O Mr. Wheeler gaúcho

Porto Alegre foi palco de uma cena de barbárie, digna de todos os adjetivos “in/im” em que se possa pensar.

Impensável.

Incompreensível.

Indignante.

Imperdoável.

O psicopata desequilibrado que atropelou os ciclistas já foi identificado, segundo o Jornal Nacional. Já se sabe onde mora, mas ele não se encontra em sua residência. Já se sabe seu número de telefone, mas (santa ingenuidade, Batman) ele não atende às ligações. Segundo esta reportagem da rede Bandeirantes, não está confirmado se era o dono do veículo que o conduzia no momento do crime.

Independentemente de ser o dono do veículo ou não, o vídeo abaixo mostra, sem sombra de dúvida, que a intenção foi criminosa. Preste bastante atenção aos 57 segundos do vídeo, que é quando um cinegrafista amador anônimo consegue registrar a cena absurda.

O que me deixa assombrado é o dono do veículo não ter seu nome revelado. Qual a razão disso? Por que se mantém segredo sobre sua identidade? É algum “peixe grande”? Se não me equivoco, pela lei, o dono do veículo pode ser também julgado culpado pelo acontecido, tenha ou não o carro chegado às mãos do sociopata que o conduzia – no caso de o dono não ser o condutor – com seu consentimento expresso. Isso me faz suspeitar que haja um “peixe grande” envolvido nesta história… mas, isso é pura especulação.

[Atualização, 27/02/2010, 21:51 : o sociopata se chama Ricardo José Neif e tem 47 anos. Seu advogado já ligou para a polícia e deve apresentar-se à mesma amanhã. Ainda não consegui descobrir o que o sujeito faz da vida.]

Também é revoltante e inadmissível a atitude das autoridades públicas com respeito ao fato. Lamentáveis as declarações do delegado Gilberto Almeida Montenegro ao Portal Terra:

… O delegado Gilberto Almeida Montenegro, diretor da Divisão de Crimes de Trânsito de Porto Alegre (RS), criticou neste sábado o movimento Massa Crítica, organizador do passeio ciclístico que terminou com pelo menos dez ciclistas atropelados por um automóvel no bairro Cidade Baixa, na noite de ontem. Para Montenegro, o grupo errou ao não comunicar às autoridades de trânsito a realização do evento.

“O primeiro erro crucial foi esse evento ciclístico. Esse grupo cometeu um erro grave, qualquer evento desse porte se avisa a Brigada Militar (BM), a EPTC (Empresa Pública de Transporte e Circulação), a Secretaria de Segurança, para se formar um aparato para evitar situações desse tipo”, disse Montenegro.

De acordo com o delegado, o direito à livre expressão dos manifestantes não podia impedir o direito de ir e vir de pedestres e motoristas. “Aqui não é a Líbia. Aqui tem toda a liberdade para fazer manifestação, desde que avisem as autoridades. Faz a tua manifestação, mas não impede o fluxo de automóveis. Se tu impedes, dá confusão, dá baderna, dá acidente. Fica o alerta”, afirmou.

Me parece que o primeiro erro crucial não tenha sido o evento ciclístico, mas sim, deixar um carro nas mãos de um sociopata. E há um segundo erro crucial, aqui: colocar, em posto tão importante, uma pessoa que demonstra condescendência com um tal ato de barbárie. Como sempre, a corda arrebenta do lado mais fraco.

Comportamentos agressivos no trânsito não são novidade. Desde que os automóveis se popularizaram (sem nenhuma alusão ou concordância com as colocações do Prates, façam-me o favor!), o tema existe. Tanto é assim, que Walt Disney, já em 1950, lançava um curta de seis minutos que ficaria famosíssimo: “Motor Mania”. Nele, o Pateta faz o papel de um Dr. Jekyll e Mr. Hyde: fora do carro, o Sr. Walker, gentil e atencioso, incapaz de ferir um inseto. Detrás do volante, o insano e sociopata Sr. Wheeler.

O vídeo, que coloco abaixo em português, tem uma versão no YouTube com uma introdução que resume tudo: “O filme não envelheceu nem um pouco. Continua a ser uma crítica mordaz sobre como os carros convertem pessoas boas em pessoas más”. No entanto, me pergunto: o carro realmente transforma uma pessoa? Ou é o poder que o motorista sente, ao estar por detrás do volante, que lhe corrompe? Não seria uma simples questão de trazer à tona o que já existe dentro da pessoa?

E, agora, uma idéia um pouco mais polêmica. Cargos onde se sofre fortes pressões psicológicas, como o de astronauta, têm como requisitos para admissão a aprovação em testes psicológicos onde se avalia as reações a problemas que ocorram sob situações extremas. Ora, dirigir nas grandes cidades brasileiras é uma situação de extrema pressão. Não seria o caso de se aplicar testes do gênero a aspirantes a motorista, ou aos que aspirem ter suas carteiras de motorista renovadas, ao invés de aplicar testes psicotécnicos risíveis?

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