O decrescimento econômico de Serge Latouche

Neste post, coloco um vídeo, em duas partes, de Serge Latouche, filósofo e economista da Université Paris Sud 1. Como o vídeo está em francês com legendas em espanhol, traduzo para os leitores que não forem familiares ou não se sentirem à vontade com estes belos idiomas.

Basicamente, a teoria do decrescimento leva em conta um fato que as teorias econômicas vigentes atualmente, não levam: a finitude dos recursos e a obviedade de que um crescimento indefinido é simplesmente impossível. Há todo um aspecto ecológico na teoria do decrescimento, que prega, na verdade, uma mudança de paradigma na economia mundial. Ao invés de computarmos as riquezas apenas pautados pelo crescimento do consumo, que na economia clássica seria o responsável pela maximização da felicidade dos indivíduos, calcularíamos as riquezas de um país por outros parâmetros, que possibilitassem a sustentabilidade dos recursos, e que respeitasse os ecossistemas do planeta.

Como se pode facilmente intuir, o assunto é complexo, mas o vídeo do Prof. Latouche fornece uma boa introdução. Para quem quiser se aprofundar mais no assunto, sugiro o livro “Prosperity without growth”, de Tim Jackson, sem tradução para o português de meu conhecimento. Praticamente terminei de ler, mas terei que começar tudo de novo: sendo um leigo sem nenhuma formação em economia, (creio que) aprendi bastante sobre o aspecto clássico do assunto com este livro, e a segunda passada de olhos vai servir para que eu possa me concentrar especificamente na teoria do decrescimento.

E, confesso mais uma coisa: o texto me parece utópico em alguns aspectos. No entanto, muito do discurso de Latouche me parece ser razoável, e acho que é sempre bom fomentar o debate apresentando idéias novas. Geralmente, novas idéias produzem uma certa desconfiança e descrença por parecerem impossíveis – até que se realizam e nos habituamos à sua então concreta existência.

Coloco a tradução antes dos vídeos, deixando-os para o final. Como sempre, desejo-lhes uma agradável leitura.

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Economista e filósofo, Serge Latouche é professor emérito de Economia na Universidade Paris Sud, presidente de honra da associação A Linha do Horizonte e presidente de honra do M.A.U.S.S. (Movimento Anti-Utilitarista nas Ciências Sociais). Especialista nas relações Norte-Sul, é também um dos fundadores do movimento do decrescimento. Sua obra “Survivre au développement” (literalmente, “Sobreviver ao desenvolvimento”) é considerada por alguns como “a Bíblia do decrescimento”.

O decrescimento – uma utopia?

Entrevista com Serge Latouche

Escolhi o furacão Mitch porque parece que os furacões são cada vez mais freqüentes nestes últimos anos, e cada vez mais fortes, o que parece ser culpa do desequilíbrio climático. Portanto, é uma das imagens que me permitiria colocar o problema de um planeta que está em mau estado, em desbarate. O problema é que já não é muito habitável, é cada vez menos habitável para nós.

O reinado do “sempre mais”

O conceito de crescimento é esquisito, porque é algo que nos é familiar, e vivemos imersos em uma sociedade de crescimento, dentro de uma ideologia do crescimento. É algo bastante evidente, mas se compararmos a outras culturas humanas veremos que é uma exceção. É algo próprio do Ocidente, e somente dos últimos três séculos, desde a chamada “Revolução Industrial” inglesa. É um conceito muito esquisito e ademais, impossível de ser traduzido à maioria dos idiomas não-europeus, porque a maioria das sociedades humanas não imaginavam que tivessem que entrar em uma trajetória em que amanhã será sempre “mais” que hoje, e em que “mais” será sempre melhor. Elas pensavam que deviam realizar algum bem comum, ou atingir um certo nível de satisfação, e que parariam ali.

O crescimento poderia ter sentido porque é uma imagem que os economistas tomaram emprestada da biologia, em particular da biologia evolutiva. Pensemos em como acontece com a semente, que cai ao solo, germina, e cresce. As plantas crescem. No entanto, as plantas crescem e morrem. Nós, a sociedade moderna, cremos que o crescimento é algo “ilimitado”.

Entretanto, é este lado “ilimitado” que nos cria um problema, pois cremos que é razoável  – por exemplo, quando se tem um déficit alimentar, ou hídrico, ou outro – forçar-nos a resolver este déficit, isto é, fazer crescer a quantidade de alimentos ou de água, disponíveis, e ao extremo, fazer crescer a saúde, até certo ponto. No entanto, fazemos do crescimento uma espécie de fetiche com toda e qualquer coisa, incluindo o crescimento da poluição , das doenças, do envenenamento e de outros problemas. Por estas razões, é um conceito perverso, porque na verdade, é inconcebível que, em um mundo finito, haja um crescimento infinito.

O Produto Interno Bruto, medida de nossa felicidade?

Quando falamos de crescimento econômico temos um índice, que também se converteu em uma espécie de fetiche, do crescimento econômico: o Produto Interno Bruto (PIB), per capita ou global. É um índice estatístico que, supostamente, mede a riqueza.

No entanto,como se sabe, nesse índice entra de tudo, incluindo a poluição, e também os gastos necessários para que se compense esta poluição. Sabe-se, ao final de contas, que as catástrofes são “boas notícias” para o crescimento do PIB, e que os remédios oferecidos, também são boas notícias.

Assim, este crescimento da riqueza medido pelo PIB, supostamente mede algo que no século XIX era uma novidade: a felicidade. A felicidade seria medida pelo crescimento do PIB, o que para o cidadão significa o crescimento do consumo. Temos que consumir cada vez mais. E aí vemos novamente o absurdo deste conceito: pelo fato de ser ilimitado, o consumo perde seu sentido, para além de um certo ponto.

Sair do crescimento?

Sejamos claros: o “decrescimento” é um slogan, não um conceito. Portanto, não é simétrico ao crescimento. Há teorias sobre o crescimento, mas não, sobre o decrescimento. O decrescimento é um slogan feito para romper, de certa maneira, com as vozes dominantes da ideologia do crescimento. Se quisermos ser rigorosos, teremos que falar de “a-crescimento”, assim como do “ateísmo”.

Assim, o crescimento é precisamente uma religião: é uma autêntica crença, um autêntico culto, com seus rituais consumistas. Deste modo, falar de “decrescimento” é querer dizer que um crescimento infinito não é possível em um mundo finito. Todos os problemas que conhecemos – ecológicos, sociais, culturais – são causados pelo crescimento.

Então, temos que sair dessa mecânica infernal, e por isso a palavra “decrescimento” tem um lado provocador.

… quantidade de bens ou qualidade de vida?

Concretamente, uma sociedade de decrescimento se basearia, de cara, em uma mudança de imaginário, em uma mudança de valores, já que a sociedade de crescimento se baseia sobre um certo conjunto de crenças. A crença de que o homem deve sempre dominar a natureza; que devemos sempre produzir para consumir mais, e isto, para produzir mais, e assim por diante; que devemos trabalhar sempre mais, para produzir mais, para consumir mais.

Precisaríamos de uma mudança completa de valores e de mentalidade, que nos deve levar a outros objetivos; uma re-valorização dos aspectos não-quantitativos, não-mercantis, da vida humana. Precisaríamos descobrir outras formas de riqueza que não sejam econômicas ou mercantis, e em particular a riqueza de relações, relações mais fortes no seio da família, relações com os amigos, com os outros, para viver melhor em sociedade. Isto é muito mais importante que consumir bugigangas.

Teríamos que re-estruturar o aparato produtivo, evidentemente, em função de outras formas de produção, porque o essencial para o planeta é que reduzamos o que os especialistas chamam de “pegada ecológica”.

A medida de nossos excessos

A “pegada ecológica” foi popularizada através do presidente francês em Johannesburgo. É a quantidade de bioespaço produtivo que nossa forma de vida consome. Em outras palavras, para alimentar-nos, para nos vestirmos, para que usemos carros, para tudo em nossa vida – e isto compreendemos facilmente com a comida como exemplo – necessitamos de terra. Um carro também requer, através dos minerais necessários à sua produção, um pedaço de terra, e a reciclagem de nossos dejetos requer, também, um pedaço de terra.

O planeta é finito, o espaço bioprodutivo – isto é, o espaço que nos permite sobreviver graças ao que produz – é limitado, neste planeta e, sabendo a população total, dividindo a superfície pela população temos 1,8 hectares por indivíduo, nos dias de hoje. No entanto, uma forma de vida duradoura, sustentável, necessitaria que se consumissem apenas 1,4 hectares por indivíduo. Portanto, o peso de nossa forma de vida, do planeta inteiro, já ultrapassa o suportável em 30%.

Entretanto, por trás desta média evidentemente há desigualdades enormes: por exemplo, se todos vivessem como os franceses, precisaríamos de três planetas, tal como disse o presidente Chirac em Johannesburgo. Isto é, consumimos cerca de 4,5 hectares de espaço bioprodutivo.

Como isto é possível? É assim porque comemos nosso patrimônio. Consumimos em algumas décadas o que se acumulou durante milhões de anos, como o petróleo e também os principais minerais, portanto isto não poderá durar para sempre. Além disto, estamos ultrapassando a capacidade regenerativa da biosfera. Afortunadamente, a Terra tem uma grande capacidade de regeneração, mas há um ponto em que a carga é forte demais.

Nota-se isto claramente com os estoques pesqueiros: pescamos mais do a natureza pode produzir de bacalhaus, douradas, linguados e outros peixes. Por isto, é imperioso diminuir nossa pegada ecológica, isto é, consumir menos bens materiais.

Catástrofes “pedagógicas”?

Um dos fundadores da ecologia dizia: “Pressinto que venha, preparada por nosso esmero, uma série de catástrofes”; dizia isto há pelo menos 30 ou 40 anos. “Se estas catástrofes não forem demasiado graves, ao ponto de fazerem desaparecer a humanidade, mas suficientes para despertá-la, eu as chamaria de ‘pedagógicas'”.

Creio que nestes últimos anos vimos uma série de catástrofes pedagógicas: a explosão do quarto reator de Chernobyl em Abril de 1986, por exemplo, foi uma catástrofe com efeitos pedagógicos porque certos países, como a Itália, rejeitaram a energia nuclear. Mesmo a França, cujo ministro do Interior assegurou de modo otimista que a nuvem radioativa pararia na fronteira, sentiu o golpe e a energia nuclear foi posta sob sério escrutínio. Também os alemães decidiram renunciar, gradualmente, à energia nuclear.

Mais recentemente, a síndrome da vaca louca foi uma catástrofe – e ainda é uma catástrofe – que provocou mudanças no comportamento dos consumidores. É uma das razões pelas quais, de modo bastante unânime, os consumidores europeus rejeitaram a introdução dos OGM (Organismos Geneticamente Modificados). Não se conseguiu uma solução completamente satisfatória, mas pelo menos a questão ainda está em discussão, e há uma grande desconfiança com respeito a esta questão.

Infelizmente, é bastante razoável pensar que, nos próximos anos, sofreremos catástrofes nos domínios da bio-genética, da eletrônica e outros. Atualmente – não sabemos se isto é uma boa ou má notícia – temos um aumento no preço do petróleo e um esgotamento dos recursos petrolíferos. Ao final de contas, o petróleo talvez não tenha sido uma bênção para a humanidade, dado o número de guerras e desastres que causa, o mais recente deles sendo, de proporções mais globais, o desequilíbrio climático.  Portanto, o Criador nos deu um “presente de grego”, ao dotar-nos de recursos petrolíferos.

Nove mil quilômetros por um iogurte

Há que se compreender que a desterritorialização e o grande deslocamento planetário são conseqüências de uma baixa artificial nos custos do transporte. Isto é, decorre do fato de as transportadoras, as empresas de transporte, pagarem uma parte ínfima dos custos. O transporte pesado não paga pelo desequilíbrio climático que produz ao planeta, e pelas catástrofes que causa no MontBlanc de vez em quando.

Inclusive, e isto é um escândalo, o transporte pesado não paga pelos custos das autoestradas, que se recusam a pagar impostos adicionais para levar mais em conta o custo real. Em parte, é o contribuinte quem paga o custo do transporte, e também as gerações futuras, que o pagarão com o esgotamento do petróleo.

Seria razoável que o petróleo e os combustíveis fossem muito mais caros que atualmente. Seria razoável que o preço do transporte fosse multiplicado por dez, ou vinte, vezes. Com isto, re-descobriríamos as virtudes da indústria têxtil francesa, as virtudes dos iogurtes e do leite locais, dos morangos de jardim, e assim por diante. Portanto, esta grande possibilidade de deslocamento é uma conseqüência da artificialização dos custos.

… re-localizar, uma resposta à globalização

Uma das medidas receitadas para a construção do decrescimento é a re-localização das atividades econômicas, porque nos parece totalmente irrazoável que um potinho de iogurte incorpore nove mil quilômetros de transporte! Uma ou duas gerações antes da nossa, tínhamos um iogurte mais saboroso e mais saudável, feito com o leite das fazendas locais, morangos de jardim, e em embalagens recicláveis.

Falo do iogurte porque foi convertido em um estudo de caso, e porque há teses sobre o assunto, mas todos os objetos que consumimos incorporam a si cada vez mais quilômetros. Há alguns anos foi feito um cálculo para a economia americana, e a média era de cinco mil quilômetros ao mês. Creio que atualmente, com a abertura aos produtos têxteis chineses, a média deve superar os seis ou sete mil quilômetros. Tudo o que consumimos incorpora milhares de quilômetros.

Assim, se quisermos limitar justamente o desequilíbrio climático, que atualmente é uma das ameaças mais sérias e facilmente identificáveis ao planeta – que não é a única; há a poluição química, bacteriológica, e outras, mas o desequilíbrio climático é facilmente perceptível e mensurável – deveríamos questionar a lógica da desterritorialização, da deslocalização, e re-localizar.

A re-localização da economia passa, simplesmente, pela re-localização da vida. Passa por re-localizar o domínio das pessoas sobre sua vida cotidiana, re-localizar a cultura de dar sentido aos lugares, em vez de desorientar as pessoas. Porque, apesar de tudo, estamos condenados a viver no lugar onde temos os dois pés, mas ao mesmo tempo temos a cabeça em outros lugares: quando estamos à beira-mar, sonhamos com as montanhas, e vice-versa; quando estamos em Paris, pensamos em Nova Iorque, e vice-versa… Deste modo, não estamos em lugar nenhum, e re-localizar significa re-inventar uma verdadeira vida territorializada.


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3 respostas para O decrescimento econômico de Serge Latouche

  1. Pingback: Valores Civilizatórios Africanos, por Muryatan Santana Barbosa e Acácio Almeida | Formação em Direitos Humanos

  2. Pingback: Menos é mais | entre ideias e cidades

  3. biocaminhos disse:

    Obrigado pela tradução!

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