Crônicas de uma crise: Dê uma de bobo no seu CV

Publico a tradução de um texto do blog de Ana Cañil, “De Lunes” (De Segunda-Feira), no jornal espanhol Público. O texto fala do problema da superqualificação na procura de emprego, e de uma solução que já pensei em pôr em prática, se largasse a vida acadêmica. No entanto, sempre achei que era um pouco de excesso de pessimismo da minha parte, um exagero. Infelizmente, vejo que não estava sendo paranóico: é que uma crise legitima atitudes distorcidas, nefastas, que normalmente qualquer um de nós abominaria por absurdas que são. Boa leitura a todos.

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Dê uma de bobo no seu CV

Ana Cañil – Blog De Lunes – Jornal Público, Espanha

“A dissimulação é uma sabedoria enfraquecida”, dizia Francis Bacon. E a máxima é compartilhada por milhares de pessoas desempregadas por longos períodos, às quais sobram cultura e bons conhecimentos. Acabamos de confirmar o que já intuíamos, mas sem dados. Entre 5 e 10% dos desempregados que procuram trabalho disfarçam ou oculta sua verdadeira qualificação. Riscam de seus curricula o que de melhor fizeram, inclusive evitam dizer sua verdadeira profissão.

É uma das mais brutais distorções que produz a Grande Recessão. Agora, se você sabe inglês como um nativo, tem duas graduações e um mestrado, domina a informática e tem experiência de trabalho dentro e fora da Espanha, melhor escondê-lo, porque muito provavelmente o empresário presumirá que, com esta enorme formação acumulada, lhe abandonará à primeira oportunidade. Ademais, você inclusive terá muito mais conhecimentos que ele, e será um prepotente. Ou o contrário. Por mais boa vontade que a parte contratante tenha para com a parte contratada – viva Groucho Marx por este absurdo! – acontece que há empregadores que sentem pudores em pagar menos de mil euros por mês para que um arquiteto trabalhe como carpinteiro, que um matemático trabalhe de caixa em uma loja de departamentos, ou para que um jornalista entregue pizzas.

O informe da empresa de recursos humanos Adecco, que alerta sobre o problema, enfatiza uma obviedade, que ocultar a sabedoria gera frustração.  Ou, que os chefes de RH podem descobrir o que se ocultou no CV. No entanto, ante estas duas possibilidades, não é necessário conhecer a citação inicial de Bacon. Basta saber que “a fome dá mais chifradas”, como disse El Espartero (*) ao jornalista.

(*)N.T.: El Espartero foi um toureiro Sevilhano que, ao ser perguntado por um jornalista se valia a pena se arriscar tanto nas touradas, respondeu: “más cornás da el hambre” (“a fome dá mais chifradas”). Ironicamente, morreu de uma chifrada em uma tourada.
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