Dirceu, Veja, Ley de Medios: Murdoch coloca Dilma numa sinuca de bico?

Faz tempo que não escrevo aqui no blog. Ando extremamente ocupado com a preparação para um concurso para professor, e com o encerramento dos trabalhos do meu pós-doc aqui na Espanha. A volta para meu amado Brasil, de onde tantas saudades tenho, tem consumido uma energia tremenda.

Agora, vem essa palhaçada da Veja, plantando provas (?) de corrupção no Zé Dirceu. Hoje, numa pausa em minha preparação para o concurso, resolvi dar uma lida no que a blogosfera está dizendo. Entrei no Blog da Cidadania, do Eduardo Guimarães, um que eu gosto muito, mas andei sem ler por bastante tempo. E me entristeci, ao mesmo tempo em que li bastantes coisas que me fizeram pensar.

Me entristeceu a fúria com que o Edu se lança contra os movimentos que surgem no Facebook (no último parágrafo deste post), ainda que insuflados pela mídia, golpista sim, que temos. Fúria, ainda que condensada em poucas linhas, ao compará-los ao movimento “Cansei”. Qual o problema de a população se manifestar? Para mim, o problema não é a população se manifestar, ainda que o faça como inocente massa de manobra. Que a mídia insufle e encoraje com suas intenções desestabilizadoras, aí sim, é que está o xis da questão. E que a população embarque no “Cansei” midiático, de verdade que não me surpreende. Desde que voltamos a ter uma democracia no país, na eleição de 1989, que esperamos mudanças. E já vão 21 anos, mais que o tempo de uma geração atingir maioridade civil.

É claro que vinte anos não são absolutamente nada, em uma escala histórica. Mas a percepção atual do passar do tempo, com seu ritmo alucinado de videoclipe, com isto de que tudo tenha que ser realizado ao mesmo tempo, aqui, agora e para ontem, não é essa. Talvez a coisa seja potencializada ainda mais intensamente pelo ritmo em que se perceberam as mudanças na situação econômica do país, na ascensão da classe pobre para a classe média. Pensem bem, foi em oito anos que se criaram mais de dez milhões de empregos formais, que 31 milhões de pessoas saíram da condição de pobreza absoluta e 24 outros milhões, ascenderam à classe média. Foi uma disparada nunca dantes vista nesse país, o que valeu a Lula o cognome dado por Paulo Henrique Amorim. A gente sentiu o gostinho de uma mudança acelerada, e agora, quer mais mudanças no mesmo ritmo – mas em outra área, a da corrupção.

E é aí que entra o caso Dirceu/Veja e o caso Jaqueline Roriz. Caso Jaqueline Roriz, antes do caso Dirceu/Veja. Há uma onda de moralização? Sim, há. Promovida pela grande mídia? Sim, nacional e internacional: a nacional, a gente está careca de conhecer, nossos queridos PIGuentos (é impressionante a influência do PHA na alcunhagem das figurinhas fáceis). Na parte internacional, em particular, com a ajuda desse golpista internacional do Juan Arias, que boas intenções, não tem nenhuma. É ruim que haja uma onda de moralização? É, e ao mesmo tempo, não é.

O Paulo Kliass escreve, em artigo recente no Carta Maior, sobre a tradicional cordialidade do povo brasileiro, que tende a se tornar quase uma passividade submissa. Pois bem, é claro que haverá um elemento catalisador para que eclodam protestos, seja pelo assunto que for – neste caso, a corrupção na política. Que este elemento catalisador tenha sido nossa imprensa golpista é muito mau, pois sua agenda oculta (para usar um eufemismo, pois nem os cegos são enganados pelos jornalecos) é a desestabilização do governo. Mas, ao mesmo tempo, é bom que comecemos a exprimir esta indignação, este desgosto com a corrupção, de maneira mais objetiva. Que nossa cordialidade deixe de ser esta passividade, esta submissão ao “foi Deus quem quis assim”, isso é maravilhoso. Ruim vai ser é se o movimento, que tem tudo para se tornar um movimento de fiscalização, arrefecer. Ruim vai ser é se o governo amolecer no combate à corrupção como resposta corretiva ao ímpeto exagerado do movimento inicial.

O Eduardo, em um de seus posts, diz: “O PT até parece ter ouvido os alertas que foram feitos neste blog sobre o novo Cansei que se desenha e germina como efeito do alarde midiático sobre corrupção exclusivamente no governo do PT e que esse governo, da forma como vem agindo, admite que existe.” Não consigo determinar exatamente o tom que o Eduardo quer dar a esta frase, que me deixa um pouco em dúvida se ele está dizendo que é mau que o governo admita que existe corrupção, sim, no seio de um governo recém-formado – coisa que eu estranharia imensamente, vindo dele. Como leitor do Blog da Cidadania, tenho todo o motivo do mundo para achar que não é isso, mas não custa nada alertar: não é prejudicial para o governo Dilma que admita que há corrupção em suas fileiras. E também, não sejamos tão paternalistas e condescendentes com a capacidade de compreensão do povo brasileiro: o que está havendo aqui – por parte do povo que protesta, que fique bem claro – é a cobrança do motivo por que votos foram dados a Dilma, e não o sentimento de que a corrupção só existiu no governo do PT. Dada toda a situação de acomodação de pressões para a nomeação de ministros e cargos, é natural que haja corruptos – houve no governo Lula, como também os houve no governo FHC, e sempre os haverá. A questão aqui é se o governo vai ser leniente com a corrupção.

O governo Dilma, ao que parece, dorme no ponto em muitos aspectos da vida política, que a blogosfera cansa de apontar. A aproximação de Dilma ao PIG, sua lua-de-mel quase desesperadora para os que a elegemos (não custa nada lembrar: por duas vezes, viajei de avião a Madrid para poder votar em Dilma, voltando de trem em uma viagem de cinco horas), e com a mesma imprensa que foi aliada do regime militar que brutalmente reprimiu a ela e a seus companheiros de luta, foi um movimento de intensidade maior que a necessária. Bastaria que houvesse uma relação respeitosa com a imprensa mas, aparentemente mal-assessorada e esquecida de sua militância, Dilma, por um tempo, foi seduzida pelo canto da sereia. Até hoje não engulo o discurso super elogioso de Dilma no aniversário da Folha.

E quase que Dilma foi seduzida novamente pela imprensa, desta vez, pelos louvores que lhe foram dedicados ao dar atenção às denúncias de corrupção no governo. No início dessa série de denúncias, que lhe valeram a alcunha de “faxineira” (convenhamos: no imaginário popular brasileiro, “faxineira” evoca a “tia da limpeza”, que é uma das figuras menos consideradas da face da terra. Mais uma maneira de denegrir Dilma com um insulto disfarçado de elogio), Dilma lançou-se com ímpeto. Até que pecebeu a armadilha que se delineava, as denúncias mais e mais frequentes de corrupção que ela, ao que parecia, estava inclinada a resolver sem pestanejar – e sem a menor discriminação entre o que era grampo sem áudio de Veja, e o que era denúncia de verdade. Juro que cheguei a pensar: “mas, se Dilma vai realmente afastar todo mundo que for colocado sob suspeita, não vai sobrar um, pois denúncia falsa, não vai faltar”. Felizmente, o governo percebeu o que estava acontecendo e freou o caminhão desgovernado que ameçava tornar-se. O problema é que o fez um pouco tarde: a imprensa foi hábil em acelerar a fermentação desse sentimento no coração do povo, apresentando-se como o Dom Quixote que investia contra gigantes muito reais.

Alguém duvida que seja mentira que, como noticia o Globo (confiando que a reprodução de sua notícia no Blog da Cidadania seja fiel – e não há nenhuma razão para não crer nisto), “No Facebook, a ‘Marcha Contra a Corrupção em Brasília’ conseguiu metade das 11 mil adesões, somente nos dois dias seguintes à absolvição de Jaqueline. Já na página do movimento ‘Reação contra a Corrupção – O Brasil de Luto’ , cerca de duas mil pessoas confirmaram presença logo após a decisão da Câmara”? O Globo não é um jornal confiável, mas acho perfeitamente lógico que algo assim aconteça, em vista do triste espetáculo de corrupção que o Congresso acaba de encenar com base em frágeis e inconsistentes argumentos jurídicos. E aqui é o fato que acho importante: se esses movimentos realmente ganharam força, foi muito mais com essa decisão absurda e imoral do Congresso, de absolver uma sabida receptora de dinheiro ilegal. Em termos simples, foi a absolvição de uma criminosa, pois corrupção e receptação de dinheiro ilegal são crimes, independentemente de se ter um mandato ou não.

É por isso que me entristeci com o desabafo do Eduardo Guimarães: pode-se até argumentar que o público que tem acesso ao Facebook é majoritariamente de classes mais abastadas (o que tenho para mim que seja muito menos verdadeiro do que se supõe e, desde já digo, não foi o que disse o Edu, mas vai ter gente que vai usar isso pra desqualificar os movimentos citados anteriormente), para justificar a analogia com o Cansei; pode-se argumentar que a maioria das pessoas que estão embarcando nessa sejam massa de manobra enganada pelos PIGuentos. Pode-se utilizar o argumento que for, mas não vale fazer como touro bravo, que não distingue nada à sua frente, e dizer que todo mundo que simpatiza com esse movimento seja um “novo cansado”. Mesmo porque, acho improvável que sete mil pessoas, que aderiram à “Marcha contra a Corrupção” e ao “Brasil em luto”, o tenham feito simplesmente por uma hábil manipulação alheia. É uma indignação justa, sincera, e o protesto é mais que apropriado, ainda mais após o ato vergonhoso de absolvição de Jaqueline Roriz.

Não me preocupa a possibilidade de os movimentos anti-corrupção acabarem desestabilizando o governo Dilma. A presidenta, como já disse anteriormente, parece já ter acordado para o fato de que estava sendo feita títere de uma imprensa que queria poder cortar suas cordinhas – ou que, pelo menos, é o que a imprensa PIGuenta queria fazer. O caso de Zé Dirceu e Veja, para mim, é muito mais preocupante que o caso da marcha contra a corrupção e movimentos afins. Posso estar sendo teórico de conspiração aqui, mas me parece muito mais uma armadilha maquiavélica que a “faxina Janista” que queriam induzir mi presidenta a fazer.

O Eduardo Guimarães diz no Blog que “A melhor coisa que poderia ter acontecido ao Brasil foi a Veja ousar tanto quanto ousou em seus delírios de poder“. Concordo quase que plenamente. É interessante sim, na medida em que mostra do quão capaz a Veja pode ser, de efetuar ações Murdochianas. No entanto, me parecia muito estranho esse movimento quase kamikaze da Veja. Um tiro no pé não sai assim, pelo menos, não com esse nível de patetice. Desde o famigerado caso da bolinha de papel de Padim Pade Cerra (olha o PHA aí de novo…) que se sabe que a blogosfera é rápida em desmascarar fraudes, e é claro, não tardou nem dois dias para que se concluísse que as imagens publicadas na Veja não tinham qualidade de câmera de circuito interno – eram muito melhores e, portanto, deviam ter sido captadas com aparelhos completamente ilegais.

Também não demorou para que José Dirceu fizesse aparições em público divulgando o caso – que foi conveniente e solenemente ignorado pela grande imprensa cúmplice e conivente. Claro que Dirceu fez a coisa certa: sua auto-defesa é estritamente necessária, e a estratégia parece ter dado certo. As redes sociais também se manifestaram em massa e, é claro, voltam as demandas pela Ley de Medios (PHA!!!!), que o ministro Paulo Bernardo (o poltrão, em minha opinião) engavetou, com medo do PIG. Eu mesmo, no meu Facebook, pedi que a Ley de Medios fosse posta em vigor. No seu post sobre o assunto no Blog da Cidadania, o Eduardo diz: “Se mesmo com a comprovação cabal de que a imprensa brasileira comete crimes iguais ou piores do que os da britânica o governo Dilma não enviar de uma vez ao Congresso um projeto de lei de regulação da mídia, haverá uma crise institucional no Brasil. E todos nós sabemos como sempre acabaram as crises institucionais neste país.”

Concordo. Há que se estabelecer um mecanismo para que este tipo de crime não passe em brancas nuvens. Mas, agora, exponho minha teoria: Veja está criando uma crise para o governo, mais ou menos nos mesmos moldes que Jobim fez. E me parece que a revista-esgoto está por colocar o governo numa sinuca. O que me leva a concluir isto é a cobertura que se está dando às reações ao caso, sem a devida exposição aos fatos que lhes causaram. Vejam a cobertura dos jornais sobre o congresso do PT: são unânimes em destacar que o governo parece ter acordado para o fato de que a mídia golpista não dorme, que são escorpiões prontos a picar sua jugular na primeira oportunidade. A Folha nos diz que “Os petistas protestam contra reportagem da revista ‘Veja’ que, há uma semana, relatou encontros de Dirceu com ministros de Dilma e o acusou de ter conspirado pela queda do ex-ministro Antonio Palocci (Casa Civil)”. Em outra reportagem, o título já antecipa a estratégia de guerra: “Presidente do PT diz que mídia tolhe a democracia”. Já dentro do texto, expõe o assunto mais completamente (desmentindo seu título, como de hábito), mas colocando-o como uma ameaça comunista velada: “O petista [Rui Falcão], que mais cedo havia reclamado do tratamento da mídia aos escândalos de corrupção no governo Dilma Rousseff, afirmou que o ‘domínio midiático por alguns grupos econômicos tolhe a democracia.'”. Provavelmente apenas o Professor Hariovaldo de Almeida Prado escreveria melhor.

Na MPB FM, que é uma ótima rádio em termos musicais, mas uma PIGuenta de marca maior quando se trata de dar notícias, fez-se questão de tratar a Presidenta como “a petista”, caracterização que não lembro ter sido feita até agora. E depois, voltam a bater na tecla de que Lula e o PT estão, mais uma vez, atacando a imprensa. Ora, se a Presidenta é petista e o PT está atacando a imprensa; se a presidenta diz que ela e Lula são um só, e que os erros e acertos (claro que a palavra “erros” virá antes da palavra “acertos”) de Lula são os seus; então a conclusão óbvia é…? Pra bom entendedor, meia palavra (mal-impressa) basta.

Aliás, nestas meias-palavras da imprensa, há mensagem e meia, Alberto Dines já alerta para o resto do plano de batalha:

“Caso o ministro Paulo Bernardo (Comunicações) fique insustentável, a presidente Dilma tem seu preferido: Franklin Martins”. (“Panorama Político”, O Globo, domingo, 28/8, pg. 2). Três linhas apenas, no pé da coluna. O suficiente, a mídia entenderá o recado.

E, perdoem a falta de informação, qual é a insustentabilidade do ministro Paulo Bernardo, o poltrão? O caso dos jatinhos? Seria muito conveniente para essa imprensa esperneante e chororona que Franklin voltasse. Com certeza, Franklin colocaria novemente na pauta, explicitamente, a Ley de Medios. Com a falta de informações que a grande imprensa dá ao caso Veja/Dirceu, seria fácil juntar, à massa do bolo, a “censura” de mais de 8.567.983,4 dias que supostamente sofre o Estadão, e “provar” que o governo era lobo em pele de cordeiro quando dizia que o barulho da imprensa livre era preferível ao silêncio das ditaduras.

Falando em Estadão, me ocorre de ir à página incial para ver sua cobertura sobre o tema. Qual minha não-surpresa ao ver as seguintes manchetes na página inicial: “Ministros defendem controle da imprensa em congresso do PT” ; “Dilma pede oito anos para governar o Brasil“, e “Por segurança de Dilma, PT barra militantes“. Como sempre, não basta ver a manchete, tem que olhar a matéria toda. Na primeira, ao clicar no link, o título se transforma em “Gilberto Carvalho defende regulamentação da imprensa”; para a segunda matéria, a metamorfose leva a “Dilma diz que erros e acertos são seus e de Lula, que pede 8 anos para a petista” (ou seja, é Lula quem pede os oito anos para Dilma, e não ela), e na terceira, vemos que “Para garantir a segurança da presidente Dilma Rousseff e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a polícia da Presidência da República só permitiu a entrada de 1.500 pessoas, público máximo que o lugar comporta sentados.”.

O problema de instituir uma Ley de Medios neste exato momento é que, se Dilma o faz, está instituída a revolta midiática e a gritaria de que um tsunami ditatorial que aniquilaria a imprensa “livre” no Brasil estaria em curso. Se não o faz, pode estar instituindo um clima de impunidade que deixa a imprensa de esgoto mais forte para implantar o vale-tudo na desinformação nossa de cada dia. Um impasse que lembra muito o que Jobim criou ao dar declarações completamente sem-noção a respeito dos “idiotas” no governo, e sobre seu apoio a Serra: se Dilma o despedisse, seria tachada de autoritária; se não, seria uma “fraca” e Jobim, um “forte”. É do maior interesse que o governo divulgue o caso o mais amplamente possível, e que a Polícia Federal investigue o caso e descubra como as imagens foram conseguidas. O problema vai ser como fazê-lo causando o menor dano possível.

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