fuzil”: garotas da favela e inclusive de outras camadas sociais, apaixonadas por bailes funk, que sentem uma irresistível atração pelos homens armados. Assim, a sensação de poder e a certeza de ter várias mulheres na palma da mão converte-se na isca que faz com que os peixes sigam mordendo o anzol.  “O garoto não tem nada… Não tem onde cair morto”, confessou uma mãe a um dos autores do estudo. “Mas, sabe quantas mulheres tem? Quantas quiser. Dependendo da arma, tem ainda mais mulheres”.

Operação limpeza

Este mundo paralelo e indomado está situado na cidade que sediará a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos. Luiz Eduardo Soares crê, no entanto, que tudo se passará com normalidade. “Temos que considerar o passado. Houve acontecimentos que exigiram um forte deslocamento das forças da ordem, e nada aconteceu. Nosso problema está no dia-a-dia, não nos grandes eventos”.

Assim, o Papa João Paulo II visitou a cidade sem nenhum incidente, com a ajuda de um trabalho sujo prévio das esquadras policiais de elite (BOPE), que limparam a zona próxima à casa do arcebispo: 30 mortos e 30 detidos. Michael Jackson filmou o videoclip “They Don’t Care About Us” na favela Dona Marta, sob as bênçãos do traficante Marcinho VP, que garantiu a segurança do Rei do Pop durante as gravações. E, mais recentemente, os Jogos Panamericanos de 2007 transcorreram sem nenhuma surpresa, ainda que tenham sido apelidados de Pandemônio, devido à brutal intervenção prévia da Polícia Militar no Complexo do Alemão, com um saldo de quase trinta mortos.

O fato de a letalidade policial aumentar antes de grandes eventos, foi reconhecido pelo minstro de justiça, Telles Barreto, que clama por forças da ordem mais preparadas, enquanto outros políticos de alto escalão, como o responsável pela Secretaria Nacional de Segurança Pública, foram mais explícitos ao recusar a “tese estúpida” da equivalência bélica. “Os bandidos não têm senso de moralidade, mas nós somos obrigados a tê-lo. A insistência pelo fuzil é um problema de complexo fálico”.

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