Se qualquer miserável tem carro, por que é que qualquer idiota não pode ter espaço na TV?

Incrível como, após esta campanha, o ódio e o preconceito ficaram explícitos. Explícitos, porque eles não surgiram ontem, eles sempre estiveram aí, hibernando, e agora são como uma ponta de um iceberg assustador, que resolveu emergir ainda mais. O que aconteceu com esta campanha foi que, como diz a Cynara Menezes, a caixa de Pandora foi aberta. Mas, será que foi realmente só culpa do Serra, como tanto vejo as pessoas aí dizendo nos blogs progressistas?

Claro que toda essa sujeirada da campanha do Serra – os e-mails difamatórios, os vídeos terroristas – ajudou muito a polarizar a discussão. Mas, sejamos justos: não foi o Serra quem inventou o preconceito no Brasil, apesar de ele ter jogado bastante intensamente com ele em sua campanha. Dá uma olhada nesse vídeo, que vi inicialmente no Conversa Afiada, e está se espalhando por aí:

Sentiu a barra? A culpa é do Lula, que tornou possível a qualquer analfabeto miserável ter carro. Argumento rasteiríssimo, como a maioria dos argumentos da direita raivosa, da qual este Sr. Prates faz parte. Rasteiro porque primeiro, pra dirigir tem que saber minimamente ler o material de trânsito, como bem chamou a atenção a amiga Lu Roça no Facebook. Em segundo lugar, porque só mostra o nível de incômodo que a elite (sim, ela ainda existe) está sentindo com a “invasão”do “seu espaço”. Em terceiro lugar, porque o Lula não popularizou “o carro”: até agora, não vi nada como o Tata Nano por aqui no Brasil subsidiado pelo Governo Federal. Se o Lula popularizou algo, foi a renda, não o carro! E toda a falta de profundidade desse discurso absurdo do Prates se expressa através do preconceito, em frases que talvez nem mesmo o sujeito se dê conta que disse.

Vamos começar a desconstrução de discurso, mesmo que isso implique em ouvir umas tantas vezes esse erre empolado do Prates e a torrente de besteiras que ele vocifera com essa carinha cândida de quem chupa limão azedo de manhã. Uma das pérolas é a de que o pobre, que “não tem qualidade de vida” e “mora numa gaiola”, tem um carrrrrrro na garagem. Aí, o sujeito, que “não suporta a sua mulher” e vice-versa, “vão pra estrada, vão se divertir”. É isso, minha gente: pobre não tem direito a se divertir. Pobre, se divertir? Que horror!

E o Prates continua, impávido colosso da psicanálise: “E aí, inconscientemente, o cara quer compensar suas frustrações com o excesso de velocidade”. A trindade de gigantes Freud-Jung-Lacan deve estar se revirando no túmulo agora. Porque, um expoente máximo da psicanálise como o Prates, dar uma escorregada linguística e deixar claro que sua aplicação tão esperta da psicanálise é, na verdade, somente válida para algumas poucas regiões do país… imperdoável. Ou vai dizer que “vencer a curva” é expressão idiomática de ampla utilização fora da região Sul? Aí vemos a falta de profundidade maior do Prates: “não vencer a curva” é outra razão para o sentimento de impotência do pobre, que gera frustrações e, portanto, o excesso de velocidade nas estradas. Parece que são somente as classes mais endinheiradas, cultas e bem-formadas do nosso país, às quais pertence o Luiz Felipe Pondé, é que não precisam de Viagra.

No entanto, me parece que mais frustrado que o pobre – sim, porque todo pobre tem que ser mal-casado e portanto, estar frustrado; é o que sobra para quem não tem dinheiro e cultura – está o Prates, por pobre poder dividir o mesmo espaço que ele sem necessariamente estar debaixo de uma roda de caminhão. “Se um desgraçado destes é atrop… – e esta é a palavra, se um desgraçado destes é atropelado e feito sanduíche na pista, o que é que vão dizer? Este trânsito insano… “. Neste ponto, até tenho que concordar com o Prates. Um camarada que para o seu carro em uma estrada movimentada e a atravessa a pé por um impulso mórbido de ver a desgraça de seu semelhante, realmente não pode estar com todos os parafusinhos no lugar. Mas, tenho que adicionar: não é só ele que é insano, pelo que se pode ouvir.

Sujeitos como o Prates, que destilam seu ódio e seu desprezo por todo aquele que não é um “igual” a ele, sempre existiram na TV brasileira. Basta tomarmos como exemplo os vários apresentadores regionais de programas policialescos espalhafatosos como exemplo. Mas, alguns leitores argumentariam, estes dirigem-se a um público que se fascina com a violência e o preconceito. Bem, retruco eu, há um público de classe média e alta que também se deixa encantar pelo preconceito e pela violência, mas disfarçada de nobreza. É o caso de boa parte do público que concorda que tudo é “uma vergonha”, como diz o Boris Casoy. O Boris, certa feita, causou celeuma com declarações que um microfone em off captou durante a transmissão de um Jornal da Band, como bem me lembrou a Renata Oliveira, também no Facebook:

Ah, esses erros técnicos, sempre eles, a expor a real face de personagens públicas! Alguém esqueceu da “parabólica do Ricupero”? E o microfone em off do Gordon Brown, nestas últimas eleições inglesas? Essa escorregada do Casoy é uma dessas que mostram como nossa grande mídia é infestada de gente com esse complexo de sangue azul. Cabe a nós combater esses preconceitos de todos os modos que pudermos – a começar, de preferência, com boicote de audiência a esses monstros. É porque o preconceito é nocivo, pernicioso, asqueroso, que não se deveria dar espaço na TV a escroques como estes. E é por isso que necessitamos, cada vez mais, de uma ley de medios.

Agradecimentos ao Ian Rittmeister Mazzeu, à Lu Roça e à Renata Oliveira, que me inspiraram a escrever este texto.

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2 respostas para Se qualquer miserável tem carro, por que é que qualquer idiota não pode ter espaço na TV?

  1. dangerousgrrr disse:

    Sensacional o post. Adorei o blog, vou favoritar! =)
    Beijos!!

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