Prates, o filantropo

Luis Carlos Prates, aquele que acha que um governo espúrio popularizou carro para desgraçados miseráveis que nunca leram um livro na vida, publicou sua justificativa para os comentários preconceituosos que fez alguns dias atrás.

Com um verniz (fininho, fininho…) de caridade e humanitarismo, Prates diz que “se preocupa com a felicidade dos seres humanos”. Que “não pode aceitar que uma pessoa extremamente carente subverta a ordem das necessidades e dos desejos”. Coisa típica de gente sem nenhuma boa intenção: usar uma fachada e terminologia pseudo-científicas para justificar o que, em uma análise pouco menos rasteira que os argumentos usados, se revela como preconceito puro. Quem é Prates para dizer o que é necessidade ou desejo para uma massa que acaba de ter acesso a posses, que se vê contemplada com coisas que vão bem além do simples materialismo consumista – ao contrário do que ele tanto gostaria de fazer crer – apenas recentemente?

“Desejar, todos desejamos. Necessitar, poucos necessitamos”, diz Prates. E como é que:

  1. Prates sabe do que necessitam os “miseráveis” que ele tanto critica?
  2. Prates sabe o que desejam os “miseráveis” que ele tanto critica?
  3. Prates consegue homogeneizar todos os “miseráveis” que ele tanto critica em uma massa disforme, ignorando que os motivos que levam uma pessoa a comprar um carro são os mais diversos possíveis?

O cuidado de Prates com a psicossomatização é exemplar: “(…) tenho dito que uma pessoa carente, sem recursos financeiros, e que se endivida, e que compra o indevido, como por exemplo um automóvel, está elevando o batimento cardíaco no momento em que ficar endividada, e este endividamento produz separação de casais”. Não deixa de ser verdade que problemas financeiros posam ter reflexos fisiológicos em casos onde a inadimplência é alta e levar a separações. Mas dar a entender que todo carro que alguém de classe econômica mais baixa compra é “indevido”, e dar a entender que são ineptos na administração de suas contas, é paternalismo demais.

Um dos problemas de Prates é que quase certamente não conhece a classe social das pessoas que estão ascendendo. Quando falo de “conhecer”, não é aquela coisa de caminhar na rua, olhar para um “pobre” e dizer “aaaahhhnnn, então esse é um pobre”. Não, “conhecer”, aqui, refere-se ao convívio, a ver de perto, no microscópio, e não só olhar de longe. Minha ex-esposa vinha de uma família de baixa renda, com o pai técnico da companhia elétrica do Paraná e a mãe, dona de casa. Apesar de sua baixa formação escolar, de somente o pai e o irmão terem uma renda e de a família ser formada por quatro filhos, dois em fase escolar, tinham um carro, uma moto e uma casa próprios. Tudo simples: o carro era já antigo, a moto era uma 125 cilindradas e a casa simples. Mas tudo em perfeita ordem. Pobres, no sentido de “não-ricos”, mas nada miseráveis.

E aí temos uma outra falácia do discurso de Prates: passar a idéia que quem está comprando carro era miserável. Não era. Era de classe mais baixa, com certeza, mas miserável não era. Só está com um dinheiro a mais sobrando no final do mês. É um erro típico de gente que, como Prates, não tem esse contato salutar com o povo de classes econômicas mais baixas, achar que “pobre com dinheiro na mão faz besteira”. Não é assim, e bem o demonstra o Prêmio Nobel de Economia Muhammad Yunus em seu livro “Um mundo sem pobreza”. Segundo Yunus, a taxa de inadimplência de empréstimos em um banco como o Grameen, onde pessoas completamente desprovidas de recursos fazem empréstimo, é muito mais baixa que a taxa de grandes bancos, onde pessoas que têm recursos vão fazer seus empréstimos. Os integrantes de classes econômicas mais baixas, os “miseráveis” de Prates, são na média muito mais responsáveis com o pagamento de suas dívidas e com a administração de seu dinheiro, do que muita gente “bem de vida” por aí. O que é a opinião do Prates, então? Preconceito.

Não ficou muito claro para mim o que o Prates queria dizer com “eu escrevo sobre isso e falo sobre isso há muito tempo”. Algum recurso à autoridade que vem (vem mesmo?) do fato de escrever e falar há muito tempo sobre o assunto? De qualquer modo, não somos nós que estamos entendendo “de maneira distorcida o que está sendo muito claramente dito” e que estamos “de más intenções”, simplesmente por ler nas entrelinhas dos delírios (e será que são simplesmente delírios?) ofensivos que ele vocifera tão indignadamente. Mesmo com uma concessão do benefício da dúvida sobre as reais opiniões e intenções de Prates, não se consegue melhorar sua imagem, não importa sob qual ângulo se olhe a questão.

Na apoteose de sua justificativa, Prates nos derrama toda sua iluminação intelectual e seu pendor filantrópico: “Cursei psicologia pelo amor à ciência, não ganho dinheiro como psicólogo, mas me envolvo com a felicidade das pessoas”. E foi aí que eu pensei: se não ganhou dinheiro com psicologia, foi por que não aprendeu nada no curso. E, sinceramente, devemos dar graças a Deus que Prates não esteja por aí dando nós nos neurônios do pessoal sob o pretexto de fazer psicoterapia, e ganhando dinheiro para este desserviço. Por que qualquer psicólogo sabe que não se repreende ninguém em público, ainda mais com a truculência que fez Prates, sem o grande risco de criar um trauma, ou uma revolta, na pessoa. Ultimamente ando criando uma lista de pessoas que eu nunca contrataria para determinados cargos. O primeiro nome óbvio é o de Mayara Petruso, para minha advogada. O segundo é o de Luis Carlos Prates, para meu psicanalista. Ou para chefe da diplomacia brasileira.

Mas a Madre Teresa de Calcutá de Santa Catarina não termina por aí. Ao ver casamentos devastados pelo endividamento e batimentos cardíacos alterados, isto o “afeta”. Ninguém o freará em sua cruzada em defender o bem-estar e a saúde das pessoas. O que ele não vê (ou não quer ver, ou acha que todos são tontos demais para que se possa ver) é que fica bem claro de que pessoas ele defende o bem-estar e a saúde. Não é dos “pobres”, dos que ele chama de “miseráveis” e “desgraçados”. É de quem se sente muito incomodado e – para usar da mesma aura de psicanálise da qual ele se vale – em crise de identidade por ter os símbolos materiais que lhes conferiam status social, subitamente profanados e vazios do sagrado propósito que tinham até então.

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