General Elito… começamos mal, muito mal.

Começamos o governo Dilma com a constatação de que mi Presidenta pode ter escolhido bastante mal alguns de seus ministros ou funcionários de alto escalão, em particular os das pastas militares e de segurança. Tomando o artigo de Paulo Moreira Leite em seu blog como referência, transcrevo o parágrafo em que ele cita parte do discurso de posse do novo chefe do Gabinete de Segurança Institucional, o general José Elito Siqueira, que causou bastante polêmica:

Referindo-se ao regime de 64, o general disse: “Nós temos que ver o 31 de março de 1964 como dado histórico de nação, seja com prós e contras, mas como dado histórico. Da mesma forma, os desaparecidos são história da nação, que não temos que nos envergonhar ou nos vangloriar”.

No seu artigo, Moreira Leite, muito diplomaticamente, faz todo um exercício hipotético (bem-construído, mas inútil) para depois extrair as conseqüências mais graves do proferimento do general Elito. O problema é que, ao fazê-lo, ele evita tocar no cerne da ferida ainda aberta para muitos neste país: a impunidade dos torturadores. Talvez o Moreira Leite tenha feito todo o seu experimento gedanken para evitar ficar no joguinho de construir crises onde não há, mas aqui há implicações importantes que se perdem.

Vejamos: quando o general Elito diz que devemos ver a ditadura como “dado histórico”, ele automaticamente elimina toda a sujeira que foi esse período negro da história de nosso país, destituindo-lhe de toda conexão com a moral, a ética, e todo o estrago que foi feito na (podemos chamar assim?) “psique coletiva” nacional. Sim, porque, para mim, boa parte do notório desprezo do brasileiro por instituições e símbolos, advém justamente do fato de estes terem sido fortemente exaltados pelos militares na época da ditadura. Quiçá o desenvolvimento de nossas instituições tivesse sido completamente diferente se Jango tivesse assumido o poder sem interferência dos nefastos militares do Brasil de 1960.

Se algo é apenas um “dado histórico”, bem como convinha ao ensino de história durante a ditadura – lugares, datas, acontecimentos, desprovidos de contexto, desconexos de uma análise crítica – perde-se o significado. A história torna-se mera sucessão de eventos, que nos são apresentados como acontecimentos inevitáveis, inexoráveis, quase como se alguém nos dissesse: “aconteceu assim porque Deus quis”. E, que me perdoem os religiosos, “Deus querer que assim seja” é a maior razão de o nordeste brasileiro só ter começado a crescer a “taxas chinesas” durante o governo Lula: a resignação do sertanejo nunca permitiu que esta parte de nosso povo tomasse as rédeas de seu destino, que lutasse não para a simples sobrevivência, mas para muito mais que somente ela.

Colocar os desaparecidos do regime militar como meros números, desprovidos de significado ético, moral e emocional, está em completo acordo com outra parte da declaração do ministro, que desta vez saco de um artigo do R7. Nesta declaração, em que o general se refere implicitamente à Comissão da Verdade, o general nos exorta a “não olhar para trás”:

– Não vamos ficar vendo situações do passado, pontuais, que não levam a nada. Temos que pensar para frente, na melhoria do nosso país, e podemos estar perdendo tempo, espaço e velocidade se ficarmos sendo pontuais em situações isoladas do passado.

À parte o completo nonsense de dizer que estamos perdendo “espaço” (???) ao rever os crimes hediondos da ditadura, vejo uma grande semelhança com o discurso de Serra no começo da eleição, em que ele dizia que Lula e Dilma tinham mania de pechá-lo de privatista de FHC, olhando somente para trás, e ele preferia olhar para a frente, ao invés de remoer o passado. Não é uma simplesmente pecha, é um fato, como bem demonstra Aloysio Biondi em O Brasil Privatizado.

Ao dizermos que não se deve olhar para trás em questões históricas, só pode haver dois significados possíveis:

  1. Não olhemos para trás a não ser que seja para avaliar (ou seja, não queiramos voltar ao status quo anterior), ou
  2. Não olhemos para trás para esquecermos tudo o que passou, jogar uma pá de cal e deixar tudo como está.

Tenho certeza de que o general Elito queria dar o primeiro significado, apesar de ter medo – sim, medo – do que poderia sair de uma avaliação do passado. No entanto, ele não deixou a coisa suficientemente clara, e deu a confusão que deu.

Na verdade, todo o contexto em que se insere esta declaração desastrada e desafortunada do general Elito contribuiu para a reprimenda que ele levou de Dilma. Temos uma presidenta que foi presa, torturada e que poderia ter sido um dos 183 desaparecidos políticos cujas ossadas até hoje estão perdidas por aí. Como é que uma pessoa em um cargo tão importante se dá ao luxo de abrir a boca para falar tamanha besteira?

Isso só se deu porque esta é realmente a posição do general Elito a respeito do assunto: ele acha que não devemos remexer os fantasmas do passado, mas por medo, e principalmente, por orgulho. Medo de que a avaliação crítica dos crimes bárbaros possa reabrir feridas que ainda não estão cicatrizadas – haja visto todo o mimimi da imprensa sobre a “censura” que lhe foi “imposta” por Lula, e o fato de que, ao longo da campanha eleitoral, um debate sobre a democracia e a liberdade de expressão, guiados por Reinaldo Azevedo e Merval Pereira, chegou a ser realizado justamente onde? No Círculo Militar, o ninho onde o ovo da serpente foi chocado. Elito e todos os militares têm medo que a re-avaliação dos crimes leve também a uma re-avaliação das penas que deveriam ser imp0stas aos torturadores, carrascos e criminosos oficiais da ditadura.

No entanto, há também uma componente de orgulho nas razões do pronunciamento de Elito. É o orgulho pessoal, que impede que se admita estar errado, o orgulho que suprime qualquer humildade. Os militares não admitem pedir desculpas ao povo brasileiro por ter matado, torturado física e psicologicamente, e ter desfeito lares e famílias. É o orgulho que não permite nem mesmo colocar as coisas no seu devido lugar.

Podemos fazer um paralelo um tanto pesado da relação dos militares brasileiros com seu papel na ditadura, com a relação do povo alemão e seu papel na história mundial por ter sido o berço do nazismo. Que fique muito claro que não estou dizendo que os militares sejam nazistas, apesar de os militares do regime ditatorial terem sido fascistas assassinos de sangue-frio. Mas, em conversas com vários alemães que conheci, todos eles admitem sentir vergonha da mancha que foi o nazismo, na história alemã.

Muito certamente os militares brasileiros sentem a mesma vergonha. No entanto, o povo alemão teve que conviver e digerir o nazismo, para então compreender que as gerações posteriores, que seriam responsáveis por uma nova e diferente postura alemã no mundo, não têm culpa do comportamento de seus antepassados. Os militares brasileiros preferem abafar, numa atitude covarde, seus crimes. Ao admitir e digerir o que seus dirigentes anteriores fizeram, poderiam assumir nova postura e então sim, passar a régua – mas com a lembrança histórica para evitar um retrocesso ideológico. Mas, uma vez que temos turmas da AMAN com o nome de Médici como padrinho em 2010… aí, fica difícil ter qualquer esperança de uma posição autocrítica por parte dos militares.

Em um plano diferente, o pronunciamento do general Elito acumula o karma ruim de desastre e infortúnio por gerar conflito com a ministra de Direitos Humanos, Maria do Rosário. Não apenas é ruim para o governo ter ministros em conflito entre si, mas é ainda pior termos um conflito onde o simbolismo do embate Militares x Direitos Humanos está presente. Justo em duas das áreas mais sensíveis na memória recente de todos os brasileiros? Justo nesta área onde não há cicatrizes, só um corte putrefato infestado de vermes? Estas declarações me trazem imediatamente uma analogia com a situação das investigações sobre os crimes do Franquismo, na Espanha. Só esperemos que a ministra Maria do Rosário não seja nosso Baltasar Garzón, que Dilma dê completo e irrestrito apoio aos trabalhos da Comissão da Verdade.

Em suma, eu tenho vergonha, ao contrário do que o general Elito me sugere fazer, e é dupla: vergonha de ter tido um período tão violento, tão truculento, tão sanguinário, na história do Brasil; mas também a vergonha de ter um ministro que dá declarações estúpidas, não importando sob qual perspectiva as analisemos.

Começamos mal, general Elito. Começamos muito mal.

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