Por que não acredito na Folha (e no PIG, em geral) – Parte I

In the final scene Norma Desmond (Gloria Swans...

O crepúsculo do PIG

Há, como é de amplo conhecimento no país, quatro veículos ou grupos de comunicação que, em princípio, influenciam fortemente a opinião pública. São eles: a Folha de São Paulo (que o Emir Sader carinhosamente chamava, durante a campanha, de “Força Serra Presidente”), o jornal Estado de São Paulo, a revista Veja e as publicações das organizações Globo (mais especificamente o jornal O Globo e a revista Época). Digo, em princípio, pois há um forte sentimento de desconfiança com relação à grande mídia.

“Existe mesmo este sentimento?”, perguntarão alguns. Existe, sim, e a grande mídia já sabe e reconhece, ainda que mantenha um certo “salto alto” a respeito, culpando o presidente Lula por causa disto. A maior prova disto é um texto publicado na edição do dia 31/10 da Folha por sua ombudsman, , do qual reproduzo alguns trechos abaixo (os grifos são meus):

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Delírios anti-imprensa

Corrida eleitoral gerou paranoia contra a mídia, que nada tem a ver com ceticismo em relação às fontes de informação, mas com desconfiança estéril

MOVIDA A denúncias e ofensas, a exaustiva corrida eleitoral que termina hoje produziu um efeito colateral grave: uma paranoia crescente contra a imprensa. O ódio figadal que tomou os eleitores estendeu-se aos diversos órgãos de comunicação, identificados com um ou outro lado da disputa. Firmou-se uma convicção de que não existe jornalismo neutro, objetivo e plural. Toda reportagem teria uma segunda intenção, de favorecer alguém. Não interessa, por exemplo, se houve mesmo tráfico de influência na Casa Civil, mas sim que a mídia mainstream deu destaque ao escândalo para prejudicar a candidata do governo.

Não se trata, infelizmente, de um ceticismo saudável em relação às fontes de informação, mas de uma desconfiança generalizada e estéril. Na guerra de versões sobre a agressão a José Serra no centro do Rio, há 11 dias, um leitor escreveu duvidando até que uma repórter da Rede Globo tenha sido ferida (“Por que não mostram a jornalista que levou um talho na cabeça?”, perguntou).

“Vocês acham que nós somos imbecis” foi uma frase que se repetiu muitas vezes nas 1.436 mensagens sobre política enviadas ao ombudsman nos últimos três meses. São leitores convencidos de que a Folha, embora não assuma, “tucanou”. Ficam irritadíssimos com qualquer notícia negativa ao governo e estão descontentes mesmo quando o jornal dá um furo como o da licitação possivelmente dirigida do metrô (“Por que não colocaram o nome do Serra no título?”).

Simpatizantes do PSDB reclamam menos, mas são igualmente agressivos. “Vocês querem o dinheiro do governo federal? Vão ter que dividir com o SBT, Record, Band, iG, “Carta Capital”, “IstoÉ”, entre outros. É o mensalão da mídia”, escreveu um leitor do Espírito Santo.

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Dos trechos grifados, vê-se que a Suzana Singer, ao invés de exercer seu real papel de ombudsman, que é proteger o leitor de abusos e distorções do jornal, está na verdade sendo outro tipo de ombudsman, um que protege a Folha dos abusos e distorções de interpretação de seus leitores, esta massa disforme que sempre está iludida a menos que acredite piamente no que se publica. E que desqualifica os leitores: são (ou estão?) “paranóicos”. Assim, sem nem disfarçar! Na maior cara-de-pau desqualifica a todos os que não acreditam no que a voz divina, portadora da razão absoluta e real reguladora dos destinos da nação, tem a dizer. A Folha ainda não precebeu que não somos uma nação de velhinhas de Taubaté.

Já se vê, também, que o público percebeu que os veículos de comunicação tomaram partido, e que tentaram impor seus pontos de vista aos leitores de modo descarado, tratando-os como “imbecis”. O que a Folha, pronunciando-se através de Suzana, não vê -ou não quer deixar transparecer que viu – é que o público sabe que há outros veículos de comunicação disponíveis, com pontos de vista completamente diferentes. São veículos que mostram outros lados da notícia, que o Quarteto Fantástico deliberadamente esconde e que, por mudar completamente a interpretação de um fato, deixa revoltado e com um sentimento de traição a quem tinha o Quarteto em alta conta. É o lado ruim (para o Quarteto, obviamente) que traz a pluralidade e diversidade dos meios de comunicação.

É emblemático, que na carta do leitor enfurecido mencionado pela ombudsman, haja menção ao iG. É um veículo de internet, que agiliza a comunicação e disseminação de informações e facilita a mobilização em massa. Apesar do alcance ainda limitado, já faz uma diferença enorme na formação de opinião – e o caso que mais me chamou a atenção foi o da bolinha de papel do Serra. Ademais da reportagem do SBT, que mostrou como a edição da Globo mudou completamente a história da bolinha, os blogs progressistas – que o Serra muito fascistamente tachou de “sujos” – foram pródigos em divulgar análises de professores universitários especializados em imagens digitais, mostrando como montagens digitais foram usadas de modo insidioso e enganador. A internet aparece como um espaço plural e democrático, onde todos têm direito a se pronunciar e onde a visibilidade pode ser alta, influindo nas versões da história que é apresentada aos leitores.

Vendo a Suzana Singer atuar não como ombudsman, mas como porta-voz da Folha, salta aos olhos a imagem de um meio de comunicação que, se não está moribundo, certamente passa por um triste declínio em sua credibilidade, recusando-se orgulhosamente a aceitar a nova realidade e a ela adaptar-se. Inevitavelmente, visualize a Folha – e os outros três veículos do Quarteto Fantástico – como a decadente Norma Desmond, brilhantemente interpretada por Gloria Swanson, em “Crepúsculo dos Deuses”. Uma passagem do filme ilustra, particularmente, como se sentem os que comandam a Folha. É quando o escritor Joe Gillis conversa com Norma:

Joe Gillis: You’re Norma Desmond. You used to be in silent pictures. You used to be big.
Norma Desmond: I *am* big. It’s the *pictures* that got small.

(Joe Gillis: Você é Norma Desmond. Você estava nos filmes mudos e era grande.
Norma Desmond: Eu *sou* grande. São os filmes que ficaram pequenos.)

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