Disseram que eu voltei Kryptonizado…

Quando eu era moleque, tinha vários amigos que adoravam quadrinhos de super-heróis. Tinha amigos que colecionavam as revistinhas, com pilhas e pilhas delas em seus armários. Posso exagerar, mas acho que alguns chegavam a ter mais de quinhentas edições, e de vários super-heróis diferentes. E o caras sabiam tudo sobre seus heróis favoritos, de onde veio, pra onde ia, o que fazia, sua identidade secreta, seu pior arqui-inimigo, e havia discussões acaloradas sobre o que tal super-herói deveria fazer quando seu arqui-inimigo fosse destruir a Terra, ou pusesse tal e tal pessoa em perigo… enfim, essas discussões que têm o poder de mudar o mundo, pelo menos aos 12 anos de idade.

Nunca fui fã de quadrinhos de super-herói, e por bastante tempo, não soube dizer por que. Os únicos que eu curtia um pouco mais eram os X-Men, o Thor (que, inclusive, vou ver no cinema) e o Surfista Prateado. Os X-Men eram mutantes, uma coisa indefinida que poder-se-ia considerar humanos ou não, dependendo do ponto de vista; tinham conflitos internos ao grupo e internos a eles mesmos. O Surfista lutava contra Galactor, que ia destruindo mundos, engolindo-os, enquanto sofria com a perda de sua amada e sua solidão. E o Thor, bom, tinha um aspecto épico que me encantava. Só depois de um certo tempo é que fui entender um pouco o por que: com eles, não havia identidades secretas, não estavam aí tentando se integrar ao mundo suprimindo sua verdadeira identidade, não escondiam o que eram. Wolverine era Wolverine, com ou sem uniforme. O Surfista era o Surfista, sem nem um uniforme a não ser sua sunga prateada, que se confundia com seu corpo e quase dava a impressão de que estava nu. O Thor, sim, era Donald Blake. Mas na época, eu já conhecia o bastante de mitologia nórdica para saber que Odin caminhava pela Terra disfarçado de mortal, e então sim, me parecia muito justificado que seu filho também o fizesse.

Na minha adolescência, com a “esquerdização” de minha personalidade, é que fui entender o resto: quadrinhos, como tudo, passam ideologia. E o problema não eram os quadrinhos passarem ideologia, pois tudo passa ideologia. O problema era passarem a ideologia que passavam, a de que os Estados Unidos (America is a continent, stupid) tinham as super-armas que salvariam o mundo de todas as ameaças, e pior, faria seu modo de vida prevalecer sobre todos os outros – porque era perfeito. Isso, para mim, sempre foi uma prova de arrogância e desrespeito à pluralidade de pontos de vista, de desprezo à diversidade. Até meus 20 e poucos anos, tinha ao mesmo tempo uma adimiração e desprezo pelos EUA que eram conflitantes e hoje, já não há mais conflito, pois considero os EUA um caso perdido ideologicamente, sem modo de mudar e de respeitar a pluralidade. Até por isso, fiquei surpreso e contentíssimo quando vi a notícia – que para mim foi uma bomba – de que o Super-Homem havia decidido renunciar à sua cidadania americana.

"I don't wanna stay here, I want to go back to Bahia", diz o Super-Homem

Na American Comics número 900, o Homem de Aço vai ao Irã mostrar solidariedade ao povo protestando contra Ahmadinejad. Por isso, tem que dar satisfações ao governo americano, em um encontro secreto com o Conselheiro Nacional de Segurança do Presidente dos EUA (na história, ele se chama Gabriel Wright). Segundo este agente, o medo é que o Super-Homem se tenha tornado um rogue, isto é, uma pessoa imprevisível, um fora-da-lei, por não cumprir com o alinhamento ideológico ao governo americano. (Muito na linha de que Chomsky nos chama a atenção em seu excelente livro “Rogue states: the rule of force in world affairs“, para como os EUA classificam os países desalinhados ideologicamente com eles, diga-se de passagem.) O texto do Super-Homem, depois da pergunta do agente do governo, é bastante ilustrativo do que o gesto significa, e o transcrevo (com tradução livre minha para o português e negrito nas partes que eu acho mais relevantes) abaixo:

GW: Portanto, vou perguntar uma vez mais: O que, em nome de Deus, você estava pensando quando voou para Teerã?

SH: Eu sigo os noticiários, como eu disse. E eu vi as notícias sobre os Iranianos protestando. Havia ocorrido violência na semana anterior. O regime de Ahmadinejad havia reagido de modo exagerado. Pessoas foram mortas. Alguns dos organizadores dos protestos… haviam desaparecido.

Aparentemente, os líderes dos protestos haviam usado sites de redes sociais para ajudar com a organização. E o governo havia estado espionando esses sites, de modo que sabiam quem iam prender – e onde estariam. O governo iraniano já tinha avisado ao público sobre aderir a mais protestos. Disseram que haveria repercussões sérias.

Mas estas pessoas – estudantes, comerciantes, mães, pais, crianças, – estavam colocando suas vidas em jogo apesar das ameaças. Eu queria que eles soubessem que não estavam sozinhas.

Como super-herói, como protetor de Metrópolis, lutei contra praticamente todas as ameças imagináveis: invasores alienígenas, déspotas viajantes no tempo, foras-da-lei com todo tipo de disfarce e truques que se possa conceber.

Sou bom em combater ameaças apocalípticas. Mas e as degradações que os humanos sofrem?

Morte por sede? Por fome? A negação de direitos humanos básicos? Nunca fui muito eficiente em acabar com coisas como estas. E eu quero ser.

Por isto, eu fui lá. Em solidariedade. Prometi a mim mesmo que não entraria diretamente no conflito. Não importa o que acontecesse. Era um ato de desobediência civil. Resistência não-violenta.

Fiquei na praça Azadi por vinte e quatro horas. Não me movi. Não falei. Só fiquei ali. Neste tempo, o número de manifestantes cresceu de uns 120.000 a mais de um milhão.

Algumas das pessoas jogaram rosas a meus pés. Outros jogaram faixas e bandeiras verdes, da cor de seu protesto. Opositores dos protestos me jogaram coquetéis molotov. Mas o exército dos guardiães da revolução islâmica não dispararam um único tiro. Os protestos começaram e terminaram pacificamente. Depois, após vinte e quatro horas, eu parti.

GW: Mas, adiantou de algo? O regime prometeu começar a instituir reformas democráticas?

SH: Não.

GW: E então, qual foi o propósito desse espetáculo? Seus atos criaram um incidente internacional. O governo iraniano está acusando você de agir em nome do Presidente. Eles estão chamando sua interferência de um ato de guerra.

SH: Sim, eu me dei conta. E é claro que você está certo. Foi tolo de minha parte… e é por isso que pretendo falar às Nações Unidas e informar a eles que renuncio à minha cidadania americana.

GW: O que?

SH: Estou cansado de ter minhas ações associadas a instrumentos da política dos EUA. “Verdade, justiça e o modo americano”… já não bastam mais. O mundo é pequeno demais. Conectado demais.

Quando eu olho para você, eu o vejo em todo o espectro. Posso ver os ácaros microscópicos que vivem nos seus cílios… A pinta pré-cancerosa em sua bochecha, que você provavelmente pensa que é somente uma pinta… O halo de radiação eletromagnética que vaza de seu smartphone…

Sou um estrangeiro, Sr. Wright. Nascido em um outro mundo. Não consigo evitar ver a coisa de um enfoque mais amplo. Tenho pensado pequeno demais. Me dou conta disso, agora.

Você me perguntou se meu espetáculo valeu a pena. Se ele resultou em alguma mudança significativa. Talvez não, em uma escala macroscópica. Mas, quando eu parti voando?

Eu olhei para baixo e vi algo. Dois homens. Um membro do exército da revolução islâmica e um manifestante. O manifestante estava entregando uma rosa ao soldado. Eu achei que o soldado ia atirar…

… mas, em vez disso, ele fez algo extremamente corajoso. [O desenho mostra o soldado de arma abaixada, aceitando a rosa do manifestante, N. T.]

Pode parecer pouca coisa, mas não é. Super-Homem? O bastião de proteção e divulgação do american way of life, pretendendo renunciar à sua cidadania americana? Isso tem implicações bastante fortes, minhas senhoras e meus senhores. E o texto é impressionantemente metafórico – às vezes, praticamente explícito.

Me parece que fica claro o reconhecimento da figura do Super-Homem como estando intimamente associada à política externa  americana. Pode parecer meio esquizofrênico que o Super-Homem não queira ser reconhecido como um instrumento da política externa americana, pois nesse mundo (do Super-Homem), a personagem passa a se reconhecer muito mais como poder, do que como poder dos Estados Unidos. Ele se destaca, em sua condição de personificação do poder, do país Estados Unidos da América. E, para os que reclamam que não é o Super-Homem quem tem cidadania americana, e sim, Clark Kent, basta lembrar que em uma história de 1974 0 Homem de Aço ganhou, da ONU, a cidadania de todos os países que faziam parte do órgão.

É o exemplo perfeito de reviravolta ideológica: em 1974, a mensagem era: “o american way of life é de todos os países membros da ONU. Agora, o american way of life está isolado. E claramente, o american way é muito bom para proteger o povo americano de todas as paranóias concebíveis e imagináveis, mas péssimo para resolver os reais problemas da humanidade”. Ao condenar a associação de sua personificação de poder da política externa, condena-se também o uso da força na resolução dos conflitos.

Mais que condenar a força na resolução de conflitos internacionais que, em princípio, não lhe dizem respeito, o Super-Homem condena a própria intervenção, usando Thoreau, Ralph Waldo Emerson e Gandhi como exemplos: “Desobediência civil” e “Resistência não-violenta”. Ao ir à Praça Azadi e ficar parado por vinte e quatro horas, o que o Homem de Aço está fazendo? Não apenas mostrando solidariedade, mas renunciando ao uso violento de seu poder. Mesmo que, na história, seja alvo de coquetéis molotov, lembremos que aqui temos uma dualidade nos elementos da história. Desse modo, a renúncia ao uso da força e o freio às ações de interferência se associam a um sentido de grandeza moral, que por conseqüência está completamente dissociado da grandeza física. Será que o Super-Homem está virando um trekkie?

Talvez o momento mais bonito do quadrinho seja o final, onde o Super-Homem reconhece que sua não-interferência gera mudanças quase imperceptíveis em uma escala macroscópica mas que, (e isso fica implícito de modo um pouco dúbio no quadrinho) em uma mirada mais refinada, podem gerar mudanças muito mais fortes que o intervencionismo. Pode gerar nações capazes de resolver seus próprios problemas levando em conta suas próprias especificidades e problemas – a rosa que o soldado aceita do manifestante. O quadrinho é riquíssimo – não toquei no fato de o Super-Homem dizer que é estrangeiro, e que como tal, vê detalhes finos que os cidadãos americanos não são capazes de perceber. Os vê por ter super-poderes? Sim, mas não nos esqueçamos que seus poderes existem justamente por ser um estrangeiro  a este mundo.

É claro que a mídia conservadora reagiu, e houve quem declarasse que os editores das historinhas do Super-Homem estavam sendo anti-patriotas. Isso já era de se esperar. Dependendo do que acontecer em uma próxima história do Super-Homem, em que ele vá as vias de fato na ONU e realmente apresente sua renúncia à cidadania americana, pode-se esperar virulência. Aí, tudo o que vai faltar é uma história com o Super-Homem usando um chapéu de frutas tropicais e cantando Carmem Miranda: “Disse-ram que eu vol-tei, Kryp-to-ni-zaaa-do”…

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