Muito mais esperta que a maioria dos ursos

 

A grande mídia e seu “furo de reportagem”

Eu não ia escrever sobre a retomada do complexo do Alemão, mas subitamente dei-me conta de um aspecto muito interessante sobre a participação da mídia neste episódio. E isto me fez mudar completamente a idéia que tinha sobre a PM do Rio.

A grande mídia brasileira é sangrenta. Quer ver chafarizes de sangue de pobre subindo em todo esplendor, qual Fontana di Trevi Tupiniquim. Para isso, fará de tudo – inclusive, se puder, colocar em risco as operações de retomada dos morros do Rio.

Não me entendam mal, não é que eu ache que eles vão fazer isso pensando “ahhhh, agora sim, vamos estragar toda a operação”. Não acho que, apesar de a grande mídia ter mostrado sua verdadeira cara em todo o detalhe com esta eleição, promovendo um candidato que é maquiavelicamente pró-quanto-pior-melhor, que eles fossem fazer isto, para depois ficar como carpideiras, de nhé-nhé-nhé sobre “como-a-operação-deu-errado-por-causa-da-inépcia-de-um-governo-estadual-que-é-aliado-de- Lula-e-aí-reside-todo-o-problema”.  Não, não serei tão maniqueísta. Eles o fariam, sim, mas – o que é fatal para qualquer um que se pretenda formador de opinião – sem pensar no que estão fazendo, e muito menos ponderando suas conseqüências.

Com os grandes avanços tecnológicos que temos a nossa disposição, a manipulação da informação se tornou peça chave para ganhar uma guerra. Hoje, qualquer informação que esteja pairando, verdadeira ou não, se dissemina com uma velocidade espantosa. Me apaixonei pelo Twitter como meio de disseminação de informações relevantes, e fico permanentemente assombrado com a velocidade e a eficiência na disseminação das mesmas. A TV, aproveitando-se dos mesmos avanços tecnológicos de que se aproveita o Twitter – a alta capacidade de transmissão de dados – hoje transmite tudo ao vivo, via internet, tranquilamente. Nada mais natural que queiram aproveitar-se desta vantagem, que não existia há um par de décadas atrás, e suprir-nos com toda a informação possível e imaginável. O problema é quando a imprensa o faz sem escrúpulos, como se tentou fazer na retomada do Complexo do Alemão.

Ontem, acompanhando a Globo News, que estava fazendo uma cobertura muito completa ao vivo do evento, fiquei indignado com uma parte. Nela, mostrava-se um fogo em um comércio justo no local que a PM tinha determinado como ponto de rendição dos traficantes. Durante todo o dia, a GN e provavelmente outros canais transmitiram à exaustão as ordens da PM para que os traficantes se rendessem até o anoitecer, após o que o Complexo “seria invadido a qualquer momento”. Intercalado com estas ordens, a GN perguntava aos PMs quais os equipamentos: “tem NightVision?”. E a PM respondia: tem, sim sinhô. Tem NightVision, tem tanque, tem armamento pesado, nós vamos passar como um rolo compressor blindado, os traficas que se cuidem. No Twitter, estávamos angustiados com a possibilidade de que a retomada do Complexo do Alemão ocorresse à noite, o que seria uma chacina.

Voltando à transmissão ao vivo. Quando o fogo começou no estabelecimento comercial da Av. Itararé, a GN apressou-se em mostrá-lo. Até aí, nada de demais, o fogo poderia ser uma tentativa de distrair a atenção dos soldados que estavam ali, alertíssimos, prontos para atirar pesadamente. O que me deixou indignado foi o câmera atravessar a rua para mostrar que havia soldados escondidos em uma casinha na subida da entrada da favela. Aquilo me pareceu um absurdo: então toda a estratégia seria desnudada assim? Se eu posso ver a GN via internet, os traficantes também não poderiam assistir pela TV via satélite? Hoje pela manhã, uma amiga que também perdeu a transmissão da retomada, tuitou: “Entendo NADA do assunto, mas faz sentido o cel da PM dar tanta informação detalhada na TV do que eles pretendem fazer?”

Foi aí que me deu o estalo. A PM estava soltando apenas as informações que queriam que chegassem ao público das redes de rádio e TV – e contavam, entre estes espectadores, os traficantes. Do mesmo jeito que nós estávamos apreensivos sobre a possibilidade de uma invasão noturna – pela menção dos NightVisions e pela incerteza do momento da retomada – os traficantes também ficaram. Ficaram, e o resultado desse nervosismo foram as saraivadas de tiros em direção aos militares de plantão, retuitadas pelos meninos do @vozdacomunidade que estavam em lan houses do Complexo, com uma cobertura ainda melhor que a dos repórteres.

Se dão conta do que aconteceu? A PM usou a mídia como massa de manobra! Por uma vez, não foi a mídia quem manipulou os fatos, foi a PM quem – brilhantemente – manipulou a sede de sangue da mídia a seu completo favor. Depois deste episódio, quem achava que a PM não tinha inteligência, que era simples e pura truculência, vai ter que rever seus conceitos. A Ivana Bentes tuitou que essa invasão foi uma mudança de conceitos, de paradigma, na atuação da PM, mas não sei se ela se referia especialmente a esse aspecto. De qualquer modo, concordo com ela, e concordo também com o Cabral: esse evento foi um marco na história do Rio de Janeiro, um divisor de águas, por diversas razões.

Meus sinceros parabéns e manifestação de admiração pelo brilhantismo da PM, que aparentemente agiu sem derramar (muito?) sangue de inocentes e dentro do estado de direito, através do uso maquiavélico, no bom sentido que a palavra possa ter, das informações. A PM mostrou ser muito mais esperta que a maioria dos ursos de microfones e câmeras na mão que estão por aí.

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