Pensamentos soltos e desiludidos sobre o 15-M (ou: a ideologia em ritmo de videoclipe)

Uau, que surpresa mais agradável olhar as estatísticas de visitas do blog, que anda jogado às traças por causa de meus compromissos profissionais, e ver que mesmo sem escrever nada há – chutando, hein? – mais de um mês, há pelo menos quatro visitas por dia! Obrigado a quem visitou o site – ainda que, suspeito, isso seja muito mais um fenômeno devido ao Google que outra coisa. Ainda assim, é bom ver que tem gente que chega ao blog.

Agora, ao que interessa.

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Em Santander há uma rua, a Río de la Pila, onde há vários bares, e o público é relax, gente que não necessariamente é de esquerda, mas que tem uma certa onda boa. Gente menos centrada em aparências, em beleza, em roupas. Gente que está aberta a jogar um papinho fora, a jogar uma partida de totó, a falar besteira. E, de vez em quando, a debater algo um pouco mais sério.

Sábado estava em Río de la Pila com meu camarada Edgar, catalão perdido em Santander a pegar ondas na praia e educar crianças e adolescentes hiperativos. Edgar é um desses que tem uma certa facilidade em puxar papos com desconhecidas. A bem da verdade, com desconhecidas, principalmente. Em nosso bar preferido, conheceu duas catalãs muito simpáticas – obviamente, pelo idioma que falavam – e ficamos a papear, os quatro. Em um certo momento, surgiu o tema dos “indignados”, os que estão acampados nas praças espanholas, reivindicando mudanças.

Fiquei espantado com o espírito de derrota, com respeito ao tema. As duas meninas eram bastante jovens, provavelmente estavam em seus 25, 26 anos. Ou talvez eu é que esteja ficando, ou seja potencialmente há muito tempo, um desses velhos crianções, estilo Wood & Stock. Um desses que carrega consigo um pouco de ideologia que dura mais de cinco minutos, barrigudo, uma peça anacrônica onde 21 dias são uma eternidade.

21 dias, uma eternidade?

Sim, foi o que me disse a garota: que o fato de que os acampados estejam aí, resistindo por esse tempo tão longo (grifo meu), é algo im-pres-si-o-nan-te.

Mas, o que é esse tempo tão “longo”, frente às escalas de tempo históricas? Um soluço. Não, menos. Uma fração de piscar de olhos talvez seja mais apropriado. Mas, seja o tempo que seja, é muito curto. Mudanças históricas ocorrem em escalas de tempo longuíssimas, mas hoje, nossa escala de tempo está completamente mudada.

Um telefone celular toca, em dez minutos nos encontramos com alguém em quem nem pensávamos.

O Windows demora um pouco mais a iniciar? Ô saco. Vou mudar pro Linux. Por quê, porque é grátis? Não, que o Windows eu baixo pirata em meia hora, com minha banda larga. É que ouvi falar que o Linux inicia mais rápido.

Foto em filme? Não, obrigado, com o digital eu vejo na hora. Grão? De que, de areia?

Não sou contra a tecnologia, não. Mas esse imediatismo, essa coisa que não vai além de cinco centímetros, que não passa de cinco minutos, me agonia. Nos tira a identidade. Ainda que, ao precipitar movimentos como os da primavera árabe, precipita coisas que não devem ser precipitadas. E essa precipitação, justamente, debilita. Debilita o que? Tudo.

Paciência.

Constância.

Compreensão.

Perspectiva.

Infelizmente, me parece que tudo isso falta, em algum grau, ao 15-M. Talvez falte a boa parte de seus integrantes, e certamente falta a boa parte das pessoas que poderiam fazer parte do movimento. Se assim não fosse, por que viriam notícias de levante do acampamento justo da Puerta del Sol, depois de menos de um mês?

Eu tinha essa impressão de que o 15-M queria mudar alguma coisa, só não sabe direito o que. Há que mudar, mas o que? Olhando a página do movimento, não há um foco definido. Há coisas que nos indignam, com certeza, no dia a dia. Mas falta consistência. Falta foco.

Falta ideologia.

E, claro, sem foco, não há ideologia, pois tudo se torna efêmero, não há tempo para identificação, para individuação. Não há elaboração.

A multiplicidade de pontos de vista é saudável, é mesmo essencial, mas dentro de um certo ritmo. E o ritmo atual é o do videoclipe. É o foco curto – ou seria, ao contrário, o fora de foco constante?

O ritmo de videoclipe é reforçado não só pelo bombardeamento de imagens, de fatos, de informação, mas pela inconstância de certas câmeras. Hoje é muito popular um certo tipo de câmera que foi popularizado por um seriado que acho um lixo, o “24 horas”. Tem uma câmera nervosa, que não para, que está em constante movimento, que muda de foco, com zooms in e out rápidos. Muda de um lado para outro como giramos nossa cabeça ao ouvir um ruído estranho. É o tudoaomesmotempoaquiagorapraontem.

E talvez seja esse o problema do 15-M: ao ter muitos focos, nenhum é forte, todos são flous. Ao proclamar-se sem ideologia, automaticamente define-se como indefinido. Sem foco. Sem rumo, não se avança.

E por que se proclamam sem ideologia? Acaso é vergonha ter ideologia? Segundo o establishment, é. É anacrônico, é velho, é ultrapassado. Já não existe mais: hoje mesmo, na TV espanhola, mostrava-se um mapa da América Latina, colorido segundo seus governos. Segundo esse mapa, a América Latina é de esquerda – apenas Colômbia e Chile têm governos de direita (mas particularmente, acho muito questionável dizer que o governo do PT seja de esquerda. Sendo bonzinho com ele, o melhor que pode-se dizer é que está pouco menos indefinido quanto o 15-M – opinião desse hoje desiludido blogueiro). Obviamente, um dos jornalistas que debatiam sobre a diferença de rumos da América Latina – predominantemente de esquerda – com relação à Europa – cada vez mais de (ultra-)direita, redator do jormal mais reacionário e PIGuento da Espanha, o ABC, apressou-se em dizer: “Para mim já não há mais isso de esquerda e direita. O que se chama de esquerda são os populistas.”. Obviamente, sobre o que é a direita, guardou um expressivo silêncio.

Raulzito dizia: eu prefiro ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo. Nunca concordei muito com a canção. Sempre achei que só se devia levá-la a sério até um certo ponto, porque no momento em que nada mais é fixo e tudo é relativo – mas de modo disfarçado, insidioso, com algumas coisas muito mais relativas que outras – e não há mais referencial, é fácil manipular, ou pelo menos, é fácil manter o status quo sem ser tocado.

Enquanto o 15-M não se assumir como algo de concreto, com objetivos muito claros, fundamentados e com ações concretas, mas com paciência, perspectiva mais ampla e, principalmente, com uma visão de muito mais longo prazo, nada se conseguirá. Ao contrário, se pessoas que já estão desempregadas e que não têm mais nada a perder só conseguem agüentar no máximo um mês, aí é que os donos do status quo vão deitar e rolar. Saber que há a intenção de desmontar o acampamento de Sol me decepcionou profundamente, e espero que seja nada mais que uma informação dos PIGuentos daqui.

Nunca quis tanto estar errado a respeito de uma notícia.

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