Quando governos espúrios não popularizam carros para quem nunca leu um livro

Ainda bem que temos um governo espúrio que popularizou o carro para quem nunca leu um livro. E esta é a verdadeira conseqüência de não fazê-lo. Notícia originalmente publicada pelo Terra. 

LÚCIA MÜZELLDireto de Melun

Famílias desestruturadas há pelo menos duas gerações, desemprego, álcool e violência. Esta foi a história de vida contada pelos pais da jovem Sabrina, que estão sendo julgados na França por terem trocado a própria filha por um carro em 2003. Outras dez pessoas fazem companhia ao casal no banco dos réus da Corte de Melun (periferia de Paris), suspeitos de terem escravizado, batido, estuprado e privado a jovem de condições mínimas de vida, como acesso a comida, roupas ou cuidados médicos.

O abominável caso de maus-tratos foi descoberto em 2006, quando um dos acusados, Éric Labbez, 33 anos, acabou deixando Sabrina em frente ao hospital parisiense, supostamente por não suportar mais ver o seu sofrimento. Na ocasião, a jovem tinha 26 anos, quase nenhum dente na boca e marcas de violência espalhadas pelo corpo, que não pesava mais do que 34 kg. Labbez também foi ouvido na sexta-feira pelo júri, após a corte escutar a história de vida de Daniel Moreau, pai de Sabrina, e Denise Moreau, sua mãe.

O julgamento se iniciou na terça-feira e o veredito está previsto para o próximo dia 17. Nestes primeiros dias, a Corte está conhecendo a biografia de cada um dos 12 acusados, para tentar compreender as razões que podem tê-los levado a cometer atos de crueldade contra Sabrina ao longo de pelo menos três anos. A vítima só deve comparecer ao tribunal na semana que vem, quando os abusos de que foi vítima serão tratados em detalhes. Os principais autores das atrocidades, o casal Franck Franoux, 51 anos, e Florence Carrasco, 36 anos, foram ouvidos na quarta e na quinta-feiras.

Os caminhos dos acusados se cruzaram ao longo da vida, marcada pela ausência de emprego e de domicílio fixo. Daniel, 53 anos, e Denise, 48 anos, foram morar com os filhos em um motor-home no mesmo campo onde Franck e Florence viviam com a famíllia e um grupo de amigos. Labbez, ex-presidiário, sem residência e ou qualquer ligação familiar, acabou se instalando no local na mesma época.

Franck teria “comprado” Sabrina em 2003, em troca de um veículo que valia 750 euros. A partir de então, o casal a teria tratado como escrava, obrigando-a a fazer todos os trabalhos domésticos, a se prostituir e a dormir na rua, mesmo no inverno. Ela só tinha direito a comer os restos de comida deixados pelos demais.

“Eu tinha medo dele Franck. Quando eu quis deixar o campo, ele me propos de ficar com a Sabrina em troca de um carro. Fiquei com medo de dizer não e acabei aceitando”, contou o pai da jovem, pouco depois de afirmar que amava “todos os seis filhos da mesma maneira” e se descrever como um pai “terno”. Apesar do depoimento de pelo menos três testemunhas, ele diz que jamais cometeu violência contra os filhos ou a mulher, mas admitiu que bebia “nos finais de semana”.

Miséria marca vida de acusados
A trajetória de todos os suspeitos é um retrato de miséria absoluta desde a infância, quando eram vítimas de maus-tratos e abandono, além de testemunhas do alcoolismo e de brigas violentas entre os país. Poucos mantém relações com os familiares, mesmo os mais próximos. Daniel – um homem calmo, lúcido e sereno – mal sabia a data de nascimento dos seus filhos, entre os quais Sabrina é a mais velha. Denise, debilitada intelectualmente, “parece não perceber a gravidade dos fatos”, conforme apontou uma instrutora da penitenciária onde ela está desde a descoberta do caso. “Muitas vezes, tenho dúvidas se ela compreende o que lhe perguntamos”, disse a testemunha. A mãe de Sabrina foi descrita como uma mulher “extremamente submissa”, e ela mesma se definiu como uma pessoa fechada e que vivia em casa porque temia os vizinhos. “O ambiente dava medo”, disse.

A maioria dos envolvidos é semi-analfabeta. Todos também tiveram passagens por serviços sociais desde a infância e cresceram se alternando entre casas de famílias voluntárias, orfanatos ou centros de reeducação. Daniel, depois de crescer entre o próprio lar e centros de acolhimento de crianças em situação precária, passou essa mesma herança a quatro dos seis filhos.

“O que se vê aqui é um quadro extremamente dramático em que uma parcela da população francesa vive. Nenhum deles teve condições de seguir um caminho diferente na vida”, afirmou o advogado de Labbez, Sylvain Lebreton. “Espero que o júri considere que, apesar de tudo, meu cliente teve um mínimo de humanidade e possibilitou que descobríssemos o que estava acontecendo com a vítima. Mas é claro que isso não desculpa os atos que ele e os demais cometeram contra ela”.

Outro ponto em comum dos suspeitos é o medo de Franck, apontado pela propria mulher como um homem violento. Além dos atos cometidos contra Sabrina, ele é também suspeito de ter assassinado um dos moradores do campo e tentado esfaquear outro. Franck é pai de dez filhos, frutos de uniões com três mulheres diferentes.

A advogada de Sabrina, Chrsitine Daveau, espera que todos os acusados sejam condenados à prisão perpétua, embora esteja consciente de que essa pena dificilmente será aplicada aos pais da jovem. “Sabrina está terrorizada, muito ansiosa. Vai ser muito duro quando ela vier aqui e tiver de encará-los”, disse. “De todos, ela tem mais medo do pai. Ela jamais vai o perdoar por não a ter protegido, mesmo quando ela o procurou por várias vezes depois que estava nas mãos de Franck e da mulher”.

De acordo com Daveau, Sabrina hoje mora um abrigo no norte da França, depois de ter sofrido incontáveis ameaças de morte. A defensora a descreve como uma mulher “extremamente frágil” e com sérios problemas de autoestima. “Quando ela ouve um elogio, fica encantada, mal consegue acreditar. Ela faz tratamento psicológico, e talvez o resultado deste julgamento seja o primeiro passo para que ela volte a ter uma vida normal”, disse.

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