Molly Malone

Publico abaixo a tradução de um texto de Santiago Niño Becerra, economista crítico e autor de um livro muito esclarecedor, que estou lendo a passo de tartaruga por excesso de trabalho: “El crash de 2010”. Boa leitura a todos.

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Molly Malone

por Santiago Niño Becerra

Existe uma lei, desde que o mundo é mundo, formulada de mil e uma maneiras e adaptada a mais de um milhão de situações. A idéia é bastante simples: “O passado sempre cobra a conta”.  Curiosamente, esta idéia não foi muito utilizada na Economia, possivelmente por causa daquele princípio que há que se olhar sempre à frente, o que é correto. No entanto, o passado nos mostra facetas que podem ajudar, e muito, a entender o presente… e a preparar-nos um pouco melhor para o futuro. Certo, certo: a crise sistêmica que desencadeamos criará muitos novos conceitos, mas as coisas do passado estarão sempre aí: esperando.

Já se começa a falar abertamente em “crise do Euro”. Uma das características que temos, os humanos, é a de esquecermos do passado com espantosa facilidade. O Euro nasceu de uma situação que já era crítica: todos os que podiam ser admitidos na primeira onda o foram. O foram, porque era politicamente necessário: teria havido credibilidade para uma zona do Euro limitada à área do Marco? Essa foi a razão com a qual se acenou, mas foi ela a única?

À época, não se lhes chamava por este nome mas, revendo o passado eles já estavam ali: nenhum membro dos PIIGS figurava nas listas que circularam nos meses anteriores ao nascimento do Euro (a Itália, sim, já aparecia em algumas). O P, o primeiro I e o G eram economias pequenas, o S era bastante maior e, todas juntas, constituíam um volume considerável, um volume que ajudava a formar uma massa crítica respeitável, uma massa que trazia a vantagem da voluminosidade: quanto maior, mais difícil de atacar. Trazia algo mais: a possibilidade de fazer negócios abundantes, bancos-moradias e escritórios-consumo. Uau! Como deixar passar tal oportunidade?

Sim, sim, a Irlanda carecia de estruturas bancárias potentes, a produtividade espanhola era ridícula, Portugal se encontrava super-conectada com a Espanha, a Grécia era fraca, e todos dependiam do exterior. Deu-se um crédito de longo prazo aos PIIGS (mas não apenas a eles: se fizermos uma análise a nível regional, aparecerão regiões de países cuja presença no Euro seria bastante questionavel, mas então ninguém pensava em termos regionais), entretanto, o problema dos créditos é que precisam ser pagos. Agora o Euro está em crise, e acusa-se Frau Merkel de querer ser demasiado dura.

Creio que o que a Alemanha quer é algo que deveria ter nascido associado ao Euro: se alguém quer investir em algo, seja no que for, deve ser responsável pelas conseqüências e pela evolução de seu investimento. O que acontece é que se essa norma tivesse acompanhado a moeda única, ou não se teria levado a cabo os negócios que se efetuaram à sua sombra, ou seu volume teria sido muito menor.

Agora o passado já não é mais possível porque o ontem já se foi. O Euro nasceu como evolução lógica daquele Tratado de Roma que buscou a paz através dos negócios – ou terá sido o contrário? – e quando a situação foi propícia, chegou a moeda única da qual todos tinham que ter parte na paternidade, ou na maternidade, tanto faz, a fim de ganhar credibilidade (pois é: antes falei em “massa crítica”: há alguma diferença?). Mas o tempo acabou colocando as coisas em seus devidos lugares: nem todos eram pais de verdade. Assim, quando passou a euforia, quando se acenderam as luzes, os diferentes ambientes do salão se manifestaram: o salão inteiro está arranhado e é antiquado, mas algumas zonas se encontram mais sebosas que outras.

Os Men in Black já estão em Dublin. Talvez passen em frente à estátua de Molly Malone e tomem uma Guinness em algum pub de Nassau Street antes de colocar diante do governo irlandês os papéis do plano de ajuste que terão que assinar. Como se faz para reduzir um déficit de 32% do PIB? Como se explica a toda uma população colonizada de uma maneira ou de outra desde o século XII, que lhes esperam décadas de penúria para pagar o falso bem-estar de que gozaram nos últimos dez anos?

Sim, a crise afeta a todos: é sistêmica, é pós-global, mas afeta mais a uns que ao resto, como sempre acontece. Entre os fundos injetados pelo Estado em instituições financeiras com existência assistida, os cortes orçamentários já feitos e os que serão feitos, as ajudas que receberão da UE e do FMI, entre os ativos de valor nulo que o Estado adquiriu, os avais e todo o resto, cada irlandesa e cada irlandês deverão, ou não receberão,  115.000 Euros. Pior: os bebês que nascem neste momento no Hospital St. James também serão devedores.

A pergunta que hoje muitas irlandesas e muitos irlandeses estão se fazendo é: “Valeu a pena?”. Valeu a pena meter-se nesta história para ter uma casa que agora não podem pagar, para ter um centro comercial no qual nada podem comprar porque seu emprego já não existe ou estará a perigo, para ter umas ruas recém-pavimentadas com lajotas de cimento que ninguém poderá reparar quando se quebrarem? Estas irlandesas, estes irlandeses, agora se perguntam por que se meteram nessa, por que têm que dar dinheiro a bancos que nada mais lhes dão. Ok, não sabem nada de Economia, mas como se explica tudo isso à garçonete tão risonha que me atendeu no Flanagan’s Steakhouse de Ballina?

Molly Malone, a canção: parece a história desta história.

In Dublin’s Fair City

Where the girls are so pretty

I first set my eyes on sweet Molly Malone.

She died of a fever

And no one could save her

And that was the end of sweet Molly Malone.*

O pior de tudo é que nem a Irlanda, nem ninguém, tinha alternativa: alguns, os que possibilitam que o PIB seja criado, decidiram por todos e a evolução das coisas se encarregou do resto. Ok, nós que entendemos de tudo, entendemos isto. Mas, e os demais?

Santiago Niño-Becerra. Catedrático de Estrutura Econômica. Facultad de Economía IQS. Universidad Ramon Llull.

Texto originalmente publicado no site Capital Bolsa.

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Na Bela Cidade de Dublin
Onde as mulheres são tão bonitas
Pousei meus olhos pela primeira vez sobre a doce Molly Malone.
Ela morreu de uma febre
E ninguém pôde salvá-la
E este foi o fim da doce Molly Malone.

In Dublin’s Fair City

Where the girls are so pretty

I first set my eyes on sweet Molly Malone.

She died of a fever

And no one could save her

And that was the end of sweet Molly Malone.

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Uma resposta para Molly Malone

  1. nanaelsoubaim disse:

    É a pura verdade. Decerto que não se pode deixar Fräu Merkel totalmente à vontade, ou ela mete uma vara de marmeleira no traseiro de todo mundo, mas deveriam tê-la ouvido desde o começo. Economias dependentes de mercados externos, um pouco como a nossa, não podem esbanjar capital de giro.

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