Roda Viva, descanse em paz

Estou fora do Brasil há cinco anos – ano que vem completo seis -, e não pretendo passar disso. Já estou com saudade de tudo que é brasileiro, até mesmo das coisas que a gente acha que não vai sentir saudades.

Quando falo que estive fora, tem um significado muito maior. Estive fora não apenas fisicamente, mas também afastado de modo, digamos, mais espiritual. Não deixei de ser brasileiro em meu modo de ser, mas tenho que admitir que deixei o Brasil, e tudo o que nele se passava, bastante de lado. Eu costumava acompanhar a política brasileira, quando ainda morava no Brasil, mas quando cheguei à Europa, deparei-me com uma realidade que não é conhecida pelo brasileiro que nunca esteve fora, e passei a acompanhar a política européia, principalmente a política nos países onde morei – Itália, Bélgica e atualmente, Espanha. Com isso, as coisas foram acontecendo no Brasil, e nunca fiquei sabendo de nada.

Voltei a acompanhar a política brasileira do mesmo modo que acompanho o futebol, só em época de Copa do Mundo. Ou, no caso da política, com as eleições presidenciais. Na época da pré-campanha, passei a acompanhar os blogs que o Serra mais tarde viria a chamar de “sujos”. Comecei pelo Carta Maior, por sugestão de uma amiga que passou seis meses trabalhando no mesmo departamento que eu aqui na Espanha, e fui “descobrindo” outros, como o Brasilianas do Luís Nassif, o Vi o Mundo do Azenha, o Escrevinhador do Rodrigo Vianna, e por aí vai. Um link leva a outro, nesse imenso iceberg digital dos blogs progressistas…

E o que me levou a acompanhar o Roda Viva, novamente, foi uma mistura de uma conversa com minha mãe, e minha entrada no Twitter. Na conversa com minha mãe, que ocorreu logo antes da votação do primeiro turno, ela, que estava completamente anti-Dilma mas tampouco aprovava muito o Serra, me disse que ia votar na Marina por causa da entrevista com o Wagner Moura, o Capitão Nascimento do Tropa de Elite. Nesta mesma conversa, me disse que o Roda Viva estava sendo apresentado pela Marília Gabriela, e que “a Marília estava ótima” à frente do programa, “conduzindo” o tema para onde ela queria. À época, não dei muita atenção, porque estava muito ocupado fazendo campanha virtual no Twitter e principalmente, no Facebook, em altas discussões com meus amigos serristas.

Logo após a vitória da Dilma, acompanhando a Hildegard Angel no Twitter, ela fez comentários sobre o Roda Viva com o José Dirceu. Eu nem sonhava que o José Dirceu poderia voltar a ser entrevistado, depois de sua satanização pela grande mídia, mas a notícia estava lá. Para minha surpresa, ao início da entrevista com o Dirceu, a Marília Gabriela apresentou Augusto Nunes e Paulo Moreira Leite como “titulares” do Roda Viva. E apenas dois outros entrevistadores estavam presentes: Guilherme Fiuza, colunista da revista Época, e Sérgio Lírio, redator-chefe do Carta Maior. Estava óbvio o que ia acontecer: em vez de uma entrevista simplesmente questionadora, um fuzilamento sumário, que definitivamente não é o espírito do Roda Viva que eu assistia há dez anos atrás. E, com a introdução que a Marília fez sobre Dirceu e sua influência, ficou claro o por que de entrevistar justo a Zé Dirceu: tentar reforçar a identificação feita insistentemente, ao longo da campanha de Serra, de Dilma com Dirceu.

Outra coisa que me chamou a atenção negativamente foi a mudança do cenário. Ao invés de termos a tradicional roda, com os jornalistas posicionados a 360 graus e em posição fisicamente superior à do entrevistado, havia apenas um semi-círculo e com todos os entrevistadores, e entrevistado, à mesma altura. O único que ficava às costas do entrevistado era o Paulo Caruso, fazendo seus cartuns.

O Roda Viva com o Dirceu foi um fiasco – para os entrevistadores. Ficou claro que Nunes e Leite não estão lá simplesmente por seus méritos jornalísticos, pois demonstraram como são rasteiros, ou pelo menos, como foram rasteiros, intelectualmente, ao entrevistar o Zé Dirceu. Paulo Moreira Leite, coitado, estava à beira de um infarto, quase gritando ao falar com José Dirceu. Augusto Nunes, mais moderado, não chegava nem mesmo a completar um argumento, já sendo desarmado pelo José Dirceu. E o Guilherme Fiuza, coitado, chegava todo cheio de marra, mansinho, achando que ia pegar o Dirceu com perguntas capciosas… e tomava tocos gigantescos do Dirceu. Foi uma coisa de apavorar, uma volta da Santa Inquisição. Por mais que não se goste do José Dirceu, há que se ter respeito ao entrevistá-lo, pois o Roda Viva não é lugar para se lavar roupa suja e expressar seus desafetos. Respeito foi o que menos se mostrou pelo José Dirceu, a começar pela Marília, que a cada bloco introduzia Dirceu com comentários claramentecharem irônicos, sarcásticos. E o Dirceu não se saiu bem, simplesmente: deu um baile. No que deveria ser um touro com cinco toureiros, o touro levou a melhor; tomou as capas e as espadas, toureou os cinco e os matou sem nem dar chance de estrebucharem. Ao final das contas, ficou evidente a soberba desses lunáticos da extrema direita: “vamos pegar o Dirceu para Cristo, vai ser fácil crucificá-lo, pois ele realmente é culpado, ele realmente é um escroque”. Tiro no pé: há uma diferença enorme entre realmente crer em algo e delirar por crenças infundadas em sua própria superioridade.

Mas, o que é que aconteceu com o Roda Viva? O Luis Nassif disse, numa sessão de twitcam, que os repórteres não se prepararam para entrevistar o Dirceu, pois um cara como o Dirceu não se entrevista sem preparação. O problema é outro, muito mais profundo: a verdade é que os colunistas da Veja e da Época são rasteiros, não têm a profundidade de uma Maria Inês Nassif, de um Mino Carta ou de um Mauro Santayana; é a mesma opinião, descobri faz pouco, que tem o Paulo Nogueira Leite no seu Diário do Centro do Mundo. São parte de uma direita raivosa, que faz muito barulho mas não sabe fazer oposição digna, elegante, inteligente – e muito menos construtiva.

Dos quatro programas do Roda Viva que assisti neste novo formato, em três vi os entrevistadores levarem foras tremendos de seus entrevistados. Já no primeiro programa, a redatora do Segundo Caderno d’O Globo teve sua crítica retrucada de um tal modo, por pura desinformação, que ficou somente com uma risadinha nervosa. Na entrevista com o Dirceu, o Fiuza tem suas perguntas praticamente ignoradas, por estar patente que eram feitas com as piores das intenções.  E no programa com o Contardo Calligaris, o Augusto Nunes tem que escutar do entrevistado que não é justo considerar todos os brasileiros mal-educados por causa do comportamento de uma pequena parcela da população. Que isso aconteça uma ou outra vez é normal, pois ninguém sabe tudo sobre todas as coisas, mesmo dentro de sua própria área de especialidade, e comete erros. O que muito me estranha é que isso aconteça em tantos programas, e com uma equipe com as credenciais que listou a Marília (aliás, outra rasteiríssima; no comenário afiadíssimo da Hildegard Angel no Twitter, “essa com certeza não é a Marília de Dirceu”) no primeiro programa.

A pergunta que não quer calar, portanto, é “como é que um programa que era tão bom pode decair tanto?”. E a resposta é simplérrima: através do uso de uma ferramenta que o Sr. José Serra tanto chorou e esperneou dizendo que os petistas fizeram com o governo, o aparelhamento. Os tucanos aparelharam o Roda Viva (na verdade, a TV Cultura, mas o caso do Roda Viva para mim, que não sou jornalista, salta aos olhos), colocando dois “jornalistas titulares” – colaboradores das revistas Veja e Época, as maiores apoiadoras explícitas mas não declaradas, juntamente com o Estadão, este sim declarado, de José Serra na campanha presidencial. Não é, absolutamente, coinciência, que o Heródoto Barbeiro tenha sido afastado do Roda Viva após o já famoso bate-boca com Serra sobre o alto valor dos pedágios. Dado que o Roda Viva é um importante programa formador de opinião, transmitido para vários estados brasileiros, é muito conveniente para os tucanos que nada seja realmente questionado. O problema é que, para isso, só há a opção de colocar o programa sob o comando de pessoas com a profundidade de uma tigela de dar água ao gato, como diz Paulo Henrique Amorim em seu Conversa Afiada.

Os tucanos trololeiam, trololeiam… mas sabem bem a importância de um aparelhamento, e o puseram em prática, às custas de assassinar o que provavelmente era o melhor programa de entrevistas da televisão brasileira. Encerrando este post, coloco abaixo os vídeos da entrevista de Dirceu no Roda Viva, para que o leitor tire suas próprias conclusões.

Roda Viva velho de guerra, descanse em paz.

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